046 – RP escreve a sua história com Luciana Hage

rp-facebookHoje recebemos no “RP escreve a sua história” Luciana Hage, Relações Publicas com MBA em Gestão da Comunicação Corporativa. Delegada Estadual do Conselho Regional dos Profissionais de Relações Públicas-Seção Pará. Coordenadora de Eventos Institucionais da Universidade da Amazônia – Unama. Luciana tem 15 anos de experiência em organização de eventos empresariais e sociais e há 9 anos trabalha com consultoria e assessoria de comunicação para empresas.

VRP: Por que escolheu estudar Relações Públicas?

É curioso, mas costumo dizer que não escolhi relações públicas, ela foi quem me escolheu. Apesar de sempre ter sido considerada uma pessoa muito comunicativa, com bom relacionamento, desde criança, não pensava em segui alguma profissão nesta área. Na ocasião em que precisei escolher uma carreira, decidi ler sobre algumas que me atraiam. A área de exatas foi a primeira que excluí, números eram meus pesadelos (risos). Depois fui pra área da saúde, algumas me interessaram, como medicina e nutrição, mas pensar em sangue era um pesadelo maior ainda, n-ã-o!!. Foto Luciana Hage

Na área de humanas comecei a me encontrar, história, filosofia, letras, ciências sociais. Eita coisa maravilhosa, estava num paraíso! Mas ainda sim, nada me tocava profundamente. Que sofrimento pra uma adolescente de 17 anos. Em fim, aos 20 anos, após dois vestibulares frustrados, resolvi visitar a área das ciências sociais aplicadas, mais especificamente a comunicação. Meu Deus, como pude passar tanto tempo nas trevas?!!! (risos). E veja só, das três habilitações a única que me fez sentir borboletas na barriga foi as Relações Públicas. Descobrir que tinha alguma habilidade de relacionamento e que isso poderia ser desenvolvida para uma carreira profissional. Conhecer pessoas, saber de seus anseios e expectativas e buscar a mediação de diálogos poderia me fazer uma profissional realizada e feliz. É exatamente assim que me sinto hoje. Foi assim que escolhi, ou melhor, que as relações públicas me escolheram.

VRP: Qual ou quais as pessoas que te inspira/inspiraram a ser Relações Públicas?

Minhas inspirações vieram primeiro com alguns professores na academia. Lembro-me de alguns, Prof. Salomão Azulay, Profª Alda Costa e Profª Cenira Sampaio. Depois de graduada, já atuando no mercado de trabalho encontrei alguns profissionais da comunicação, relações públicas ou não por formação, que me ajudaram a formar meu perfil profissional, como a minha querida amiga Ana Paula Sampaio, com quem tive a honra de trabalhar e conhecer um pouco mais sobre a fascinante área dos eventos empresariais.

O tão querido Marcelo Pinheiro, cerimonialista internacionalmente conhecido e um mestre na área do cerimonial público, a quem sempre recorro até hoje nos momentos de dúvidas, que são muitos por sinal (risos). E falando num cenário mais amplo, tive a honra de conhecer o colega Rodrigo Cogo, sempre muito dinâmico e produtivo em conteúdos na área. Sem falar que tive a honra de ser aluna da mestra Margarida kunsch, Wilson Bueno, João Forni, Carlos Iasbeck, todos num curso de MBA, com eles pude aprofundar meus conhecimentos e eles me despertaram o desejo da área docente. Aprendi muito com todas essas pessoas (aprendo até hoje) e sou muito grata a todos por me ajudarem a enxergar melhor a beleza de minha profissão.

VRP: Como enxerga o cenário brasileiro das relações públicas?

Tenho conversado com alguns colegas, tanto aqui em nossa região, quanto no nordeste e sudeste do país. E percebo que a angústia é quase a mesma, de perda de terreno e impotentemente senti que profissionais de outras áreas ocupam cargos que caberiam aos relações públicas. Sabemos frequentemente de faculdades que encerram suas ofertas pelo curso. A princípio um cenário muito desfavorável, não é mesmo? Mas por outro lado penso que na verdade estamos perdendo mercado para nós mesmos, pois não nos movimentamos conforme as necessidades do universo empresarial.

