Vera Giangrande – A dama de ferro das Relações Públicas

Para contar a história das  relações públicas no Brasil é mais que necessário citar e contar a belíssima história de Vera Giangrande. Além de quebrar paradigmas na comunicação, Vera foi uma mulher ousada no mundo corporativo, foi, por diversas vezes, pioneira nas funções em que desempenhara.

Vera de Mello Giangrande, paulista, nascida em 04 de janeiro de 1931, apaixonada por leitura cursou aos 16 anos biblioteconomia na Escola de Filosofia Sede Sapientiae. Para manter-se Vera criou o “Crema Café” no centro de São Paulo, que mais adiante viria a ser um restaurante.

Seu primeiro trabalho diretamente na comunicação foi quando respondia cartas de leitores de uma revista médica. Em 1967 assumiu a gerência de uma multinacional. Posteriormente foi redatora de propaganda nas empresas Colgate Palmolive. Aos 30 anos assumiu o cargo de Relações Públicas na J. Walter Thompson. Por volta dos anos 60 Vera conclui o curso de jornalismo e psicologia social e infantil.

Com a Lei Federal número 5.377 de 11 de dezembro de 1967, Vera e mais 400 profissionais puderam se registrar como relações públicas. Entre 1968 e 1975 Vera realizou vários feitos na profissão, foi a primeira mulher a obter cargo de gerência em relações públicas numa empresa norte-americana, foi diretora na agencia ADS e foi parceira de Carlos Eduardo Mestiere na Inform Consultoria de Relações Públicas, parceria esta que durou 17 anos.

Em 1981 ganhou o Prêmio Opinião Pública na categoria Eventos Especiais de Iniciativa Privada. Em 1983 assumiu a presidência do Conselho Regional de Profissionais de Relações Públicas 2ª Região, São Paulo e Paraná. Presidiu ainda o Conselho Federal de Relações Públicas e Capítulo Brasileiro da Associação Internacional de Relações Públicas. Participou efetivamente da história da ABRP, Aberp e Sinco.

Por mais de dez anos foi professora de relações públicas na FAAP e ESPM. Vera enfatizava a diferença entre o bom e mau profissional de relações públicas e destacava dois aspectos importantes, a imagem corporativa e a imagem constitucional, dizia que em ambas não são os relações públicas que as fazem, mas é nosso dever organizá-las para que todos os públicos da organização recebam a mensagem ética e transparente de forma parcial. Dizia ainda que o principal objetivo das relações públicas era o de criar imagens tão fortes ao ponto que virassem signos da organização.

Em 1984 Vera recebeu um convite da rede de fast food McDonalds. Foi Vera Giangrande que criou o “McDia Feliz”, que destina a renda à entidades que fazem tratamento de câncer infantil. Vera também foi responsável pelo projeto Memória Vera Cruz, o estúdio de cinema da década de 50, graças a esse projeto o acervo permaneceu na memória nacional.

Vera Giangrande foi uma mulher pioneira em várias ações e destaca-se a participação no clube Rotary, que geralmente era composto apenas por homens. Lá foi Secretaria por alguns anos e foi uma das primeiras mulheres a chegar na presidência rotariana.

Vera afirmava que o segredo da comunicação era o saber ouvir e para

“quem quer conseguir a excelência na comunicação deve, por um lado, ser levemente “pirado”, um tanto quanto neurótico. Neurose em pequena dose é ótimo, é pimenta. Por outro lado, deve estar motivado. Eu diria que a motivação às vezes substitui com vantagem a neurose.”

Em maio de 1993 Vera assumiu o posto de ombudsman no grupo Pão de Açúcar, novamente foi pioneira do ramo no Brasil. No Grupo Pão de Açucar o ombudsman tinha estreita relação com a presidência e total liberdade para questionar qualquer setor para representar o cliente. Para ela esse setor deveria priorizar a qualidade humana no serviço.

Vera Giangrande faleceu no dia 22 de agosto 2000, aos 69 anos, de parada cardiorespiratória, um pouco antes de seu embarque para o Rio Grade do Sul onde faria uma palestra. Foram feitas muitas homenagens à Vera, entre elas a dos jornais O Estado de S. PauloFolha de S. PauloDiário Popular:

 “A partir de hoje, o céu vai ser um lugar melhor pra se morar. 

Hoje cedo, quando Deus foi abrir a porta do céu, a Dona Vera estava lá. Olhando tudo, observando, querendo saber, perguntando e ouvindo todos.

E quando alguém lhe disse:
— Mas, Dona Vera, aqui é o Paraíso!
Ela provavelmente respondeu:
— Tudo bem, mas se der pra melhorar, a gente melhora.
E nós que ficamos aqui sem ela, sentimos um vazio, um nó na garganta, uma saudade grande. E só deixamos transparecer nossa tristeza porque Dona Vera não está mais aqui.
Senão ela ia dizer:
— Que cara é essa, gente? Vamos pra frente, consumidor não gosta de cara triste. Bota um sorriso nesse lábio e vamos fazer melhor.
Tá bom, Dona Vera. A gente vai chorar por dentro e sorrir por fora, mas só vamos fazer isso porque já faz parte da gente sua alegria de encantar a todos e também porque sabemos que suas idéias nunca vão morrer.”

