051 – RP escreve a sua história com Victor Hugo Raposo

rp-facebookVictor Hugo Raposo, 24 anos, é concluinte do curso de Comunicação Social – Relações Públicas da Universidade Federal do Maranhão e trabalha atualmente como Analista de Mídias Sociais na CI – Comunicação e Informação. Tem experiência com movimentos sociais, em especial no movimento estudantil e de diversidade sexual. Na área acadêmica, tem como interesse o campo dos estudos culturais relacionados à realidade das organizações, sobretudo versando sobre “relações de comunicação no trabalho e intersecções com a diversidade sexual”.

100 anos de Relações Públicas

VRP: Por que escolheu estudar Relações Públicas?

Victor Hugo: Confesso que em partes foi um tiro no escuro. Um ano antes do vestibular, um conhecido da escola tinha sido aprovado para o curso e assim, soube de sua existência. No período de escolha da opção a concorrer, realizei uma pesquisa sobre a profissão e me identifiquei, sobretudo pelo fato de trabalhar com os bastidores da comunicação, além de ter a possibilidade de trabalhar com comunicação política, fato que na época me interessava pelo meu histórico de envolvimento no movimento estudantil.

VRP: Qual ou quais as pessoas que te inspira/inspiraram a ser Relações Públicas?

Victor Hugo: Creio que a inspiração para tornar-me Relações Públicas não foi anterior à graduação, pois somente no decorrer das disciplinas que pude ter a certeza de que queria aquilo como carreira. Nesse sentido, destaco duas professoras do curso de Comunicação Social da Universidade Federal do Maranhão. Uma delas, Amarilis Cardoso, em um momento de dúvidas em relação à continuidade da graduação, devido a minha predileção pela docência, mostrou-me como poderia continuar na carreira docente, além de ampliar minha visão sobre a área através da disciplina de Relações Públicas Comunitária. Já a professora Éllida Neiva Guedes, na reta final das disciplinas, apresentou o quanto pode ser interessante adentrar no âmbito da pesquisa acadêmica, além de dar-me ânimo para continuar a trilhar o caminho. Em relação às personalidades da área, não tem como não citar a professora Cicilia Peruzzo, especialmente pelo seu trabalho na área de Comunicação Comunitária que além do seu caráter de vanguarda, demonstra que do lado da margem a profissão ainda pode ser vivida.

VRP: Como enxerga o cenário brasileiro das relações públicas?

Victor Hugo: Atualmente, creio que a profissão está em um processo de adequação às novas necessidades Foto Victor Hugo Raposodo mercado de trabalho, bem como tendo um tímido, porém promissor, avanço no campo da pesquisa acadêmica. Vejo que os empregos nas grandes corporações não são mais os principais chamarizes dos recém-graduados, embora ainda sejam muito desejados. O profissional recém-formado encontra um cenário muito mais propício ao risco, ao caráter inventivo e empreendedor, do que à estabilidade financeira e empregos em cargos de alta chefia. Por outro lado, a partir da consolidação de entidades como a ABRAPCORP e uma maior participação de pesquisadores em Comunicação Organizacional e Relações Públicas nos programas de pós-graduação na área de Comunicação, pode-se notar um maior interesse da área pelo campo da pesquisa acadêmica. Este fator demonstra uma importância para a consolidação da área dentro do universo científico, bem como da continuidade de formação de docentes dedicados ao estudo em RP e Comunicação Organizacional, o que possibilita a manutenção de cursos de graduação, além de pós-graduações voltadas para a área.

VRP: Como você vê a perspectiva de mercado para profissionais de relações públicas?

Victor Hugo: O principal temor de um recém-formado é não ter espaço no mercado de trabalho. Creio que, bem como citado na questão anterior, o mercado atual está necessitando de profissionais com capacidade inventiva e um cenário promissor para o empreendedorismo. As funções características da profissão continuarão a ser exercidas, mas a tendência é de uma mudança no perfil dos novos profissionais, sobretudo tendo como escopo as mudanças no campo da comunicação, especialmente com as novas ferramentas de comunicação digital, além de um público mais difuso e com um poder de comunicação maior.

VRP: Comemoramos em 2014 os 100 anos das Relações Públicas no Brasil, para você, a profissão é valorizada como deveria?