Ainda sinto que recém-formados saem das faculdades, assim como muitos profissionais, estão presos com um estereótipo muito comodista de assessor e consultor “limitado” numa hierarquia corporativa puramente administrativa. Isso é muito ruim, pois considero a dinamicidade e a disposição de estar onde a informação estar duas das mais importantes características dos relações públicas. Um outro fator de vulnerabilidade em nossa área está na produção de conhecimento e ingresso na docência. Temos poucos teóricos atuais no segmento e bem menos mestres e doutores nos ambientes acadêmicos.

Em minha opinião o problema começa na ocasião em que o indivíduo entra na fase de escolha de uma profissão e não há um esclarecimento, talvez nenhuma informação, sobre o que o faz um relações públicas. Acredito que temos que estar mais juntos para juntos resolver essa crise. Digo sempre por aqui que as Relações Públicas precisam urgentemente de um Relações Públicas. Quem se habilita?

VRP: Como você vê a perspectiva de mercado para profissionais de relações públicas?

Em tempos onde cada vez mais nós, enquanto consumidores, cidadãos e clientes, exigimos respostas coerentes e compatíveis com nossas expectativas, percebe-se facilmente que o profissional de relações públicas é, e será cada vez mais, essencial no relacionamento entre empresas (ou personalidades) e seus públicos. Sinto que este profissional, ainda que não institucionalizado, sempre esteve presente na construção da história da humanidade. Há quem diga que Jesus Cristo foi um dos grandes representantes da história recente. Outros que alguns reis e imperadores também exerceram papel de mediadores em conflitos históricos, como o Imperador Constantino no Concílio de Nicéia.

Levando em consideração que realmente somos primariamente gestores de conflitos com a finalidade maior de harmonizar as relações, acredito no papel de relações públicas dessas figuras emblemáticas. E como creio que realmente nossa atividade vem de longas datas e por longas épocas ainda permanecerá entre as mais importantes do mercado, sinto excelentes perspectivas para nossa atuação.

VRP: Comemoramos em 2014 os 100 anos das Relações Públicas no Brasil, para você, a profissão é valorizada como deveria?

Ainda somos, institucionalmente falando, uma profissão muito nova, comparada a profissão de Jornalista, Médico e Advogado, por exemplo. Um século de atividade é um marco muito importante e digno de muitas comemorações. Passamos e ainda passaremos por muitas fases de questionamentos da profissão para assim fazê-la cada vez mais honrada. É interessante percebermos como a nossa história está intrinsicamente ligada a história de nosso amado Brasil, no que diz respeito ao período obscuro da ditadura e logo em seguida a luz da democracia. Temos uma boa batalha pela frente pra desfazer o equívoco de sermos os “caras” que metem em prol de razões duvidosas ou que são meros organizadores de festinhas pra fazer “uma social” com algumas pessoas.

Penso que a valorização nasce em cada profissional, que entende e honra sua atividade e a desenvolve com responsabilidade e ética. Assim sendo o que tenho visto é que não tem havido valorização de nossa profissão, pois ainda vejo indivíduos aviltando o mercado e não exercendo com méritos as relações públicas. É necessário que repensemos a atividade, com o olhar na realidade dos tempos atuais, valorizando a história, mas sem ficar preso a conceitos antigos e sim reescrevendo e reinventando seu papel no contexto dos negócios.

VRP: Sabemos que o eixo Sudeste ainda concentra a maioria dos profissionais de área, bem como a maioria das vagas de trabalho oferecidas. Qual seria a maior dificuldade, em sua opinião, para a expansão nacional da área e das oportunidades de emprego?

Não vejo dificuldade nessa expansão. O que percebo é que falta mais articulação dos profissionais nas outras regiões, no sentido de se unirem e conseguirem construir um bloco sólido, para que se mostrarem ao mercado como profissão, e não como indivíduos profissionais numa área desconhecida. Aquele cliquê de que juntos somos mais fortes faz muito sentido em nossa área. Há muita gente competente por aqui e desenvolvendo bons trabalhos, mais de forma muito isolada. Precisamos falar mais e compartilhar sem medo nossas experiências. Ainda há um senso comum de que o que é bom vem lá de fora. Nem sempre, ou não somente. Temos que resgatar nossa autoestima profissional e nos mostrarmos mais.

