A Igreja “apartidária” e o Estado “laico” – uma análise do cenário

Há alguns dias, quando comecei a acompanhar o caso Igreja x Política, brinquei no twitter: “Essa possível crise será um ótimo case”. E de fato, tornou-se um objeto de estudo muito atraente não somente para mim, estudante de relações públicas, mas talvez para os cientistas sociais e políticos, teólogos, historiadores, sociólogos e assim por diante. Tais manifestações demonstram uma quebra de paradigmas na trajetória histórica da Igreja Católica e nas religiões de forma geral. Além disso, afirmou a importância dos novos meios de comunicação, como as ações de militantes por meio do próprio twitter e outras redes sociais.

Estamos num período de campanhas eleitorais e, como de costume, alguns assuntos de interesse público tornam-se mais acentuados na pauta social. Esse case, especificamente, gira em torno do tópico ‘aborto: legalizar ou não legalizar?‘ Isso gerou declarações, manifestos, apoios, neutralidade e uma possível crise institucional na Igreja Católica Apostólica Romana no Brasil. Já li textos de todos os lados da história, Igreja, partidos, prós, contras, mas não encontrei algo baseado nos estudos das relações públicas, opinião pública e administração de crise.

Antes de contextualizar e expor as ideias, deixo claro que o texto trata-se de uma análise de cenário, com a visão de uma futura profissional de relações públicas. Tentarei não manifestar minhas opiniões pessoais ou a opinião da equipe do Versátil RP sobre as instituições e pessoas citadas no texto.

CONTEXTO

A polêmica tomou maiores proporções quando o bispo católico da diocese de Guarulhos, Dom Luíz Gonzaga Bergonzini, declarou no editorial da “Folha Diocesana”, em edição de outubro de 2010, a seguinte frase: “Não votem em candidatos ou partidos que apóiam o aborto. Reafirmo […]: Não dêem seu voto à Sra. Dilma Rousseff.”

Antes disso, em julho, o bispo concedeu entrevista para a Folha de São Paulo. Na ocasião, o jornal questionou por qual motivo, mesmo com a recomendação da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) pela neutralidade na campanha, Bergonzini decidiu explicitar sua posição contrária à candidata Dilma Rousseff. “Em primeiro lugar, que recomendação é essa? A CNBB não tem autoridade nenhuma sobre os bispos. Eu segui a voz da minha consciência. Sou cristão de verdade e defendo o mandamento ‘não matarás’. Não tem esse negócio de ‘meio termo’ ”, afirmou o bispo.

Após a repercussão da polêmica, a CNBB reafirma sua postura neutra, e declara em nota oficial, emitida no dia 08 de outubro de 2010: “Reafirmamos, ainda, que a CNBB não indica nenhum candidato, e recordamos que a escolha é um ato livre e consciente de cada cidadão”.

No dia 17 de outubro, no bairro do Cambuci, em São Paulo, a Policia Federal apreende por determinação do TSE cerca de 1,1 milhões de panfletos assinados por bispos do Estado de São Paulo, incentivando o voto contra o PT. A intenção seria distribuí-los nas missas e celebrações durante os próximos finais de semana, com o objetivo de intensificar a campanha contra a candidata Dilma Rousseff. Todavia, o Regional de São Paulo, representado pelo religioso Dom Nelson Westrupp, declara na ocasião, em nota oficial, que “o Regional Sul 1 não patrocina a impressão e a distribuição de folhetos”.

Ainda na mesma data, aproximadamente 260 jovens representantes da Pastoral da Juventude, núcleo que integra a Igreja Católica, divulgam um manifesto em prol à candidata do PT, em que fazem a seguinte afirmação: “Assim como dezenas de intelectuais, agentes de pastoral, bispos, padres, religiosos e religiosas, nós, jovens católicos abaixo-assinados, posicionamo-nos em defesa de um Brasil justo, livre e igualitário e combatemos o retrocesso conservador representado pela candidatura do tucano José Serra (PSDB)”. O mote do manifesto é: “Sou católico, Sou Jovem, Sou Dilma! No dia 31 de outubro vote 13!”

ANÁLISE DO CENÁRIO – OS PÚBLICOS DA IGREJA

Pensemos agora na estrutura hierárquica da instituição Igreja Católica Apostólica Romana no Brasil. Há a CNBB, que está dividida em 17 regionais em todo país, divididas em sub-regionais, dioceses, paróquias, comunidades, pastorais e movimentos. Logo, nota-se a complexidade no sistema de relacionamento. É necessário considerar contextos sociais de cada local em que a Igreja está inserida.

Sobre as questões políticas e sociais, a Igreja possui sua própria doutrina e declara-se laica, ou seja, sem uma postura unificada com relação a partidos ou ideologias. Entretanto, mantém ações que motivam a consciência e participação política, como o Movimento Nacional Fé e Política.

Destaquemos agora os públicos diretamente envolvidos no caso: a CNBB, os bispos contra o PT, os bispos neutros, a Pastoral da Juventude, o PT e o PSDB. Analisando o contexto e a linha do tempo dos acontecimentos, pode-se observar uma divisão de opiniões entre o público “colaborador”, visto que os bispos e agentes de pastoral (PJ) podem ser nomeados desta maneira, e o órgão de maior hierarquia, que administra a instituição no Brasil. Ainda que esta declare sua neutralidade partidária, os públicos manifestam-se de alguma maneira, contrariando a homogeneidade da organização. Ou seja, a Igreja representativa deixa de ser laica.

