010 – RP escreve a sua história com Tânia d’Ávila

rp-facebookHoje recebemos a visita da jovem Tânia d’Ávila que é XBO da Brand School Is Cool, tem experiência com marketing digital e trabalhou com planejamento estratégico de branding na Pyrsona BrandHouse. Escreve artigos sobre Relações Públicas e Branding para o portal Infobranding, é graduada em Comunicação e Marketing com ênfase em Relações Públicas pela FAAP, pós-graduada em Marketing e Comunicação Integrada pelo Mackenzie e cursou Docência e Metodologia de Ensino Superior pela FGV.

 

VRP:  Por que escolheu estudar Relações Públicas?

Tânia d’Ávila: Sendo muito sincera? Quando escolhi estudar Relações Públicas, eu não sabia o que era Relações Públicas…rs. O que me levou a optar por essa área foi o fato de terem me falado que essa profissão “fazia eventos”. Ainda bem que, quando comecei a cursar a faculdade, entendi o que era a área e quais eram as funções de um RP. O encantamento por outras vertentes da profissão foi tanto, que, logo nos primeiros semestres, eu já sabia que não queria mais trabalhar com eventos.

 

VRP:    Qual ou quais as pessoas que te inspira/inspiraram a ser Relações Públicas?tania_davila

Tânia d’Ávila: Existem profissionais, como a Kunsch, que são referências e servem como forte inspiração, principalmente por serem Relações Públicas desde uma época em que a profissão era menos reconhecida do que hoje – e, mesmo assim, fizeram, e continuam fazendo, a sua parte para o fortalecimento da área.

Mas não posso esquecer de uma professora que tive no 1º semestre da faculdade, Simone Bambini, que sempre vestiu a camisa da profissão, que falava com orgulho e amor sobre a área. Foi ela, também, quem indicou o primeiro livro que li sobre RP: A arte de harmonizar expectativas, do Carlos Eduardo Mestieri – esse livro, um compilado de diversas palestras que ele deu ao longo da carreira, ajudou, e muito, a esclarecer, para mim, o que é RP e, consequentemente, a fazer com que eu me apaixonasse pela área.

E, outro fator que me inspira a ser RP, é a vontade de ajudar a fazer com que essa profissão ganhe, cada vez mais, espaço no mercado.

 

VRP:  Como enxerga o cenário brasileiro das relações públicas?

Tânia d’Ávila: Ainda falta muito reconhecimento sobre a profissão. Lembro que, durante a faculdade e logo depois de formada, quando procurava emprego, as vagas que apareciam eram totalmente fora do nosso escopo e, na parte de formação, especificavam claramente que procuravam profissionais de relações públicas. Para mim, esse é um forte indício de que a área ainda tem muito espaço para conquistar. Além disso, em palestras ou cursos em que participo, quando surge o tema RP, a maior parte das pessoas, tirando os próprios profissionais da área, não sabe dizer o que faz um profissional de relações públicas. Mas quando questionados sobre publicidade, jornalismo ou design, por exemplo, o entendimento é maior. Isso também pode ser comprovado em filmes ou séries brasileiras – dificilmente há um personagem atuando como relações públicas. Já em filmes americanos, isso é bastante comum (como em “Obrigada por fumar”, “Hancock” ou “Uma mulher de talento”.).

 

VRP: Como você vê a perspectiva de mercado para profissionais de relações públicas?

Tânia d’Ávila: Com a propaganda tradicional perdendo força, com a disputa das marcas pela atenção do consumidor e com o relacionamento entre as marcas e seus públicos acontecendo nas redes sociais, em real time, as empresas devem se preocupar em construir uma identidade consistente para conseguir ganhar a credibilidade dos seus consumidores. Antes, era fácil “viver de slogan”. Hoje, o consumidor, além de não aceitar e não precisar mais de uma marca que não entrega o que promete, tem voz ativa para reclamar e influenciar outros consumidores ou potenciais consumidores. Ou seja, identidade e imagem, inevitavelmente, precisam ser coerentes entre si – esse é o primeiro ponto para que a reputação da marca fique preservada. E o melhor profissional para fazer esse trabalho é o relações públicas.