VRP: Como futura professora de Relações Públicas, você acha que a grade do curso de RP está se ajustando com a realidade atual do mercado de Relações Públicas?

Tenho conversado bastante com colegas e professores da área da comunicação, todos são unânimes em dizer o quanto a atividade de RP é importante o como seria maravilhoso o curso retornar a ser ofertado em vestibulares. Ao mesmo tempo em nossas conversas falamos muito o quanto é imperiosa a necessidade de atualizar a grade curricular do curso para melhor preparar o aluno. Eu concordo com isso. Mas também penso que necessitamos de mais professores, mestres e doutores na área de relações públicas, isso é essencial no ambiente acadêmico.

Desconheço um curso de pós-graduação da área de RP aqui no Pará, por exemplo. Tem-se cursos em marketing, em comunicação empresarial, no máximo, ou seja, nada muito direcionado, muito generalizado. Em nível stricto senso, então nem se fale, nenhuma opção. Isso também precisa ser melhorado. Nós devemos, e podemos, trazer essas opções.

VRP: Qual a sua expectativa para o curso de Relações Públicas daqui a alguns anos? O que você acha que poderia ser melhorado na grade curricular do curso?

Tenho certeza de que temos as melhores expectativas de melhoria nas ofertas do curso nas instituições de ensino superiores e principalmente de melhores oportunidades de empregabilidade no mercado, desde que façamos nossa parte, de articular e discutir sobre relações públicas em nossa região. Com relação a grade curricular, penso que devemos ter mais profundidade no segmento da gestão estratégica da comunicação, especialmente o planejamento articulado e integrado, com números, receitas e despesas. Trabalhar melhor a psicologia e a filosofia da comunicação, efetivamente essas duas disciplinas são primordiais para entender e agir para a integração com os públicos. E insisto em dois outros itens, um é sobre a urgência em termos mestres e doutores relações públicas. E a outra é sobre a articulação, enquanto classe, dos profissionais para melhorar a visibilidade da atividade. Essas duas situações são bases para que tenhamos uma realidade mais positiva.

VRP: Os futuros profissionais de Relações Públicas estão preparados para se adaptar as novas tecnologias e utiliza-las a seu favor? Onde as redes sociais se encaixam na estratégia de um plano de “RP”?

Penso que como em toda profissão, a academia nos prepara com uma base sólida e primordial para encarar o mercado, mas ainda não nos prepara adequadamente para enfrentar os novos desafios reais do universo organizacional. Até porque fora a universidade os ambientes são rapidamente transformados de maneira que academicamente falando fica quase impossível de acompanhar as mudanças. No que diz respeito as redes sociais virtuais, essas advindas com o avanço tecnológico, a enxergo como um canal muito eficiente de comunicação com um perfil de público, assim como tantos outros.

É evidente que a internet nos oferece uma postura diferente, mais dinâmica e muito mais agilidade nas respostas. O relações públicas neste contexto deve conhecer este ambiente, identificar os públicos que as utilizam e as tem como referência. Tem que entender exatamente como ela funciona e encontrar uma forma de melhor se comunicar com os públicos dentro dessas redes e atender suas expectativas. Ou seja exatamente como fazemos com todos os outros canais de comunicação que conhecemos, onde cada um tem sua linguagem própria e um funcionamento típico.

VRP: Qual mensagem deixaria aqui para ser lembrado na comemoração de 200 anos das relações públicas no Brasil?

Sou uma profissional muito realizada e feliz por ter escolhido uma profissão tão rica e motivadora como a de Relações Públicas, que em novos tempos comemora dois séculos de atuação em nosso país. Parabéns a todos os profissionais da área, que honram e que fazem parte desta data tão especial.

VRP: As Relações Públicas completam 100 anos no Brasil. O que você vê como a maior contribuição da profissão para o país, durante todo este período?

