Peixe morre pela boca ou pela ação

No dia primeiro de abril de 2010 um fato, no mínimo constrangedor, aconteceu com a equipe de futebol do Santos Futebol Clube – o time de maior “badalação” no momento aqui no Brasil – por causa dos “Meninos da Vila”. Neste dia, que antecedia o Domingo de Páscoa, o time foi incumbido de entregar 600 ovos de chocolate no Lar Espírita Mensageiro da Luz, um lar com 34 pessoas, algumas delas crianças com paralisia cerebral.

As estrelas do time, os jogadores Robinho, Paulo Henrique “Ganso” e Neymar, não entraram no lar por causa de sua religião professada, evangélica, e ficaram dentro do ônibus que os levaram até a Instituição com os jogadores Fábio Costa, Durval, Léo, Marquinhos e André, que também permaneceram no veículo.

Alguns jornalistas dizem existir uma corrente muito forte dos tais “Atletas de Cristo” comandada por Roberto Brum, que no ano passado teve um problema com Vanderlei Luxemburgo, então técnico do “Peixe”. Luxemburgo é umbandista (aconselhado por Robério de Ogum) e afastou o cristão Brum, que muitas vezes “inventava” de fazer cultos em horas impróprias.

Brum foi jogar no Figueirense, retornando agora, no começo de 2010, com a saída do treinador Luxemburgo, chegada de Dorival Jr. e com a eleição do novo Presidente santista Luis Álvaro de Oliveira Ribeiro que, junto com a diretoria, elaborou uma cartilha que proíbe qualquer jogador de fazer manifestações religiosas com a camisa do time.

No episódio do lar espírita, o técnico Dorival Jr. tentou entrar no ônibus e convencer os atletas a saírem, mas não conseguiu, causando constrangimentos, dado que muitos jornalistas cobriam o evento. Apenas 11 jogadores participaram da entrega: Felipe, Wladimir, Edu Dracena, Zé Eduardo, Arouca, Pará, Gil, Maikon Leite, Breitner, Zezinho e Wesley.

O fato gerou muita discussão entre os jornalistas esportivos e até por quem não entende nada de futebol, atingindo assim a opinião pública. Por envolver um formador de opinião como o atacante Robinho, muitas crianças gostam dele e, com isso, podem ser facilmente influenciadas por essa atitude.

Os jogadores tiveram que ir a público pedir desculpas, como no caso de Neymar e Ganso, que estiveram no programa Jogo Aberto da TV Bandeirantes, falaram sobre o assunto e pediram desculpas. Logo após Jogo Aberto, começou um programa comandado por José Luiz Datena de nome SP Acontece, e, novamente, o assunto foi abordado com estes jogadores que se desculparam publicamente sobre o incidente e prometeram volta ao tal lar espírita.

Nesse mesmo programa, o jornalista Luiz Ceará, que estava presente no ocorrido, disse que os jogadores que tinham combinado de se vestirem de coelhos para entregar os ovos não desceram porque não quiseram mesmo, e que, aconselhados por Brum, que nem foi ao local, ali seria a “casa do diabo”. Robinho liga ao programa justificando que não entraram porque, quando chegaram lá, ficaram sabendo que o lar teria “ritual de religião” e não por falta de solidariedade – e o jornalista Ceará o desmente no ar.

No dia cinco de abril de 2010, o Programa do Jô faz uma homenagem ao futebol e convoca o time do Santos, que encanta com o futebol. Jô Soares então diz: “Errar é humano, mas insistir no erro é burrice”, e o técnico da equipe, Dorival, promete que os jogadores voltarão à instituição.

E realmente voltaram: no dia treze de abril de 2010 foram apenas os jogadores mais citados (Neymar, Ganso, Robinho e Roberto Brum), deram presentes às crianças e Robinho doou uma camiseta sua para o Lar arrecadar fundos monetários.

Mas isso tudo apagou a má imagem? A instituição Santos Futebol Clube, que teve em sua história o melhor jogador de todos os tempos, Pelé, como ficou sua relação de credibilidade e transparência perante seus contribuintes? Está certo que é de praxe que, quando acontece algo envolvendo evangélicos na mídia, se ganha grande repercussão pelo Brasil, pois, mesmo sendo um país laico, ainda tem raízes católicas muito fortes.

As Relações Públicas Comunitárias vêm ganhando força no mundo esportivo e os jogadores são peças imprescindíveis para o sucesso de um programa desenvolvido por um RP, pois são eles que atraem os holofotes da mídia e patrocinadores. Imagina a Volkswagen, que tem como garoto-propaganda o jogador Robinho nos comerciais dos carros Gol, ter sua imagem arranhada por ter um formador de opinião preconceituoso e intolerante perante outras religiões.

Onde estava a equipe de Comunicação do Clube? E os assessores dos jogadores? Onde estava o profissional de Relações Públicas, se é que tem? É possível ir a um lugar sem saber o que encontrará? Este assunto foi além de apenas um clube de futebol, envolveu profissão de fé.

Para começo de conversa, os jogadores, independentemente de sua religião, deveriam ser avisados previamente sobre o local que iriam prestar o assistencialismo. A equipe de Comunicação, com o auxilio, logicamente, do profissional de Relações Públicas, deveria alertar a todos que no dia em questão seriam entregues ovos de páscoa em “tal” instituição, como seria feito, como funciona o lar e, enfim, todas as informações, já que o RP é o transformador de informação em conhecimento e que isso promoveria uma melhor visibilidade junto à comunidade e aos públicos. Jogadores poderiam manifestar-se sobre e então ser revisto o local ou chegar a algum consenso junto aos envolvidos.

A crise de imagem não foi impedida a tempo? Então teria que entrar em ação a equipe de gerenciamento de crises, se é que existe, antes do fato ser noticiado de qualquer forma ou com sensacionalismo pela mídia. A assessoria de imprensa deveria ter se antecipado ao fato e explicado o motivo, já apresentando qual seria a atitude a ser tomada para a redenção e não repetição do fato.

O Presidente do clube deveria ter solicitado uma entrevista coletiva para mostrar que estava no comando, que sua opinião era mais importante que do tal “líder” Roberto Brum e, com isto, evitaria todo esse “burburinho” público, a imensidão de debates sobre se os jogadores estavam certos ou não, se sabiam ou não. Se antecipar à crise é o caminho.

Mas, como diz Roberto Castro Neves em seu livro “Crises Empresariais com a Opinião Pública”, a crise traz benefícios, agita o ambiente, acaba com o marasmo e, acredito que nunca mais nem clube e nem jogadores repetirão tal ato. E que esse fato fique de exemplo para outros clubes, que todos possam entender a importância do profissional de Relações Públicas em qualquer instituição, pois somos, ao mesmo tempo, especialistas e generalistas. Não interessa o âmbito da instituição, o RP é indispensável.

Anúncios

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s