Padrões de comportamento versus Efeitos da tecnologia

Minha atual aquisição literária é: 44 cartas do mundo moderno líquido de Zygmunt Bauman. Como membro da geração Y, segundo o que o próprio autor afirma, me sinto levando uma bronca a cada carta, rs. Quando afirmei no post sobre Planejamento editorial em mídias sociais o quão necessário é ler e estudar sociologia, era dessa inquietação que eu falava, o desejo intrínseco de observar e tentar entender (se é que isso é possível) o comportamento humano. 

Coincidentemente nesses últimos dias tenho ouvido muitos conhecidos comentando sobre os prós e os contras do mundo conectado via internet, da vida digital, mídias sociais, acesso mobile, enfim, todo o ferramental e o excesso de exposição e imersão. Pessoas revoltadas com comportamentos fora do “padrão” e outras que consideram incrível o que é possível fazer e descobrir através da internet. E o engraçado é que todos os comentários que ouvi estão presentes, de alguma maneira, nas cartas de Bauman que li até o momento.  

Nas pesquisas recentes, o Brasil sempre aparece entre os países que mais permanecem conectados e que mais utilizam as mídias sociais. Será que é herança cultural pós-ditadura militar ou uma espécie de emancipação do cartel dos principais meios de comunicação de massa, no qual as opiniões são segregadas entre as que importam para o contexto e as que podem ser excluídas? Essa suposta liberdade do meio digital faz do homem senhor de sua própria mídia, sem podas ou restrições de terceiros? Questionamentos são diversos, mas então, surge um grande embate: comportamento digital versus consumo.     

E o ponto chave da questão é justamente o excesso de exposição. Existe um zilhão de plataformas online de cunho comportamental: ferramentas de busca, redes sociais, blogs e micro-blogs, geolocalizadores, galeria de imagens, portfólio acadêmico e profissional, wikis, música, vídeo, etc, etc, etc. Todas com suporte tecnológico que a cada dia apresenta características da extensão humana e alteram, para o bem ou para o mal, comportamentos. Bauman, nas cartas sobre privacidade, apresenta um parágrafo no qual concordo em partes: 

É comum louvar ou acusar as inovações tecnológicas por estarem na origem das revoluções culturais; na verdade as inovações conseguem no máximo desencadeá-las, oferecendo o elo que faltava numa cadeia completa de elementos necessários para deslocar a transformação nos costumes e estilos de vida existentes, da esfera das possibilidades para a esfera da realidade; transformação que já estava pronta há tempos e lutava para acontecer. (Estranhas aventuras da privacidade (3)). 

É mais que nítido a existência de um novo padrão de comportamento. Há muitas correntes de pensamento, mas possivelmente todas elas em algum momento citam a tecnologia como fator essencial de mudanças sociais e culturais, e nós sabemos quais são essas alterações. Não é preciso ser um pesquisador ou estudioso, mas apenas um olhar atento ao nosso redor, no lar, nas crianças, no trabalho, nos transportes públicos,  e no nosso próprio comportamento e necessidades. 

E por falar em necessidade, talvez seja nesse aspecto da vida que se esconde a explicação para o excesso de exposição citado mais acima. O homem tem, por natureza, a necessidade de se auto-afirmar e sentir-se aceito, fazer parte de um grupo, demonstrar suas qualidades e suas ações.  Talvez num conflito quase imperceptível (ou não) entre o Id, Ego e Super Ego (só Freud explica). Tal necessidade não é novidade, desde os primórdios o homem tenta demonstrar sua superioridade em algum momento da história, em tempos de conexão e tecnologia nota-se somente a amplitude do alcance das informações. Quantos “amigos” você tem no Facebook? Quantas pessoas lhe seguem no Twitter? E em quantas pessoas essas pessoas estão conectadas? É um efeito cascata incalculável e inimaginável.  