Contribuição da profissão para o país? Nossa! Isso é muito grande. Penso que ainda não tivemos tempo para isso, um século de história é pouco. É importante não esquecer que tivemos um período negro em nossa história que se confunde com o período obscuro que o Brasil viveu, a ditadura militar. Foi uma época onde os RP´s foram muito utilizados pelo regime e isso nos causou uma mancha que ainda não conseguimos superar. Fomos do céu ao inferno. E até hoje pagamos o preço da descrença e desconfiança pública. Contudo creio que temos muito por fazer e somos competentes para isso.

VRP: Falando em história, conte mais sobre a sua história com a profissão. Por quê escolheu RP?

Minha graduação foi concluída na Universidade da Amazônia no ano de 2001. O inicio de minha vivência foi bem morna, sem muita empolgação, pois senti muito o abismo entre o que eu havia lido a respeito da profissão e o que os professores diziam em sala de aula. Alias, diga-se de passagem, todos tinham formação em jornalismo e não entendiam muita coisa sobre RP. Lembro bem de uma das professoras quando questionada sobre a diferença entre as três habilitações da comunicação respondeu com um sorriso amarelo que não sabia explicar, pois era jornalista. Foi frustrante!

A paixão foi mais forte no segundo ano de curso e a partir daí no encanto não se desfez mais. Meu maior deslumbre com as relações públicas é essa dinamicidade que temos em trabalhar com públicos diferentes, com expectativas diferentes, o que me desafia a cada projeto a ser melhor e mais efetivamente assertiva. Considero-me uma profissional realizada com as minhas escolhas.

VRP: Qual é a área de atuação das Relações Públicas que você vê como mais promissora em curto prazo? Por quê?

Vejo que a área de eventos, aqui na região Norte, é uma área muito promissora, pois cada vez mais os eventos teem se mostrado como eficientes nas estratégias de relacionamento com os mais diversos públicos de uma organização. Reuniões, feiras, congressos, comemorações específicas, colocam as pessoas muito mais próximas que de costume no dia-a-dia, isso ajuda nas negociações, nas articulações e concretização de projetos.

VRP: Como o Relações Públicas, usando as próprias estratégias de “RP” pode fazer com que a profissão ganhe cada vez mais espaço e reconhecimento, para que se torne tão popular como os profissionais de Publicidade e Jornalismo?

Precisamos conhecer profundamente a nossa história, para nos reconhecermos enquanto fortes agentes de gestão da comunicação. Nossos ilustres colegas da comunicação trabalham com uma parte palpável, o texto publicado e a peça ilustrada, o que ajuda muito a “vender” a importância de suas atividades, que de fato são de grande importância, isso é indiscutível. As relações públicas trabalham com um lado da comunicação menos palpável num primeiro momento, o relacionamento. Talvez isso possa ser uma justificativa para que outras áreas sejam mais visivelmente valorizadas e reconhecidas que outras, mas definitivamente não é uma razão para tal dualidade. Repito, precisamos falar mais sobre nós e discutirmos mais sobre as direções que devemos seguir, de forma articulada e como instituição profissional.

VRP: Qual mensagem você diria para quem está iniciando no curso de Relações Públicas e para os recém formados na área?

Para quem está entrando na faculdade, diria que abram suas mentes para novas ideias, para novas percepções e acreditem que estão iniciando uma das carreiras mais instigantes que o mercado oferece. Permitam-se viver a profissão, buscando referências práticas e lendo sobre o que os colegas teem feito pelo mundo afora. Para os recém-formados, o mercado nem sempre estará pronto para recebê-los, mas acreditem que vocês possuem habilidades e competências para mostrar quão importantes são para a construção de uma nova realidade, mais harmônica e concisa.

VRP: Agora, brincando de adivinhar o futuro, como você acredita que estará o panorama das Relações Públicas no seu segundo centenário brasileiro?

Creio que o cenário estará bem mais favorável do que hoje, pois a tendência é que aprendamos sempre com as adversidades. Em 200 anos com certeza teremos bem mais estrutura acadêmica para melhor receber os alunos e mostrar com mais embasamento a importância de nossa profissão. Dois séculos é tempo suficiente para um crescimento sólido. E daqui até lá teremos mais histórias e experiências a trocar, teremos mais espaços de discussões terrenos férteis para desenvolvimento de pensamentos.

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