Semana de Entrevistas: Mestre Fábio França – Parte I

Durante esta semana preparamos para vocês uma valiosa reflexão sobre o que é Relações Públicas, uma polifonia se formou, na terça-feira vimos as duas jovens: Janaina Gomes e Kessy Christine,demonstrando todo processo de dilemas e expectativas de quem encerra ou esta para encerrar o ensino médio. No meio da semana foi a nossa vez, todos da equipe deram seus depoimentos de como chegamos, como vemos e o que esperamos para o futuro quando o assunto é a profissão relações públicas.

O recém formado Fernando Cosseti que passou por diversas empresas até chegar à Infraero, compara o RP a um artesão.

Mas mestre é mestre, e conversamos com o professor, doutor, filósofo, psicólogo teólogo, jornalista e o ser humano fantástico chamado: Fábio França.

Era uma quinta-feira fria, eu ansioso para conhecê-lo, quando toca o telefone da biblioteca da faculdade e anunciam: “Diego, um professor esta na portaria e disse que veio para conversar com você”, era ele! Marina desce o elevador comigo ofegante e não parava quieta.

Seria pouco dizer que entrevistamos o professor Fábio França, tivemos uma aula com ele. Mas vamos lá, eu, Taís, Marina e Marcela compartilharemos a nossa experiência.

VRP – O senhor considera valido um novo Parlamento Nacional de Relações Públicas como o que aconteceu em 1998?

FF: A função de RP é uma função democrática, não deve ficar presa a uma lei. Seu exercício deve ser livre como em países do primeiro mundo. A nossa lei vêm da época da ditadura, que se preocupou em regulamentar as profissões que lidavam diretamente com a informação, como as relações públicas, o jornalismo, cinema, teatro. O objetivo era controlar a difusão de informações e criar um dispositivo que pudesse punir quem não seguisse os ditames do governo. O Parlamento Nacional foi o maior trabalho feito até hoje para tornar as relações públicas valorizadas e abertas aos profissionais de outras áreas, que por meio de uma especialização na área poderiam ter seu registro como relações-públicas. A pesquisa do Parlamento demonstrou que os relações-públicas defendiam a regulamentação, como os jornalistas defendem o retorno do diploma, que não se tornou mais necessário por decisão do Supremo Tribunal Federal. Há uma miopia na cabeça dos jornalistas e dos relações-públicas que defendem essas regulamentações. Porque um médico e outros profissionais podem ser perfeitamente um jornalista, um relações-públicas. Hoje, temos várias pessoas que não são da área de comunicação, fazendo comunicação e com sucesso. Há, inclusive, cursos de administração que estão formando comunicadores então, não tem porque essa reserva de mercado. O mundo mudou, ninguém mais é dono da mídia, não posso dizer mais o que deve ou não dizer e fazer, as pessoas tornaram-se ativas e editam seus próprios textos, criticam a posição das empresas e as opiniões da imprensa. A empresa é livre, contrata quem ela quer, tem que tocar o negócio, não pode ficar esperando que haja uma lei regulamentado as atividades da comunicação para poder contratar pessoas certas para defenderem seus interesses diante dos diferentes públicos.

As pessoas mudam muito de posição, um dia alguém luta contra a repressão e no outro é a mesma pessoa é quem reprime e contesta. É muita falta de visão de mundo, acho que a primeira coisa que um profissional de RP deve ter é mente global, olhar o universo das relações públicas que pode levar o profissional a trabalhar em qualquer lugar do mundo! Em Brasília existem mais de 200 profissões que entraram com pedidos de sua regulamentação. Isso é um atraso mental. Daqui a pouco você não vai mais poder varrer a sua porta porque só um varredor regulamentado o poderá fazer. Não tem cabimento ficar regulamentando tantas atividades de caráter geral. Nós temos medo de sair da burocracia portuguesa, isso é corporativismo, é imperialista. O brasileiro é um povo passivo, ao contrario dos hispano-americanos que gritam mais, que lutam. O brasileiro aceita mais, porque essa foi a cultura transmitida pelos portugueses. Fomos criados numa cultura de fantasia, com muita submissão, por isso não reagimos e não agimos. Diante de um mundo sem fronteiras, das internet, das redes sociais, ficar defendendo tais posições é um atraso mental.

VRP – Qual era a sua expectativa quando prestou vestibular para o curso de Relações Públicas?