Victor Hugo: A profissão ainda sofre pela falta de conhecimento específico de sua importância tanto para as organizações, como para a própria sociedade. As recorrentes: Mas o que é RP, mesmo? O que faz um RP?, ainda incomodam, sobretudo em se tratando de graduação. Para um estudante universitário ainda existe a necessidade de que as demais pessoas conheçam a sua futura profissão. Creio que, especialmente nas regiões Norte e Nordeste, ainda faltam esforços das entidades de representação de classe em se fazerem efetivas, tanto para os próprios associados como para a sociedade civil.

VRP: Sabemos que o eixo Sudeste ainda concentra a maioria dos profissionais de área, bem como a maioria das vagas de trabalho oferecidas. Qual seria a maior dificuldade, em sua opinião, para a expansão nacional da área e das oportunidades de emprego?

Victor Hugo: A profissão precisa adequar-se a realidade das demais regiões e isso perpassa, inclusive, pelo curso de graduação. Hoje, a maior parte da bibliografia estudada na graduação reflete um cenário que não se aproxima do contexto vivenciado pelos estados menos industrializados. E isso, em partes, dificulta a inserção do profissional no mercado, tendo em vista que foi capacitado para lidar com organizações que, na maior parte dos casos, não existem em grande quantidade em sua região geográfica. Além disso, precisa-se de uma atenção das entidades de classe, através de estratégias de sensibilização dos empregadores para a importância do profissional de RP.

VRP: Como recém-formado em Relações Públicas, você acha que a grade do curso de RP está se ajustando com a realidade atual do mercado de Relações Públicas?

Victor Hugo: Estou em processo de formação, restando apenas à defesa da monografia e já entrei em um currículo com adequações à nova realidade. Contudo, diante de tantas mudanças, um novo currículo já está sendo preparado. Creio que a Universidade tem estado atenta às novas demandas, especialmente pelo novo perfil de ingressantes no curso de graduação. A área está transformando-se e, pelo menos na Universidade Federal do Maranhão, tem se pensado nessa nova realidade.

VRP: Qual a sua expectativa para o curso de Relações Públicas daqui a alguns anos? O que você acha que poderia ser melhorado na grade curricular do curso?

Victor Hugo: Espero que o curso evolua no campo da pesquisa acadêmica, com a criação de novos grupos de pesquisa e maior participação de estudantes do curso em eventos científicos através de apresentação de trabalhos tanto científicos como experimentais. Diante disso, creio que deva haver um empenho por parte dos docentes na consolidação de grupos de pesquisa e incentivo à produção científica, tendo em vista que, baseando-se nas últimas edições do INTERCOM Nordeste (maior evento da área na região), a área de RP e Comunicação Organizacional nas categorias voltadas à graduação, INTERCOM Júnior e EXPOCOM, teve uma participação diminuta em relação às demais áreas do campo da comunicação.

VRP: Os futuros profissionais de Relações Públicas estão preparados para se adaptar as novas tecnologias e utiliza-las a seu favor? Onde as redes sociais se encaixam na estratégia de um plano de “RP”?

Victor Hugo: A geração está preparada do ponto de vista operacional, visto que o acesso a essas ferramentas comunicacionais tem sido praxe entre os mais jovens. Contudo, vejo que o processo mostra-se mais amplo do que isso. É necessário um entendimento do uso estratégico dessas ferramentas, o que requer um conhecimento profundo do seu público e das necessidades de comunicação da sua organização. As redes sociais são forte aliadas, mas, bem como as outras ferramentas de comunicação, requerem um cuidado no momento de sua utilização. No caso específico das redes sociais deve-se ter cuidado redobrado, pois a possibilidade de resposta rápida e a capacidade de “viralização” de informações desfavoráveis apresentam um risco à reputação das organizações.

VRP: Qual mensagem deixaria aqui para ser lembrado na comemoração de 200 anos das relações públicas no Brasil?

Victor Hugo: As Relações Públicas desde a chegada ao país, embora passando por momentos conflitantes, tem exercido um excelente papel na mediação de interesses entre as organizações e os seus públicos. Nesse bicentenário, desejo que mantenham o compromisso com passado, com seus antecessores, mas sempre pensando que a realidade da comunicação está ligada ao presente. Continuem a fazer a história dessa profissão para que outros centenários sejam realizados e seus nomes possam estar na lista dos construtores.