Então, a perspectiva é boa. Mas, o que me preocupa, é que, embora as empresas precisem de profissionais de relações públicas, elas nos denominam como jornalistas, social media, comunicólogos etc. Esse é o maior ponto fraco que vejo na nossa área: a necessidade do nosso trabalho tende a crescer, mas, por falta de entendimento, as empresas colocam outros profissionais para assumirem nossas funções.

 

VRP:  Comemoramos em 2014 os 100 anos das Relações Públicas no Brasil, para você, a profissão é valorizada como deveria?

Tânia d’Ávila: Definitivamente, não…rs

 

VRP:  Sabemos que o eixo Sudeste ainda concentra a maioria dos profissionais de área, bem como a maioria das vagas de trabalho oferecidas. Qual seria a maior dificuldade, em sua opinião, para a expansão nacional da área e das oportunidades de emprego?

Tânia d’Ávila: Primeiro, a falta de consciência sobre as funções das Relações Públicas – muitas empresas ainda acham que RP é eventos e assessoria de imprensa e, para isso, não precisam contratar profissionais internos – podem contratar agências especializadas em eventos (e, essas, muito provavelmente, terão profissionais de outras áreas trabalhando) ou agências de assessoria de imprensa (que, na maioria das vezes, contrata mais jornalistas do que RP). Além disso, a segunda função pode ser feita com agências de fora do estado, trabalhando à distância.

Acredito, também, no ciclo vicioso – se há poucas oportunidades de emprego em RP, consequentemente essa não passa a ser a primeira opção para os estudantes que estão ingressando na faculdade, que encaram cursos como publicidade, jornalismo ou administração como mais promissores. E, com poucos profissionais da área, somada à falta de reconhecimento da profissão, as oportunidades de emprego diminuem, pois as empresas passam a focar em outros profissionais de comunicação.

Além disso, é comum vermos estudantes se formarem em suas cidades e, depois, se mudam para os grandes centros para iniciar a carreira, o que faz com que a mão-de-obra fique escassa em determinadas regiões do país. E, por fim, grandes empresas, que são as que, normalmente, demandam por profissionais da área, estão, em sua maioria, localizadas em São Paulo e Rio de Janeiro.

 

VRP:   Você acha que a grade do curso de RP está se ajustando com a realidade atual do mercado de Relações Públicas?

Tânia d’Ávila: Como profissional, eu vejo que está ajustada, sim. Me formei em 2009, na FAAP, e, naturalmente, não tive nenhuma disciplina voltada para o digital, já que, na época, as marcas ainda não enxergavam as mídias sociais como forte canal de comunicação. Porém, desde o ano da minha formatura, a grade curricular do curso já foi alterada duas vezes – e a disciplina de mídias sociais foi incluída.

Da mesma forma, vendo as grades de faculdades como FAPCOM e Belas Artes, há sempre destaque para o digital. Além disso, vemos que todas possuem disciplinas que abrangem as mais variadas vertentes da profissão, dando ao aluno uma percepção ampla sobre a área – o que é essencial para que o próprio profissional entenda que somos mais do que eventos e assessoria de imprensa.

 

VRP:   Qual a sua expectativa para o curso de Relações Públicas daqui a alguns anos? O que você acha que poderia ser melhorado na grade curricular do curso?

Tânia d’Ávila: Uma vez, me disseram que as faculdades, no geral, não preparam o aluno para ser empreendedor. Essa é uma verdade. Trazendo isso para o cenário das Relações Públicas, talvez fosse um bom caminho a ser investido: preparar o aluno para empreender seria dar a chance para ele, de maneira estruturada, pensar no próprio negócio, tendo a oportunidade de atuar na área ao mesmo tempo em que ajuda o mercado a entender a importância da nossa profissão. Conheço diversos profissionais que, diante das dificuldades de se colocar como RP, foram para áreas correlatas, como marketing. Isso, feito como última opção, é frustrante para o profissional e estagnante para o mercado.