De todos os agentes desse cenário o mais perspicaz foi, certamente, o mercado de bens e consumo, que tem acompanhado, ainda que aos trancos e barrancos, o comportamento atual de seu “público-alvo”. Quantas lojas virtuais surgiram nos últimos dez anos? Quantas redes sociais nasceram, se consagraram, morreram e quantas e tantas já vieram depois desse ciclo? Quantos contatos profissionais você já fez através das novas mídias? Quantas organizações já investiram em comunicação digital? Quantas pessoas utilizam internet banking? A comodidade, a economia de tempo, as facilidades, entre outros benefícios atraem as pessoas para o mundo conectado.  

O choque acontece quando para você – usuário – a internet e a tecnologia são um canal de comunicação, conexão, aprendizado, entretenimento, etc. – enquanto para as organizações tudo isso representa lucro, posicionamento, market share, lembrança de marca, relacionamento, ambiente de consumo e propaganda, etc. Felizes os que identificaram a oportunidade e a usaram a seu favor.  

O choque número dois acontece quando você – comunicólogo – se depara com os extremos da opinião do usuário “comum”, o que ama e o que odeia os efeitos da tecnologia sob o comportamento. E então, o que fazer – unir-se ao depoente e amar e/ou odiar incondicionalmente ou tomar uma postura de quem observa duas oportunidades: a de se lançar no mercado e agir sob o comportamento ou a de mergulhar na pesquisa e ir mais profundamente nos questionamentos.

Outro dia em outro papo sobre comportamento um colega falou uma simples palavra que para mim soou como a resposta de todo o mistério: equilíbrio. Segue um paradoxo: o extremo é sempre ruim, vício nunca é bom e equilíbrio é essencial, principalmente quando é relacionado ao nosso campo de atuação, o olhar deve ser atento, de parcimônia e empatia(“Extremo” seguido de “sempre” e “nunca” é uma afronta, rs).

Mas enfim, desde a época da prensa de Gutemberg muitos já debatiam sobre as revoluções nos meios de comunicação. A televisão, o rádio ou jornal impresso também causaram um grande burburinho na população. A diferença é que na atual revolução nós somos agentes transformadores dentro dela e não somente a pessoa que lê os fatos histórico nos livros/E-books, rs. Mas a pergunta é: de qual lado você (comunicólogo, pesquisador, RP, jornalista, publicitário, etc) está – os que vão imprimir a participação ou dos que vão apenas reclamar dos efeitos?

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15 pensamentos sobre “Padrões de comportamento versus Efeitos da tecnologia

  1. Muito boa a postagem!
    Assim como o telefone e o e-mail, as mídias sociais são ferramentas de relacionamento.
    Elas representam exatamente o que o público precisa: agilidade, facilidade de acesso, grupos de pessoas reunidos, etc.
    A necessidade de reconhecimento, de contar o que fez, onde está.

    Se puder, acompanhe meu blog Cidadão Publicitário:
    http://cidadaopublicitario.wordpress.com

    O foco são as mídias sociais e inovações tecnológicas.

    Abraços e sucesso!
    Dan Oliveira

    • Olá, Dan. Obrigada pela visita e pelo comentário.
      E viva às revoluções da comunicação, entre todos os prós e contras – juntar ideias, talvez seja a mais eficaz das ações.

      Muito bacana seu blog, já estou seguindo. 😉

  2. Sensacional a sua reflexão (e parabéns pela nova aquisição.. hehehe :D). Tentando responder seu questionamento sobre “de qual lado estou”.. é.. estou do lado de dentro: como agente transFORMADOR. É claro que sempre tem como reclamar de algo, já que as mudanças nunca vão parar.. acho até que “reclamar de seus efeitos” já é “imprimir a participação” de uma certa forma. Parabéns pelo post e muito obrigada por me deixar assim tão reflexiva (antes do almoço) 😉

    • Liiii!! Que honra sua visita por aqui.

      Verdade, não tinha pensado no “transFORMADOR”! E no “reclamar de seus efeitos” já é “imprimir a participação”, ótima observação!! 🙂

      Hmmm, reflexão antes do almoço é tão bom, haha!!!

      😉

  3. Nossa texto muito reflexivo mesmo, parabéns Thais.

    E equilibrio é fundamental em nossas vidas né? Tudo em demasia faz mal, até a água… rs

    Abs.

