018 – RP escreve sua história com Pedro Souza Pinto

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Pedro Souza Pinto, 32 anos, Belo Horizonte/MG, formado em Comunicação Social com habilitação em Relações Públicas pela UFMG em 2004. Atualmente é RP na Fundação Municipal de Cultura de Belo Horizonte é nosso convidado de hoje no “RP escreve a sua história“.

VRP: Por que escolheu estudar Relações Públicas?

A história é um pouco longa, mas resumindo: quando entrei na faculdade não sabia direito o que era RP, mas entrei pensando em fazer jornalismo ou publicidade. A habilitação era escolhida apenas no terceiro ano (que também oferecia RP e Rádio/TV). Ao longo do curso tive contato com algumas experiências de todas as áreas e descobri que RP era diferente do que eu pensava, e muito mais próximo da ideia de comunicação que eu queria trabalhar pensando que encontraria isso na publicidade ou jornalismo.

VRP: Como enxerga o cenário brasileiro das relações públicas?pedro

Diverso, para início de conversa. Basta ver que há uma enorme diferença de mercado entre as capitais e o interior de cada estado, assim como nas diferentes regiões do Brasil. Mas dá pra notar que há mercado de sobra, e que basta saber explorá-lo.

O surgimento da web e das redes sociais também me parece ter gerado um efeito nesse cenário, no sentido de que hoje as informações sobre a profissão, para profissionais ou não, tem acesso mais facilitado. Além disso, os profissionais também trocam mais experiências, com maior diversidade, ao mesmo tempo que criam uma rede mais ampla.

VRP: Qual ou quais as pessoas que te inspiram a ser Relações Públicas?

Eu não diria que eu tenho exatamente um modelo de profissional que eu persigo baseado em alguma pessoa. Mas inspiração quer dizer muitas coisas. Um dos profissionais que mais admiro foi meu professor da Faculdade, Márcio Simeone, que me introduziu na profissão e me apresentou experiências riquíssimas para trabalhar, sempre um ótimo orientador.

Outro profissional que acho importante citar é o Rodrigo Cogo, pela persistência e consistência de seu trabalho e principalmente pelo esforço em fazer seu trabalho sempre da melhor qualidade. Há ainda os profissionais que, mesmo que eu os conheça pouco, me inspiram pela dedicação em melhorar a própria profissão, como é o caso de Pedro Prochno, Guilherme Alf e alguns dos conselheiros e ex-conselheiros dos Conrerps e Conferp, pessoas que pensam com menos imediatismo, sabendo dosar o esforço para algo que vai beneficiar a elas e a todos no futuro.

VRP: Comemoramos em 2014 os 100 anos das Relações Públicas no Brasil, para você, a profissão é valorizada como deveria?

Quando eu comecei o Horizonte RP (um grupo voltado à valorização e promoção da profissão em BH), lá em 2006, uma das coisas que mais discutíamos era justamente o que é essa tal valorização. Havia diversas opiniões inclusive se a expressão deveria ou não ser usada. Daí que eu trago uma bagagem dessa discussão que só me dificulta a responder a essa pergunta.

Parto por exemplo de outra: de que ponto de vista avaliar? Ou seja, quem deve valorizar a profissão, o mercado ou os profissionais? E o que caracteriza essa valorização, o salário, o status social ou a admiração expressada pelo mercado ou pelas pessoas em geral?

No caso do mercado, a coisa complica um pouco mais: mesmo se pensarmos em algo mais próximo do senso comum do que é a valorização profissional, eu diria que o mercado valoriza muito pouco – e conhece muito pouco – os profissionais de Relações Públicas (os formados ou que assim se denominam). Por outro lado, o valor dado às funções de RP (que o mercado não associa necessariamente à profissão) é muito alto. São aspectos considerados essenciais, imprescindíveis, pelos quais em alguns casos inclusive se paga muito, porque estamos numa época em que a imagem das organizações é cada vez mais vulnerável e as decisões precisam ser tomadas cada vez mais rápido.

Então, na minha opinião, a valorização do RP, com esse nome, ainda é baixa, mas do mercado de RP é bastante alta. É uma questão de saber explorar isso.

VRP: Sabemos que o eixo Sudeste ainda concentra a maioria dos profissionais da área, bem como a maioria das vagas de trabalho oferecidas. Qual seria a maior dificuldade, em sua opinião, para a expansão nacional da área e das oportunidades de emprego?

A dificuldade para mim é cultural. Porque espaço para desenvolver trabalho de RP tem em cada canto desse país. É natural que, proporcionalmente, sempre haja mais vagas e melhores salários onde se concentram mais as empresas, nos polos econômicos. Então a primeira coisa que os profissionais precisam entender é que isso é normal, não um indicador que sua cidade ou estado, fora desses polos, tem um mercado ruim e de pouco futuro. Infelizmente muita gente pensa assim e acha que só terá sucesso profissional se mudar para São Paulo, Rio de Janeiro ou passar num concurso bem remunerado.