 

VRP:   Os futuros profissionais de Relações Públicas estão preparados para se adaptar as novas tecnologias e utilizá-las a seu favor? Onde as redes sociais se encaixam na estratégia de um plano de “RP”?

Tânia d’Ávila: Sim, acho que os recentes e futuros profissionais estão mais preparados do que os profissionais formados há mais tempo, já que, como citado acima, esses profissionais estão sendo preparados para lidarem com isso desde a faculdade.

 

Se Relações Públicas é a profissão que lida com os mais variados públicos de uma empresa, tendo como principal objetivo transmitir informação e preservar a reputação da marca, as redes sociais, hoje, são canais importantíssimos para isso – é o espaço que existe para que a marca mostre, sem máscaras, quem ela é, a preocupação com os seus serviços, com o seu atendimento e com o seu público, permitindo interação e diálogo com os principais stakeholders da marca.

 

VRP:  Qual mensagem deixaria aqui para ser lembrado na comemoração de 200 anos das relações públicas no Brasil?

Tânia d’Ávila: O consumidor não exige que a marca seja infalível, mas que seja sincera.” – essa é uma frase que, com as novas tecnologias, vai fazer cada vez mais sentido para o trabalho das relações públicas – as marcas estão vulneráveis e expostas à crítica. Qualquer passo em falso, por menor que seja, tem chance de gerar uma grande repercussão. E nós, que trabalhamos com relacionamento, temos que saber lidar com esses erros de forma rápida, com humildade, transparência e respeito aos consumidores, sabendo que a marca é muito mais dos consumidores do que nossa. Usando esse pensamento como premissa, muitas crises poderão ser evitadas.

 

VRP:  As Relações Públicas completam 100 anos no Brasil. O que você vê como a maior contribuição da profissão para o país, durante todo este período?

Tânia d’Ávila: Posso ilustrar com uma frase do Paulo Freire? – “Sem diálogo não há comunicação”. E quem conscientiza e trabalha esse diálogo das marcas com seus públicos, há 100 anos, preocupando-se em passar uma imagem autêntica, são as Relações Públicas.

 

VRP:  Falando em história, conte mais sobre a sua história com a profissão. Por que escolheu RP?

Tânia d’Ávila: Como disse acima, a minha escolha por Relações Públicas aconteceu quase sem querer, mas, mesmo tendo dado certo, já que, quanto mais eu descobria sobre a profissão, mais eu gostava, fiquei 1 ano, depois de formada, sem conseguir me recolocar no mercado de trabalho – e, por isso, tive uma crise profissional e decidi que iria mudar de área: prestei vestibular para Direito e quase comecei a faculdade. Mas, no meio do caminho, achei que seria melhor repensar essa decisão, já que eu gostava de RP. E, então, resolvi fazer uma pós-graduação em Marketing e Comunicação Integrada ao invés de me iniciar em uma área totalmente nova. A minha intenção, com essa pós, era ter no currículo uma formação que agradasse mais o mercado – “Marketing” – e, assim, conseguir um emprego na área. Em 2 anos de curso, e em diversas disciplinas, conseguia reconhecer as funções das Relações Públicas em assuntos que não falavam, exatamente, sobre RP. Um deles, que foi muito marcante e quase no final da pós, foi planejamento estratégico para reposicionamento de uma marca. A marca que eu e meu grupo escolhemos foi a Mentex – tivemos que repensá-la e planejar como seria a comunicação desse reposicionamento para o mercado. Em diversos momentos do trabalho, as Relações Públicas se fizeram muito presente. Foi um dos melhores projetos que já fiz em faculdade.