FF: A minha expectativa era ter um curso que me qualificasse, porque na época eu já exercia essa profissão, eu fazia jornalismo, trabalhava com meios de comunicação, editava jornais, revistas, então, antes de fazer o curso, já tinha a prática. Quando fui para o estado do Rio de Janeiro procurar o curso pioneiro de RP na PUC, eu buscava algo mais amplo, algo mais global, que me mostrasse o mundo sob outros ângulos. Tive aula como prof. Walter Ramos Poyares na PUC, que tinha uma visão espetacular sobre as RP. Tudo o que eu li depois, foi repetição, porque ele sabia o que era RP. Eu trabalhei 10 anos em radiodifusão, montei estações de rádio, fui gerente de gráfica e participei de muitos programas de TV. Eu tinha a necessidade de estudar a comunicação, de entender como praticá-la e desde então fiquei trabalhando nessa área. Fui me aprofundando, lendo, me preparando melhor. Depois voltei para Minas Gerais (estado onde nasceu) e trabalhei por lá no campo editorial e do jornalismo. Vindo para São Paulo, trabalhei como jornalista fazendo matérias para diversos jornais, dando consultorias. Eu fiz a faculdade de propaganda e marketing, hoje ESPM, que não conclui porque fui fazer psicologia. As ciências que mais me ajudaram na área de comunicação foram justamente a psicologia e a filosofia. A última porque te ajuda a ordenar o pensamento, a saber o porquê das coisas; a outra porque ajuda a compreender as pessoas, suas atitudes, motivações e comportamentos. Acabei fazendo o mestrado e o doutorado em Ciências da Comunicação – Relações Públicas, na ECA/USP.

VRP – Sobre as disciplinas de base humanísticas, como filosofia e psicologia, qual a importância para a nossa formação?

FF: A filosofia é de importância para o relações-públicas; você pode fazer uma especialização. A filosofia ensina a ordenação do pensamento, a sistematização lógica de seu raciocínio. Eu acredito que falta no curso de RP a disciplina da lógica porque ela é importante para tudo. E a psicologia nos faz entender as pessoas, compreender suas expectativas, o que nos ajuda a selecionar os tipos de ações que a empresa deve usar no relacionamento e na comunicação com seus funcionários. A administração precisa ser oferecida com maior amplitude porque é muito ruim quando você vai para uma empresa e não entende nada dos conceitos atuais da administração. É importante conhecer essas coisas em profundidade. Necessárias também são as disciplinas dedicadas ao empreendedorismo, à liderança, pois preparam os estudantes para serem independentes a trabalharem por conta própria em suas agências. E outra matéria que seria muitíssimo interessante são as relações internacionais, que algumas faculdades já introduziram, pois abrem a cabeça dos estudantes para outras oportunidades se lhes acenam com trabalhos de relações públicas em qualquer lugar do mundo. Os estudantes têm de alçar voo. A profissão de RP é uma profissão mundial, você não pode ficar parado só na parte operacional. Em um curto espaço de tempo, você pode ter uma carreira muito interessante. Mas tem de ter atitude, querer se preparar, ter a educação continuada. Se especializar em alguma área e ir buscando outras. Por exemplo, a sustentabilidade, que é uma área que mais gerará empregos nas próximas décadas, porque o mundo mudou, entendeu que é necessário lutar pela preservação do planeta terra. E o profissional de RP que se especializar nessa área encontrará ótimo mercado. Mas, é preciso estudar muito, pois se trata de uma área complexa e difícil. Nada se improvisa! Não pode ter enrrolação, você tem de lutar pelos seus objetivos. Ser um generalista somente do ponto de vista em que seu o conhecimento seja amplo, mas não basta querer saber um pouquinho de cada coisa. As empresas esperam que você saiba fazer as coisas próprias de sua profissão, e não só jornal mural. Então, a carreira profissional tem suas possibilidades, mas pede que a pessoa vá se especializando na medida em que ela tem oportunidade. Aproveite e aprofunde-se em cada área que tiver oportunidade de trabalhar. Há muitas oportunidades para os relações-públicas nas áreas da saúde, da política, do ambiente, da responsabilidade social, por exemplo.

VRP – Porque escolheu estudar Relações Públicas?

FF: A necessidade que eu tinha era justamente conhecer em profundidade a comunicação, já que trabalhava nessa área; precisava me aprofundar nesse tipo de conhecimento. Fui desenvolvendo minha carreira na área social e do jornalismo. Trabalhei em algumas editoras, como na Editora Abril. Trabalhei depois na Caterpillar Brasil, onde fui gerente de Relações Públicas durante 15 anos, época a partir da qual me dediquei diretamente ao estudo e ao exercício das relações públicas. Participei e cursos e de encontros dos comunicadores da empresa nos Estados Unidos. Foi nessa época também que participei ativamente das associações de classe da categoria, do Sistema Conferp, da ABRP, do Sindicato e de outras associações ligadas à área das relações públicas e da comunicação. Comecei também a trabalhar como professor de Relações Públicas. Depois de muitas experiências, conheci a professora Sidinéia Gomes Freitas e reunimos nossos trabalhos e lançamos juntos o livro“Manual da Qualidade em projetos de comunicação”, a primeira obra dedicada aos projetos experimentais e que serviu de orientação para boa parte dos estudantes de relações públicas.

Continuei sempre a estudar os melhores autores da área, adquiri muitas obras de referência. O que posso dizer aos estudantes é que mais vale a pensa seguir a orientação de um grande autor do que apenas se limitar a leitura de artigos esparsos, que não lhe oferecem uma visão global da nossa atividade.

VRP –E sobre web 2.0 e redes sociais ?