VRP: As Relações Públicas completam 100 anos no Brasil. O que você vê como a maior contribuição da profissão para o país, durante todo este período?

Victor Hugo: Ao meu ver, a maior contribuição da profissão foi possibilitar a abertura de canais de diálogo das organizações com seus públicos, canais de comunicação não unilateral e horizontalizada. Além disso, dar protagonismo aos movimentos da sociedade civil organizada, tendo como destaque as entidades de representação de classe e movimentos sociais. A profissão precisa reconhecer sua contribuição para uma comunicação contra-hegemônica com a possibilidade de dar voz a categorias silenciadas pelos meios de comunicação de massa.

VRP: Qual é a área de atuação das Relações Públicas que você vê como mais promissora em curto prazo? Por quê?

Victor Hugo: Não se pode negar que a área de eventos ainda representa um grande nicho de mercado e possibilidade de ganhos em curto prazo, tendo em vista que o número de vagas para esse setor ainda seja grande em relação a outras áreas. Contudo, nos últimos anos, a área de comunicação digital tem se mostrado expoente e tende, ao longo do tempo, a equilibrar o número de vagas em relação a área de eventos.

VRP: Como o Relações Públicas, usando as próprias estratégias de “RP” pode fazer com que a profissão ganhe cada vez mais espaço e reconhecimento, para que se torne tão popular como os profissionais de Publicidade e Jornalismo?

Victor Hugo: A utilização de ferramentas de comunicação aproximativa é uma ferramenta característica da profissão e que precisa ser utilizada para campanhas que tenham como intuito popularizar a profissão. Ainda, mostra-se necessário um estreitamento do relacionamento com as produções dos meios de comunicação de massa, tendo em vista que o grande alcance de produções, como as telenovelas, tem na sociedade brasileira. Temos na novela um dos grandes disseminadores de um perfil negativo da nossa profissão, onde na maioria das vezes a atividade é demonstrada de maneira errônea e executada sem nenhum critério.

VRP: Qual mensagem você diria para quem está iniciando no curso de Relações Públicas e para os recém formados na área?

Victor Hugo: Acredito que a principal mensagem é de ânimo, mesmo que aparentemente o cenário não seja animador. O profissional de Relações Públicas tem um grande potencial que apenas precisa ser conhecido e cabe a nós cavarmos os espaços de reconhecimento. Se esforce em todas as oportunidades que tiver de mostrar seu trabalho e procure criar desde o início do curso uma identidade, se fazendo reconhecido pelas suas habilidades específicas em alguma área. Escolha uma área e faça com que todos saibam que você é bom naquilo, e assim sempre será lembrado quando precisarem de alguém bom naquilo. E não esqueçam, você começa sua carreira profissional na graduação, então ter um bom relacionamento com colegas de curso e professores é parte importante de uma boa trajetória profissional.

VRP: Agora, brincando de adivinhar o futuro, como você acredita que estará o panorama das Relações Públicas no seu segundo centenário brasileiro?

Victor Hugo: O cenário será de maior visibilidade da profissão e de maior interesse do mercado pelos profissionais, visto que o avanço das tecnologias exigirão profissionais que estejam preparados para lidar com as crises criadas pela maior exposição de suas marcas nas redes e do acesso facilitado do público a essas ferramentas. A tendência é um busca de maior aproximação das organizações com esses públicos, na tentativa de criar uma relação próxima a do ídolo/fã. E somente com as ferramentas de Relações Públicas poderá ter esse objetivo consolidado. Um exemplo recente que mostrou a eficácia dessas ferramentas foi a seleção Alemã na Copa do Mundo no Brasil. Mesmo depois de ter eliminado o nosso país na competição, os torcedores brasileiros mantiveram sua torcida pela Alemanha, tendo em vista que todas as ações de comunicação já tinham gerado essa relação próxima a idolatria e a partir daí, além de ações geradas pela assessoria, o próprio público tratou de disseminar conteúdos que demonstravam sua admiração pela seleção alemã.

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