Logo após isso, precisei começar a pensar no tema da minha monografia – ainda não sabia sobre o que trataria, mas queria que tivesse conexão com Relações Públicas. Conversando com o orientador e pensando nos temas abordados durante a pós, comecei a perceber que uma outra área, além de RP, me agradava muito: construção e gestão de marca – ou branding. Nesse momento, resgatei o trabalho que tínhamos feito para Mentex e, claramente, percebi uma conexão entre a disciplina de Relações Públicas e o processo de construção de marcas. Portanto, o tema da minha monografia estava decidido: o papel das relações públicas em um processo de construção e gestão de marcas. A partir desse momento, comecei a pesquisar mais sobre branding, ir atrás de profissionais e agências focados nisso e, por entender o quanto essa conexão fazia sentido, defini o rumo que queria dar para minha carreira. E é esse caminho que hoje, dois anos depois, continuo seguindo.

 

VRP:  Qual é a área de atuação das Relações Públicas que você vê como mais promissora em curto prazo? Por quê?

Tânia d’Ávila: A capacidade de se relacionar com os públicos pelas mídias sociais é uma necessidade que só tende a crescer. Por isso, acredito que a comunicação externa possa ser a oportunidade para as Relações Públicas ganharem seu espaço e irem se fortalecendo nas outras vertentes. Mas, embora a comunicação externa esteja em evidência, defendo muito que a comunicação deve começar de dentro para fora – ou seja, primeiro, ter um plano efetivo de comunicação interna para, a partir daí, planejar o plano de comunicação externa. Então, espero que essas duas áreas de atuação andem juntas.

 

VRP:  Como o Relações Públicas, usando as próprias estratégias de “RP” pode fazer com que a profissão ganhe cada vez mais espaço e reconhecimento, para que se torne tão popular como os profissionais de Publicidade e Jornalismo?

Tânia d’Ávila: Trabalhando com informação. Relações Públicas é uma profissão de bastidor, o que significa que nem sempre as pessoas sabem que alguma coisa está sendo feita, mas quando o trabalho não acontece, o público percebe algo de errado. Então, divulgar os resultados e a importância da atuação do profissional dentro de um projeto, por exemplo, é essencial.

E isso pode começar dentro das próprias empresas. Aquelas que possuem área de comunicação interna e profissionais de RP trabalhando, podem fazer ações para comunicar os processos e resultados de seu próprio trabalho para o resto da empresa – conscientizar quem está por volta é o primeiro passo. As agências de Relações Públicas também podem ter forte poder para ajudar nesse reconhecimento, seja com notícias sobre seus trabalhos na imprensa, seja com ações ou cursos pontuais da área voltados para profissionais de comunicação e empreendedores. Nas próprias faculdades, oferecer palestras sobre Relações Públicas para estudantes de administração, publicidade ou jornalismo faria com que eles entendessem o papel das Relações Públicas. Propor trabalhos integrados entre os cursos, educando, desde a faculdade, que a comunicação integrada faz parte da realidade do mercado de trabalho e que cada área tem um papel indispensável, também seria indicado.

 

VRP:  Qual mensagem você diria para quem está iniciando no curso de Relações Públicas e para os recém formados na área?

Tânia d’Ávila: Talvez não seja fácil atuar na área, mas vocês podem enxergar isso como uma oportunidade: há poucas pessoas fazendo o que fazemos, mas não por falta de espaço no mercado, e sim, por falta de conhecimento – então, aproveitem essa lacuna para colocar em prática o trabalho de um Relações Públicas, ajudando a fortalecer a profissão no mercado.

 

VRP:  Agora, brincando de adivinhar o futuro, como você acredita que estará o panorama das Relações Públicas no seu segundo centenário brasileiro?

Tânia d’Ávila: Acredito que, em 100 anos, no cenário de mudança em que vivemos, a geração de relações públicas que se formará possa ser tão forte quanto à geração de publicitários ou jornalistas – não penso que outras áreas irão sumir ou deixar de ser importantes, mas acredito na comunicação integrada – hoje, ela já existe, mas o profissional de relações públicas tem um papel mais fraco do que as demais áreas. Em 100 anos, talvez essa força esteja equilibrada com a força de outras áreas da comunicação. Torcerei e tentarei fazer minha parte para isso! rs

 

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