  4. Tais , gostei muito do seu post, bem escrito e bem embasado. Respondendo sua pergunta no final. Como RP e consultora, através da minha pesquisa do mestrado que faz uma interlocução entre comunicação e psicanálise, espero explicar os efeitos das novas mídias na nossa cultura contemporânea.

    • Respondendo oficialmente por aqui, rs!
      Obrigada, Mara. Pela visita e o apoio de sempre.

      O tema é deliciosamente complexo e instigante, toda sorte e empenho na sua pesquisa e não deixe de compartilhar quando estiver pronta! 😉

      Beijo.

  5. Belo texto com uma reflexão muito boa! Bauman juntamente com outros pensadores (Castells, Levy, Augusto de Franco, Eduardo Galeano) estão fazendo a diferença ao observar uma transformação tão profunda em nossa sociedade. Felizes são os comunicadores que percebem esta mudança e refletem sobre os desdobramentos dela no indivíduo!!! É muito legal isso…Sobre essa revolução que você citou indico buscar pelos textos do Carlos Nepomuceno onde ele diz que estamos passando por uma revolução cognitiva, argumentando que, assim como a palavra escrita, a internet é uma tecnologia de ruptura.

    Muito legal!! Parabéns!

    • Olá, Ramon!
      Primeiramente obrigada pela visita no blog e pelo comentário.
      Já ouvi bons comentários sobre Nepomuceno, vou colocá-lo na lista de leituras. Esse tema é tão constante, atual e mutável, mas temos bons pensadores sobre tudo isso, não é…

      Obrigada novamente! Abçs.

  6. Pingback: Retrospectiva Versátil RP – 2012 « Versátil RP

  7. Olá,

    Belo texto, sim ´seria importante incrementar, que por ser, um ser altamente complexo e subjetivo, seria superficial analisar e questionar comportamentos humanos e os efeitos da tecnologia somente pelo viés sociológico. Por certo tal complexidade exige a busca de diversificados campos científicos. No momento a grande questão (minha), clinicamente falando, é o que vem ocorrendo com crianças, adultos e adolescentes (toda família) desenvolvendo distúrbios, transtornos comportamentais de total dependência de redes sociais a ponto de não ser possível ( e sofrível) largarem o celular…, etc. para falar, ou fazer qualquer outra coisa sem estar “logado”, teclando. Postam compulsivamente , desenvolvendo sérios problemas relacionados ao TOC. Há pessoas que não estão conseguindo manter o controle da própria vida, do descanso necessário (dormir), utilizando o horário de trabalho, de estudos para postagens, não estão conseguindo manter o discernimento. Sente-se “logados” mais especificamente no quê? Com quem? Por outro lado, interessante observar; há pessoas que comunicam um comportamento alegre e extrovertido nas redes sociais e pessoalmente são extremamente reservadas, e de outro , há quem mantenha certa cautela nas redes, são discretos, e pessoalmente são bem humoradas, divertidas. Então, estamos frente ao humano e suas subjetividades, os sintomas são os mesmos, mas o que leva cada um a agir de determinada forma diante das tecnologias é algo também extremamente particular e tb pluri-multifatorial. Como vc mesmo menciona: “Segue um paradoxo: o extremo é sempre ruim, vício nunca é bom e equilíbrio é essencial, principalmente quando é relacionado ao nosso campo de atuação, o olhar deve ser atento, de parcimônia e empatia. ” Grande abraço!

    • Olá, fenixpsique. Obrigada pela visita no blog.

      E é realmente isso, o ser humano é deveras complexo, todas as áreas da ciência juntas não conseguiriam chegar a uma resposta sobre o comportamento humano, talvez seja essa a graça de seguir estudando, não é mesmo? 🙂

      Volte mais vezes.

      • Olá Taís Oliveira,
        Sim,associar, resignificar ideias e conhecimentos é algo fantástico, sem riscos de desvalorizar, “aprisionar” o que temos de mais humano. Com certeza voltarei, gostei muito do seu blog.

  8. Pingback: 081 – RP escreve a sua história com Taís Oliveira | Versátil RP

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