Paulo Nassar também deixou suas palavras sobre Vera:

“Vera fez sua despedida bem ao seu jeito, mandando uma mensagem que os bons decifradores de códigos entenderam. Vera, que amava os públicos, escolheu morrer no aeroporto de Congonhas, entre centenas de pessoas. E nada melhor, para gente como Vera, que deixar esse mundo num aeroporto, e dizer metaforicamente que nesses dias pesados, em que as organizações são tão fortes quanto governos e exércitos, é preciso ser leve como um passarinho. Escolher, com eficiência e eficácia, a música e a tonalidade certa para mudar para melhor o comportamento de empresários, políticos, fornecedores, líderes comunitários, chefes de organizações não-governamentais e outros cabeças-duras.” (Jornal Última Hora, 25 de agosto de 2000).

Vera escreveu o livro: Marketing de Relacionamento no varejo, pela editora Atlas em 1999. O jornalista Alexandre Volpi entrevistou  35 fontes e escreveu a obra:  “Na Trilha da Excelência – Uma Lição de Relações Públicas e encantamento de Cliente”, que conta a trajetória memorável dessa mulher exemplo para a comunicação e especialmente para as Relações Públicas.

Atualmente o prêmio mais importante da noite no “Prêmio Opinião Pública” é chamado de “Prêmio Vera Giangrande” que em 2010 foi entregue a Carlos Eduardo Mestiere.

Se a profissão requer espelhos – eis aí um belo exemplo a seguir.

 

Fonte:  Encipecom, Sinprorp, Observatório da Imprensa, Alexandre Volpi Blog.

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13 pensamentos sobre “Vera Giangrande – A dama de ferro das Relações Públicas

  1. Taís,

    Parabéns pelo texto! É sempre bom rever a história de pessoas tão importantes para as Relações Públicas e para o Brasil.
    Abraços,
    @alexandre_amc

  2. Adorei o texto. Vera foi e sempre será uma fonte de inspiração para os profissionais da área de Relações Públicas. Determinada e competente ela conquistou novos espaços para a profissão, mostrando a todos a importância que RP possui dentro do cenário organizacional. Parabéns pelo artigo

  3. Olá, Taís, foi um prazer investigar e contar a vida de Vera. Prazer tão grande é ler textos sobre ela, como o seu, e perceber que a obra Na Trilha da Excelência contribuiu (apenas contribuiu) para que o Brasil não se esqueça de uma grande mulher e profissional. Abraços e parabéns!

    • Olá Alexandre.
      Vera, de fato, é um belíssimo exemplo de profissional e de mulher.
      Muito obrigada pela visita. Espero que goste e retorne sempre.

      =D

  4. Qual não foi minha surpresa ontem, quando recebi no POP o premio Vera Giangrande. Não sabia nem que estava sendo indicada. Ela que me foi tão inspiradora . Uma honra neste momento da minha vida

    Cristina Giacomo

    • Olá, Cristina.
      E quão merecido foi essa homenagem, estávamos lá e sua emoção foi, por um instante, a nossa emoção.
      Parabéns e obrigada por ser uma das profissionais exemplos de carreira e excelência!! 🙂

      @tais_so

  5. Cris,

    Quem me conhece sabe que você foi a minha primeira mentora e a primeira pessoa que acreditou no meu pontencial, até hoje lembro da gente falando sobre o Intercom, do futuro que você via a minha frente e estou feliz de ver que tudo que você viu se transformou em realidade. Obrigado por ter acreditado em mim nos momentos que até eu mesmo duvidei, por ter puxado a minha orelha por causa do meu jeitão de menino, por ter sido firme comigo quando necessário, e por nunca ter deixado desistir de mim mesmo. Me orgulho muito de ter sido seu aluno e te ter como mentora e pode ter certeza que sempre serei seu aprendiz.

    Marcelo Teixeira

  6. Eu tive a honra de conhecê-la na década de noventa, quando eu ainda era um estudante cheio de sonhos e ideais.
    Fiquei chocado com sua partida, mas feliz por ter tido a chance de conhecê-la e ouvir seus conselhos.
    Conselhos, aliás, que sigo até hoje. E, por essa razão, sempre sou elogiado como profissional e bem quisto como colega de trabalho.
    Obrigado Dona Vera! Obrigado por tudo!
    Até algum dia!

  7. É maravilhoso saber que em meio às disputas muitas vezes insanas em que se transformaram as relações sociais na contemporaneidade existem pessoas construindo um mundo melhor para se viver. Certamente a contribuição de Vera Giangrande para a sociedade é praticamente incalculável, como as contribuições que as relações Públicas nos oferece.

  8. Pingback: 081 – RP escreve a sua história com Taís Oliveira | Versátil RP

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