040 – RP escreve a sua história com Marcus Vinícius Bonfim

rp-facebookNa semana de entrega do Prêmio ABRP temos a honra de receber na série “RP escreve a sua históriaMarcus Vinícius Bonfim, que é Professor no Curso de Relações Públicas da Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado (Fecap). Presidente da Associação Brasileira de Relações Públicas – seção São Paulo. Mestrando em Ciências da Comunicação pela ECA-USP.

VRP: Por que escolheu estudar Relações Públicas?

Optei pela graduação em Relações Públicas quase no final do cursinho pré-vestibular organizado pelo Núcleo de Consciência Negra que existia nos barracões da USP, em 1997. Gostava do Direito, mas não pensava em exercer a advocacia, me interessava mais a atuação na Promotoria, no Ministério Público. Fiz um teste vocacional e uma das profissões indicadas era Relações Públicas, além do Direito e Relações Internacionais. Fui a estes eventos de apresentação de cursos e gostei de Relações Públicas, tomei a decisão em outubro de 1997.

VRP: Qual ou quais as pessoas que te inspira/inspiraram a ser Relações Públicas?

No meio acadêmico, os professores que me formaram na Cásper Líbero: Luiz Alberto de Farias, Júlio Barbosa, Marisa Santoro Bravi e Ethel Shiraishi Pereira. No mercado, gosto muito da Gilceana Galerani (Embrapa) e em agências, da Luciana Bravo, da Scriba Comunicação. São referenciais pra mim.

VRP: Como enxerga o cenário brasileiro das relações públicas? Foto Marcus Vinicius Bonfim

Vejo um cenário promissor e altamente competitivo. Se pensarmos que cada vez mais importa às pessoas e as organizações em geral uma ética nos relacionamentos, veremos que os relações-públicas podem cumprir um papel crucial na manutenção de relacionamentos por meio da comunicação e outras estratégias que envolvam pessoas e que tangibilizam valores e propósitos. Os números divulgados pelo The Holmes Report semanas atrás indicam isso, tanto no cenário global, quanto nacional.

VRP: Como você vê a perspectiva de mercado para profissionais de relações públicas?

Como disse na pergunta anterior, vejo um mercado promissor e competitivo. Acredito que nenhum dos profissionais do campo da comunicação – sejam relações-públicas, jornalistas, publicitários, profissionais de rádio e tv – devem se acomodar com o fato de sermos tecnicamente aqueles responsáveis em comunicar.

Essa “reserva técnica” já foi quebrada há muito tempo e acelerada pelo avanço das tecnologias de informação e comunicação. O nosso desafio agora está atrelado cada vez mais a competências de gestão, pesquisa, análise, curadoria e coerência e sentido das informações, fazer as leituras corretas dos cenários para criar identidade e imagem muito genuínas dos nossos clientes.

VRP: Comemoramos em 2014 os 100 anos das Relações Públicas no Brasil, para você, a profissão é valorizada como deveria?

Acredito que a nossa atividade é valorizada, reconhecida e admirada. Mas o profissional ainda não é respeitado, sobretudo porque deixamos de fazer a nós mesmos os devidos juízos de reputação da classe e dos resultados positivos dos trabalhos dos colegas, independentemente do porte ou segmento da organização onde se trabalha. Trabalhamos pouco coletivamente na consolidação dessa visão de Relações Públicas – a imagem do profissional ficou em segundo plano, quando deveria crescer concomitantemente à atividade no mercado. As técnicas, teorias e práticas estão aí, sendo empregadas, mas precisamos reforçar a imagem dos colegas, fazê-los serem reconhecidos como relações-públicas, tal como são, e eles também assumirem que são relações-públicas.

VRP: Sabemos que o eixo Sudeste ainda concentra a maioria dos profissionais de área, bem como a maioria das vagas de trabalho oferecidas. Qual seria a maior dificuldade, em sua opinião, para a expansão nacional da área e das oportunidades de emprego?

Esta pergunta é interessante pois coloca em evidência um fator histórico e econômico da atividade econômica no Brasil. Se é fato que no Sudeste temos maiores condições para o exercício das Relações Públicas, implica entender que precisamos – enquanto Nação – desenvolver mais e melhor o potencial econômico pelo país afora, como vem ocorrendo.

Já temos espalhadas pelo Brasil faculdades com cursos de Relações Públicas em todas as regiões, mas é preciso criar esse link com cadeias produtivas mais complexas e difusas, e criarmos uma cultura empreendedora e de trabalho entre os relações-públicas que não vislumbre apenas o emprego na grande empresa, mas que enxergue o potencial das organizações no entorno dos grandes empreendimentos, e trabalhe também o potencial das cidades fora das grandes metrópoles.