Como administrar os valores, as doutrinas, os relacionamentos, as opiniões, os interesses e a estrutura da organização? Eis a essência do caso, pode-se dizer que há a possibilidade de uma crise institucional, oriunda da controvérsia pública.

O PAPEL DOS LÍDERES E A ESPIRAL DO SILÊNCIO

Além da controvérsia pública, a análise do papel dos líderes de opinião é extremamente importante nesse ou em qualquer outro caso. Ao observarmos que a cada subdivisão da Igreja há um bispo, padre ou coordenador que representa, transmite informações e orienta um grupo de pessoas, logo identificamos a personificação e as atribuições citadas por Canfield:

“O grupo sempre luta pelo direito, a justiça, a verdade, a honra. Defende o fraco contra o forte, o certo contra o errado. Justificativas morais e idealistas são uma defesa comum contra perseguições, reais e imaginárias, de grupos rivais. Apelar para o idealismo, equivale a correr a cortina para encobrir a ganância, a inveja, o ódio e demais emoções interiores do grupo. O que um grupo considera “justo” é freqüentemente personificado por um líder no qual se atribuem todas as virtudes e alguns dos vícios comuns ao homem.” (pág 35)

Para fins pessoais ou de análise geral é necessário ter consciência da importância dos líderes na sociedade. Suas opiniões, argumentações e posturas levarão consigo multidões que talvez sejam passivas de reflexão e conceitos próprios. Esses seguirão, portanto, a opinião do grupo dominante. Na mesma obra, Canfield acrescenta:

“No empenho de moldar a opinião de grupos pequenos e homogêneos, deve-se levar em conta a influencia de seus líderes na formação da mesma. Em virtude de sua posição oficial, eles exercem grande influência na opinião de seus liderados”.(pag 45)

Deste ponto pode-se identificar ainda a hipótese da espiral do silêncio. Nesta, por receio do isolamento social, os demais grupos que constituem a Igreja mantêm-se calados com relação à suas verdadeiras opiniões e seguem a dominante, ou seja, a neutralidade. Por outro lado, há a quebra do paradigma da espiral do silêncio, pois mesmo com visões divergentes, o bispo Dom Luíz Gonzaga Bergonzini e a Pastoral da Juventude manifestam suas opiniões controversas àquela que seria institucional.

O PROFISSIONAL DE RELAÇÕES PÚBLICAS

Ao contextualizar, analisar o cenário e verificar o papel dos líderes, qual seria a melhor postura do profissional de RP como gestor de comunicação e relacionamento da instituição Igreja Católica Apostólica Romana no Brasil, representada pela CNBB?


  • Partindo da premissa que o assunto central é de teor político e religioso, eu faria uma reflexão interna sobre os conceitos de laicidade e partidariedade. Até que ponto a Igreja é apartidária e o Estado é laico?
  • Ao chegar num consenso, é essencial munir todos os públicos da instituição com informações que possam gerar conceitos com bases éticas e sem conflitos explícitos;
  • Unificar o discurso entre os líderes de opinião, equilibrando suas atuações religiosas e partidárias, ressaltando a importância de dissociar as ideologias e interesses;
  • Utilizar os veículos de comunicação de massa – mídia impressa, televisão e rádio – para transmitir oficialmente a postura da instituição, além de forte empenho nas redes sociais e site oficial. Se necessário, realizar uma coletiva de imprensa com as principais emissoras de informação do país;
  • Administrar a crise entre os relacionamentos internos, estabelecer maneiras harmônicas de manifestação de opiniões, respeitando a liberdade de expressão de cada individuo;
  • Ao longo do desfecho introduzir uma cultura de valorização da instituição e seu papel social como formadora de opinião e líderes críticos;
  • Apesar do caráter apartidário, é importante manter um bom contato com os poderes públicos. A instituição Igreja faz parte do Estado. Logo, o relacionamento deve ser harmonioso.
  • Para possíveis crises elaborar um manual de prevenção de crises;

Enfim, evidentemente essa reflexão poderia ir bem mais a fundo e ainda dilatar outros temas, mas por enquanto fico por aqui. Mas a pergunta para você, estudante ou profissional de RP, é a seguinte: qual seria sua postura nesse caso?

Referências:

Diocese de Guarulhos

Folha OnLine

CNBB

FS Freitas

CANFIELD, Bertrand R. Relações Públicas: princípios, casos e problemas. 2.ed. São Paulo: Pioneira, 1991.

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2 pensamentos sobre “A Igreja “apartidária” e o Estado “laico” – uma análise do cenário

  1. Boa análise, Taís, você conseguiu fazer uma leitura interessante sobre os fatos recentes. Acredito que a questão religiosa nas eleições vai bastante além dos fatos que você citou, mas é sempre bom ter um foco.

    Só não concordo com as ações que você propõe para o profissional de RP no âmbito da Igreja, pois elas caem na discussão ideal x real, já que existem interesses diversos dentro da instituição.

    É claro que a Igreja, enquanto orgânica, tenta ter uma unidade de discurso, o difícil, como você mesmo pontua em sua análise, é gerenciar as diferenças ideológicas e de opiniões presentes e isso vai além dos limites das relações públicas.

    Um beijo,

    Anderson Bueno.

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