Outra questão cultural é dos próprios profissionais, entendendo o que eu disse acima, explorarem mais esses mercados no seu entorno. Empreender, trabalhar para as pequenas empresas, criar as vagas em vez de procurá-las. Conheço cidades do interior com empresas que enviam produtos para o Brasil inteiro. Certamente têm uma variedade de públicos e necessidades de comunicação que um RP poderia suprir, mas pouquíssimas tem esse profissional em seu quadro ou mesmo terceirizado. O que nos leva ao terceiro ponto, também cultural, que é o que o mercado convencionou chamar de RP. Há uma óbvia distorção entre o que é chamado de RP e quem cumpre as funções de RP.

De certa forma, a área já está em franca expansão e ainda vai crescer bastante. Se são os RPs, e com essa denominação, que vão ocupá-la, aí é uma outra questão.

VRP: As Relações Públicas completam 100 anos no Brasil. O que você vê como a maior contribuição da profissão para o país, durante todo este período?

Acho difícil responder a isso, principalmente porque RP é uma área cujos resultados mais relevantes e profundos são sempre de longo prazo. Difícil especificar uma grande contribuição, mais ainda a maior. O que eu consideraria importante destacar é que, dada a natureza e os objetivos da profissão, suas maiores contribuições estão ligadas à sustentabilidade das organizações – de forma ampla: econômica, social, ambiental. Se falamos da contribuição da profissão, falamos do conjunto do esforço de todos os profissionais. E, mesmo que isso não seja mencionado, certamente há uma grande contribuição das Relações Públicas na formação de uma cultura empresarial cuja visão ultrapassa o lucro e entende a organização como parte de um meio pela qual é co-responsável.

VRP: Falando em história, conte mais sobre a sua história com a profissão. Onde começou? Qual foi ou é o seu maior feito na categoria?

Durante a faculdade, a área com que mais trabalhava era a comunicação para mobilização social. No fim do curso participei da criação de um plano de comunicação e mobilização para o CONRERP 3ª Região e, após formado, entrei como conselheiro da regional. Ao mesmo tempo fazia alguns freelances, e trabalhei assim na organização de eventos e numa empresa de pesquisa.

Meu primeiro trabalho contratado foi na Secretaria de Estado de Saúde de MG, onde ajudei a criar o núcleo de mobilização social, em 2005. Em 2006, passei num concurso para o Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de MG (IEPHA/MG), para trabalhar como RP. No mesmo ano criei junto com alguns colegas o grupo Horizonte RP, que existiu até 2010 e que considero meu maior feito em termos de contribuição para a categoria. Mantínhamos um site, que posteriormente migrou para uma rede social, e buscávamos agregar os profissionais e estudantes de BH e MG, para que trocassem experiências e fortalecessem o espírito de grupo da profissão.

Foi algo muito rico e que me ajudou inclusive a me desenvolver profissionalmente, pois também precisávamos ficar antenados o tempo todo buscando novidades e fazendo contatos. Infelizmente em 2010 não pudemos dar continuidade ao grupo, e finalizamos o projeto. No entanto fiquei tranquilo em ver que nesse meio tempo trabalho semelhantes começaram a surgir e crescer, e até mesmo depois, com resultados ainda melhores, como diversos blogs que até hoje estão na ativa. Mesmo indiretamente, me sinto um pouco parte dessa história que ainda se desenvolve.
Para fechar: em 2009 passei num concurso, também para RP, para a Fundação Municipal de Cultura de Belo Horizonte, onde ainda trabalho e, para minha sorte, diariamente tenho contato com quase todo tipo de atividade ligada às Relações Públicas.

VRP: Qual é a área de atuação das Relações Públicas que você vê como mais promissora em curto prazo? Por quê?

Em curto prazo ainda acho que estamos muito ligados à área de tecnologia. Se pensarmos como a área mais promissora aquela em que um público amplo exige cada vez mais um relacionamento mais produtivo com as organizações, eu diria que a comunicação digital ainda é essa área. Mas por comunicação digital falo de algo mais amplo que redes sociais: refiro-me ao planejamento de relações digitais como um todo. Porque a complexidade vai só aumentando, o público usa cada vez mais a internet para se relacionar com as organizações, reclamar, comprar, e nesse sentido sempre vão se destacar aqueles que estiverem melhor preparados para esse tipo de relacionamento.

VRP: Agora, brincando de adivinhar o futuro, como você acredita que estará o panorama das Relações Públicas no seu segundo centenário brasileiro?

Só sei dizer que completamente diferente. Apenas para exemplificar: eu me formei há 10 anos. Cerca de quatro anos atrás estive na minha faculdade e conversei com alguns estagiários do mesmo laboratório onde fiz estágio e descobri que eles nunca tinham ouvido falar nas câmeras digitais que eu suava na minha época, e que armazenavam as fotos direto em disquetes (e não cartão de memória, isso sequer existia).