VRP: Como professor de Relações Públicas, você acha que a grade do curso de RP está se ajustando com a realidade atual do mercado de Relações Públicas?

Sim, está se ajustando e o verbo – e as ações atreladas a ele – tem que permanecer assim, em contínuo ajuste. As Diretrizes Curriculares Nacionais recém implantadas são um fator deste reconhecimento da necessidade de mudança e os currículos devem continuar assim, se renovando à medida que os desafios do mercado exijam essa atualização e a academia esteja sempre pronta a responder com o chamado P&D – pesquisa e desenvolvimento.

VRP: Qual a sua expectativa para o curso de Relações Públicas daqui a alguns anos? O que você acha que poderia ser melhorado na grade curricular do curso?

Minha expectativa é que independentemente da formatação criada hoje pelo MEC, os cursos dialoguem mais entre si, e não apenas na área de Comunicação, mas também com os colegas das áreas de Administração, Economia, Ciências Contábeis, Direito, Engenharia, Medicina, Enfermagem, Biologia, Química, entre tantas outras. Trabalhando juntos desde a graduação, os alunos dessas graduações vão cada vez mais cedo reconhecer o que cada profissional pode agregar a um negócio e vão criando suas redes multiprofissionais mais cedo, pois já atuaram em algum projeto integrado com essas diferentes formações, extraindo o melhor de cada um.

VRP: Os futuros profissionais de Relações Públicas estão preparados para se adaptar as novas tecnologias e utiliza-las a seu favor? Onde as redes sociais se encaixam na estratégia de um plano de “RP”?

Não estão totalmente preparados, mas ninguém está 100% é um processo em evolução e expansão que não vai parar, só tende a aumentar. A intensidade e a velocidade das mudanças são grandes, e é preciso termos antes a cultura e a humildade de pensar, pesquisar e praticar. É ter o mundo e a realidade a seu dispor como laboratório para testar e experimentar e não esquecer de refletir sobre o que ocorre, estudar fenômenos, verificar se há repetição e por quê e ir atuando, construindo. Eu particularmente não faço mais uma distinção das redes sociais como uma seara de trabalho a ser conquistada por Relações Públicas – já é o principal meio estratégico de atuação, as variações na estratégia vão ocorrendo de acordo com os perfis de público, negócio, investimentos. Evidente que não é massivo, mas o impacto é enorme e não concordo com a visão de “novo” ligado às mídias sociais e à tecnologia: é a realidade, mas não deve absorver o fôlego dos relações-públicas somente com isso, temos que ser bons estrategistas em múltiplas ações on e off-line de acordo com o que surgir como desafio de comunicação e relacionamento.

VRP: As Relações Públicas completam 100 anos no Brasil. O que você vê como a maior contribuição da profissão para o país, durante todo este período?

Destacaria como principais marcos ao longo desses 100 anos, além da criação dos cursos, a partir da ECA-USP em São Paulo e da ESURP em Pernambuco, a Light São Paulo (atual AES Eletropaulo) que iniciou essa história em 1914 e alguns trabalhos de relações-públicas que ganharam visibilidade no mercado, sobretudo no meio empresarial: o programa “Portas Abertas”, da Rhodia, nos anos 80; o trabalho desenvolvido pela Vera Giangrande no Grupo Pão de Açúcar, que deu uma nova dimensão a atuação das empresas do país em relação aos consumidores a partir dos anos 90; e outras empresas como GM, Tetra Pak, Petrobrás, Pirelli, Caterpillar, Johnson&Johnson, Unilever, Basf, a Embrapa que tem uma cultura forte de desenvolvimento científico, na área governamental, governos e autarquias públicas em diferentes épocas que souberam ter planejamentos de comunicação e Relações Públicas excelentes, com profissionais dentro delas ou contratando agências nacionais e internacionais para este trabalho.

Enfim, há empresas de diferentes portes e segmentos que têm relações-públicas atuando, não são mainstream nem estão “bombando” e falando de si mesmos nas redes sociais e são belos exemplos do nosso trabalho e importância para o mercado, para as organizações e seus públicos e clientes, e isto não tem a ver com invisibilidade da área em si, mas um foco profissional e ético para os públicos com quem essas organizações querem se relacionar e comunicar.

VRP: Falando em história, conte mais sobre a sua história com a profissão. Por quê escolheu RP?