FF: A atividade de RP não muda, mas com as redes sociais, temos a oportunidade de trabalhar as relações numa plenitude muito maior. Com elas, dispomos de recursos que jamais tivemos no passado. Isso permite fazer uma excelente comunicação mais ampla e eficaz da empresa e a abrir um diálogo frutífero com seus públicos. Mas, o profissional de RP precisa usar esses recursos com muito cuidado, saber utilizá-los da melhor forma possível para se estabelecer um diálogo efetivo com os diferentes públicos. A empresa também pode criar uma rede para os próprios funcionários, para fazer a troca dos conhecimentos, aproveitarem seu conhecimento latente para melhorar situações internas. As redes precisam ser monitoradas, a empresa precisa saber em que redes aparece, o que dizem dela e por que está sendo citada.

Caterpillar Brasil

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15 pensamentos sobre “Semana de Entrevistas: Mestre Fábio França – Parte I

  1. Genial esta ideia de trazer diferentes (ou iguais) visões de mundo e de relações públicas, a partir da experiência de cada um.

    Não posso deixar de comentar aqui a importância do Fábio pra consolidação da minha opção por Relações Públicas em março de 1990, quando eu estava no primeiro semestre do curso no interior do Rio Grande do Sul – cidade de Santa Maria – onde ele foi palestrante de um evento, ainda no tempo da Caterpillar.

    O que foi mostrado e a forma de comunicar do Fábio me fizeram ver que realmente eu tinha acertado na escolha do Vestibular. Ele nem sabe desta breve historinha e tampouco sabe que estive nesta plateia há tanto tempo atrás, mas é sempre bom poder situar as questões históricas de nossas carreiras.

    Obrigado pela oportunidade, deste contato e da leitura do post.

  2. Fábio França sempre dando uma aula maravilhosa! Muito obrigada a equipe do Versátil RP por esta grande e valiosa entrevista!

    Abraços!

  3. Grande mestre – Fábio França.
    Sempre que o sejo ficamos horas conversando. Gosto demais dele. Sempre grandes aulas. E como vc disse, muito simpático.

    E o que muito me admira são esses tipos de pensamentos: – “Daqui a pouco você não vai mais poder varrer a sua porta porque só um varredor poderá fazê-lo. ”

    Isso é a mais pura verdade… vejo bastante no twitter os RPs de ‘mimimi’, – o conselho não faz nada – ngm nos dá atenção – olhem o que falaram de nós.
    Poxa gente, comunicação muito mais que uma regulamentação…
    Admiro o Mauro Segura que é formado em engenharia (se eu não me engano) e conduz muito bem a IBM no departamento de Comunicação. Temos que pensar para frente e não nos prender em ‘regras’ passadas.

    Eu admiro o França, por cada pensamento dele. E parabenizo a equipe pela entrevista.
    Foi demais.

    Abraços,

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  5. Esplendida a entrevista do Fábio França. Como ele deve lembrar tralhamos juntos durante muitos anos quando a Caterpilar era cliente da Inform. Para aqueles que desejam ter ou já tenham uma empresa de RP coisa muito importante – bom são os clientes que permitem a troca de conhecimentos. O Fábio foi um grande cliente com quem trocamos muitas informações. Conversar com Fábio é ter uma aula de cultura geral.

    E vejam porque ele foi e é um grande RP. Não se limitou a um curso de RP. O curso foi uma complementação a todos os conhecimentos que já possuia.

    Dar parabéns para o Fábio já é lugar comum. No entanto espero que mais e mais entrevistas sejam feitas com ele.
    Ele tem muito a dar para a nossa profissão.

  6. Caro França
    Magnífica sua entrevista. Apesar da distância compartilhamos para as relações públicas uma visão mais humanística e para as políticas cartoriais elegemos o seu fim. Muito bom!
    Um forte abraço do amigo
    Prof. Ms Roberto F. Vieira

  7. Parabéns pela entrevista, para o grupo Versátil RP!

    Sou admiradora do Prof. Fábio França, que sempre apresenta abordagens que transcende o escopo usual dos padrões limitadores de parlamentos e regulamentações. E demonstra através de seu trabalho, aplicações de ações aos diferentes públicos, pois parte de uma visão mais ampla da ambiência competitiva, refletindo sobre os aspectos sócio culturais, que é de suma importância, e a motivação para a diversidade e a gestão socialmente responsável do profissional de Relações Públicas.

    Um grande abraço ao prof. Fábio e a grupo!

    Profa. Denise M. Aquino

  8. Oi Equipe,

    Parabéns pela entrevista com o Mestre dos Mestres, Fábio França. Deve ter sido uma experiência única…
    Não o conheço pessoalmente, mas creio que mais do que excelente RP, ele seja um ser humano fantástico.
    PS: Não posso deixar de comentar que, ele tem jeito de vovô fofuxo, rsrsrs.

    Beijos.

  9. Excelente entrevista!
    Ainda estou me adaptando e conhecendo um pouco mais desse universo incrivel das Relações Públicas e fico extremamente satisfeita e feliz pela minha escolha ao me deparar com pessoas como o mestre Fábio França.
    Parabéns a toda equipe do VRP por nos propiciarem algo tão bom.

    Abraços
    Lilian Simon

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