Confissão de um Relações Públicas Etíope

Quem me conhece sabe que sempre acreditei que você nasce Relações Públicas, que na faculdade ou durante sua trajetória profissional, você lapida este talento que deve estar dentro de si. Aqueles que me conhecem muito bem sabem que acredito que nossos talentos são ferramentas que recebemos para fazermos do mundo um lugar melhor, mais justo, mais tolerante.

Na tarde de ontem, li no site Adivivo um artigo que não consigo tirar da cabeça, ele conta a história do menino etíope negro de 6 anos em férias com os pais espanhóis brancos no Brasil. Por mais que eu tente compreender, juro que não consigo, o que leva o gerente do estabelecimento a expulsar um garoto, que adentrou o estabelecimento com seus pais, alegando o confundir com meninos de rua a não ser preconceito contra a cor de sua pele?

Sei que neste momento muitos colegas meus devem estar discutindo sobre como administrariam esta crise, sobre como fariam o charmoso Nonno Paolo superar esta turbulência com menor dano possível a sua imagem. Afinal, o restaurante tá apanhando da crise, e na luta pela sobrevivência concedeu entrevista com o gerente claramente despreparado, não alinhou o posicionamento com o público interno, que deu a imprensa uma versão divergente da sustentada pelo estabelecimento e seus advogados, e consagrou sua serie de equívocos bloqueando a sua página de fãs no Facebook.

Apesar de fundamental a intervenção de um profissional de Relações Públicas nesta crise, vou confessar: eu me sinto muito mais tentado a tornar cada vez mais público este e outros casos semelhantes do que contribuir com o restaurante. Afinal, as Relações Públicas não têm a missão de estimular o debate na sociedade e criar a sinergia entre interesses públicos e de organizações?

Este fato do menino etíope só demonstra que a nossa sociedade implora por um debate aprofundado sobre a diversidade e a tolerância. E quem melhor do que nós, estrategistas da comunicação, para trazermos tudo isto a tona? Sei que o problema é gigante, e que demanda tempo, mas se pensarmos globalmente e agirmos localmente, tenho certeza que chegaremos lá.

Sei que disse que não queria promover nenhuma ação em função desta crise que o restaurante Nonno Paolo vive, mas pensando bem, acho que eles também devem ser contemplados neste plano. Mas ao invés de estancar o problema, apagar um incêndio, devemos ir à raiz da crise e transformamos o preconceito em conceito, estimularmos a reflexão, engajarmos este gerente no nosso desafio, o tornando um embaixador da causa, levando o debate a novos restaurantes, criando uma verdadeira revolução. Aí sim, a administração desta crise será legitima, pois mais do que contribuir para a sobrevivência de um negócio após uma forte turbulência, estaremos cumprindo com o papel social das Relações Públicas.

Como estrategistas da comunicação, podemos pensar em diversas ações e para os mais diferentes desafios da nossa sociedade, eles estão por todos os lados, podemos usar nossos talentos para mais do que posicionar nossos clientes, podemos e devemos usá-los para contribuir com o desenvolvimento de nossa sociedade. O que estamos esperando?

Marcelo Teixeira é profissional de Relações Públicas, negro assim como o menino da história, estudante da Cabala Judaica e te pergunta “O que estamos esperando?!”

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14 pensamentos sobre “Confissão de um Relações Públicas Etíope

  1. excelente post, mto bom ver que há profissionais que se preocupam com a responsabilidade da empresa perante a sociedade antes de tudo. Parabéns.

    • Mto obrigado, Daniela! No fim das contas temos que fazer do mundo um lugar melhor, e acho que nós, relações Públicas, temos um papel fundamental, pois trabalhamos diretamento com a percepção da sociedade sobre diversos temas. Acho que se juntos cada um de nós se engajar com uma causa e fazer o seu melhor para ela acontecer, começaremos uma verdadeira revolução. =)

  2. É constrangedor que em meio a tantas opções de busca por auto conhecimento, o ser humano ainda se prenda a esse tipo de paradigma na vida em sociedade. Preconceito raramente existe por pura e simples maldade ou prepotência. QUestões histórias, costumes familiares, tudo isso alimenta. E de fato, diferenças sociais estimulam esse tipo de eventualidade. Há que se fazer algo.

    • Sim sim, Alex, temos que fazer algo, concordo plenamente e reforço “O que estamos esperando?!”

  3. óóótimo post! é dificil encontrar profissionais que de fato estão preocupados em tb cumprir seu papel social profissionalmente… e isso para as Relações Públicas tem demonstrado uma necessidade ‘urgente’!!! de se atentar para como as nossas estratégias comunicacionais impactam de fato não só a organização, mas a sociedade.

    Meus parabéns pelo texto, pela reflexão e pela pergunta ‘o que estamos esperando?’

    • Muito obrigado Riziely! Acho que o mais importante é isto nos perguntarmos o que estamos esperando, nós podemos mudar o mundo, só temos que pensar grande e fazer o que pudermos para fazer dele um lugar melhor, bom ver o retorno que este artigo teve, pois me faz pensar que temos muito mais pessoas engajadas com o todo por aí. Acho que agora temos que cada um de nós acender uma vela, através de ações que cobatam o preconceito, a discriminaçao entre diversos problemas da nossa sociedade moderna, talvez de bate-pronto não acabemos com a escuridão, mas se cada um de nós manter a chama de nossa vela acessa e compartilhá-la com certeza tornaremos a escuridão menos escura! =)

  4. Marcelo, achei o seu texto muito bom. Não preciso dizer que concordo com tudo que você disse. Você é um grande profissional, tem um amor incontestável pela profissao e sabe como podemos colocar nossas ferramentas em prática. Mas, neste caso, temos um problema muito maior que de imagem do proprietário do negócio ou de como ele se posiciona diante dos fatos. Temos um problema cultural, de pessoas pequenas, não evoluídas. E concordo com você, acredito que somos munidos de ferramentar para ajudar a sociedade no geral. Qualquer tipo de preconceito é desprezível.

  5. Adorei Marcelo. O relacionamento com os públicos vai além de uma boa assessoria, ele se envolve com a opinião pública com maior profundidade e ainda desenvolve essa relação para que as coisas aconteçam e coloque a sociedade em progresso.

  6. Pingback: Retrospectiva Versátil RP – 2012 « Versátil RP

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