Como respondi na primeira pergunta, as Relações Públicas estavam no meu radar, de forma bem ampla, ainda no cursinho pré-vestibular. Depois que optei pela área, o que ocorreu comigo foi um encantamento total com as possibilidades de atuação que as Relações Públicas permitem, e quando entrei na faculdade em 1998, a cada disciplina o interesse crescia, embora estivesse desempregado nos primeiros seis meses.

Em agosto de 98 consegui emprego na área administrativa da Ordem dos Advogados do Brasil, secção São Paulo (OAB-SP) da Comissão de Defesa do Consumidor e batalhei bastante. Somente no quarto ano (2001) consegui ir para a área de assessoria de imprensa que foi uma grande escola prática pra mim, fiquei na assessoria até meados de 2003. Saí da OAB-SP para trabalhar como técnico de Relações Públicas no Centro Universitário FIAM-FAAM no campus Morumbi em 2003 e trabalhei um ano e oito meses lá até fecharem o campus. Novamente fiquei desempregado, por seis meses, até conseguir emprego no cerimonial da Secretaria da Justiça do Estado de São Paulo por um ano. Trabalhei em agência de comunicação por seis meses, como redator na Scriba Comunicação Corporativa, escrevendo para a revista Semear, dos colaboradores da Bunge Fertilizantes, e um boletim eletrônico para a implantação do SAP da mesma empresa.

Essa experiência em agência durou uns seis meses, pois no período do desemprego prestei vários concursos e passei em primeiro lugar para a única vaga de Relações Públicas no Conselho Regional de Enfermagem de São Paulo (COREN-SP), onde atuei de 2007 até 2012. Depois trabalhei na Holcim Brasil S/A por quatro meses como analista de comunicação até que optei pela área acadêmica ao entrar no mestrado na ECA-USP e sou professor do curso de Relações Públicas da FECAP.

VRP: Qual é a área de atuação das Relações Públicas que você vê como mais promissora em curto prazo? Por quê?

No curtíssimo prazo a área de atuação que está aí precisando de nossa expertise são as campanhas eleitorais, que precisam se renovar em termos de estratégias e linguagens e os candidatos precisam de um profissional com o perfil de Relações Públicas para desenvolver identidade e ética em torno dos mandatos daqueles que forem eleitos nas próximas eleições. O saldo das manifestações de junho ainda está aberto: a cidadania exige ética, transparência e relacionamento, e isto está no DNA da profissão, embora seja um campo difícil, precisaríamos entrar aí com nosso profissionalismo.

Também gostaria de chamar atenção para as áreas de comunicação ambiental e relações com comunidades, especialmente para projetos de empresas privadas e do governo que têm muito impacto social e ambiental e demandam uma série de medidas mitigadoras ou compensatórias desses empreendimentos, e o relações-públicas pode e deve atuar junto a estas comunidades para fazer uma comunicação que não prejudique ainda mais essas pessoas e também evite que obras sejam embargadas ou interrompidas por insensibilidade da iniciativa privada e do Poder Público pela falta de um ou mais profissionais que possam cumprir esse papel de promover o diálogo e o relacionamento.

VRP: Como o Relações Públicas, usando as próprias estratégias de “RP” pode fazer com que a profissão ganhe cada vez mais espaço e reconhecimento, para que se torne tão popular como os profissionais de Publicidade e Jornalismo?

Começaria com o nosso público interno – profissionais, professores e estudantes – no sentido de criar uma identidade muito coesa, ética e transparente do significa ser um profissional de Relações Públicas. Se todos nós estivermos imbuídos desse espírito, a mensagem que temos a passar ao mercado em torno do nosso reconhecimento como profissional, será consequência.

E a “popularização” da importância da atividade e dos profissionais virá como resultado direto da nossa própria atuação e não de campanhas de imagem. Eu não almejaria ser popular como publicitários e jornalistas, mas seria mais assertivo quanto a necessidade de ter um relações-públicas ou de me consultar com este profissional.

VRP: Qual mensagem você diria para quem está iniciando no curso de Relações Públicas e para os recém formados na área?

Que se desenvolvam dentro da profissão acreditando que têm conhecimento suficiente para criar negócios – na área de comunicação ou em outras áreas – pois têm a visão mais importante para o mercado hoje, que é o foco no público, no cliente. Se aplicarem isso, com verdade e confiantes no potencial e na história de vida de cada um, poderão ter carreiras bem sucedidas ou serem empreendedores e desenvolverão a autonomia necessária pra isso.

VRP: Agora, brincando de adivinhar o futuro, como você acredita que estará o panorama das Relações Públicas no seu segundo centenário brasileiro?

Acho que em 2114 teremos a atividade Relações Públicas na essência pura e simples do que somos: comunicadores de identidades marcantes.

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