Nossa profissão está diretamente ligada às tecnologias de comunicação, ao uso que a sociedade faz delas e à cultura empresarial da época. Num esforço de imaginação, acredito que as Relações Públicas daqui a 100 anos terão segmentações inimagináveis hoje (quem pensava em uma especialização em redes sociais digitais 30 anos atrás?). E também acredito que, de forma positiva, estaremos ainda mais “misturados” com outros profissionais, ampliando a interdisciplinaridade.

VRP: O que pensa sobre o projeto de flexibilização da profissão?

Eu acho que é uma questão que não deveria ser prioridade, talvez nem devesse estar sendo pautada. Para pensar sobre a flexibilização penso primeiro sobre o que um Conselho Profissional, sua natureza, o motivo porque um Conselho é criado, quais os seus objetivos. Para início de conversa, os Conselhos Profissionais normalmente surgem, numa forma de dizer, para proteger a sociedade dos maus profissionais, ética e tecnicamente falando. Têm funções diferentes de associações e sindicatos.

Mas a maioria dos profissionais parece não entender bem disso. Alguns dos que não aceitam qualquer abertura o fazem porque veem o Conselho como garantia de reserva de mercado, o que, na minha opinião, passa longe de ser o motivo ideal pra se ter um Conselho. Outros são favoráveis à flexibilização porque isso atualizaria o Conselho para a realidade atual em que a atuação na área já se dá, e de forma positiva, por outros profissionais. E isso, ironicamente, só acontece porque uma das principais bases que teoricamente justificaram a criação do Conselho – a necessidade de uma formação especifica para evitar os malefícios do trabalho de baixa qualidade – nunca foi cumprida.

Então me pergunto se, ao pensarmos sobre flexibilização, estamos realmente pensando sobre o papel do conselho ou apenas respondendo ser contra ou a favor de uma mudança numa instituição sobre a qual nunca pensamos direito.

Para ser sincero, não me preocupo muito com a flexibilização. Considerando como o mercado funciona hoje, não me parece que será isso que vai gerar alguma mudança. O que faria diferença é o próprio Conselho ser repensado, partindo do princípio: por quê precisamos de um Conselho Profissional?

VRP: Em sua opinião qual a relação de RP e empreendedorismo?

Nem é preciso ir longe. Todo empreendimento, desde o princípio já começa fazendo relações públicas, mesmo que informalmente. Para captar parceiros, sócios, clientes, mantê-los. Relacionamento com públicos é uma necessidade básica.

VRP: Você desenvolve projetos na área educacional, certo? Qual a maior contribuição de RP pra área?

Na verdade, sou RP da Fundação Municipal de Cultura. Eu não diria que os projetos em que estou envolvido são educacionais, embora é claro que tenham uma ligação mais ou menos direta com a educação em algum momento.

O que eu poderia falar melhor é sobre a contribuição para essa área da cultura, mais especificamente governamental, que é o caso. Acho que a maior contribuição é justamente ajudar a instituição a pensar em como levar informação sobre suas ações, e sobre o acesso às atividades de fomento e promoção da cultura, a públicos tão amplos e diversos. Pela natureza do órgão, é preciso pensar que temos que atender às demandas culturais de pessoas de todas as classes e em toda a cidade, e pensar nos recursos e estratégias para atingir esses públicos é um desafio diário.

VRP: Como anda e quais as perspectivas da área aí em Minas Gerais?

Para ser sincero, não tenho muita base para falar sobre isso atualmente. Pelo que tenho acompanhado, não vejo um cenário muito diferente de quando eu estava no Horizonte RP, em termos gerais. Há uma demanda crescendo normalmente, e a área digital é que mais tem chamado os profissionais, principalmente os recém-formados.

VRP: Você sempre teve uma atuação bastante consistente com blogs e outros canais digitais, em sua opinião, como esses canais contribuem para a categoria?

Em primeiro lugar, eles agregam pessoas de lugares distantes, o que já é positivo para diversificar a visão dos profissionais, sair do seu entorno e conhecer outras experiências. Além disso, também ajudam a formar uma rede colaborativa, reforçando o sentimento de grupo da profissão. E, por fim, eles servem tanto de porta de entrada para futuros estudantes quanto como fonte de informações para empresários ou mesmo o público em geral, que passam a perceber que RPs trabalham com todos aqueles temas.

VRP: Quais suas considerações sobre a atuação do conselho para a consolidação da profissão?

Como eu já disse numa pergunta anterior, eu acredito que o nosso Conselho precisa ser repensado, e não em termos de flexibilização. Eu já o considero muito importante porque apenas a sua existência pelo menos já serve como um norte, um ponto de referência, um espaço onde os profissionais podem pelo menos almejar serem representados de alguma forma. Mas a categoria precisa definir o papel desse conselho, sua forma de representação, e as formas de demandar e de participar dele. Sem a compreensão e o acordo sobre tudo isso, teremos ou uma participação de baixa qualidade ou um conselho que existe isolado da categoria que representa.

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