086 – RP escreve a sua história com Thiago Siqueira

rp-facebookMais uma entrevista diretamente de Portugal, ora pois. Hoje Thiago Siqueira, 25 anos e atualmente morador de Lisboa/Portugal é quem conta sua história. Bacharel em Comunicação Social – Relações Públicas pela Unesp/Bauru e Mestrando em Ciências da Comunicação, com especialização em Comunicação, Organização e Liderança pela Universidade Católica Portuguesa em Lisboa.

VRP: Por que escolheu estudar Relações Públicas?

Foi um processo natural, apesar de eu nunca ter sido o estereótipo falante e extrovertido que as pessoas esperam de quem escolhe comunicação. Por um tempo isso me fez questionar se estava no caminho certo, mas depois percebi que nem todo mundo entende, de verdade, o que é comunicação.

Quando prestei vestibular pela primeira vez arrisquei em Fisioterapia e Publicidade (não, não sabia muito bem o que estava fazendo). Não passei, mas toda a crise veio mais por conta de não ter passado em Publicidade do que em Fisioterapia, então comecei a entender melhor o que eu queria e, principalmente, o que significava essa escolha de “o que serei quando crescer”.

Fiz um ano de cursinho só para tentar ser aprovado em Publicidade. Na época prestei um vestibular só. Lembro de ter sido extremamente duro comigo mesmo, pouquíssimo flexível. Não deu outra, não passei nem da primeira fase. Parei um tempo, respirei e me perguntei não onde, não com o que, mas como e por qual motivo eu gostaria de estar envolvido com o que quer que fosse.

Na próxima chance foquei na área de Comunicação como um todo, via cursos na área me inscrevia. Sabia que era isso o que queria, mas não me limitei a descobrir naquela época uma função específica. Lembro que minha mãe me disse “Vai, faz a sua parte, que nem sempre acontece o que a gente quer. Acontece o que é melhor pra gente”.ThiagoSiqueira

Então, vou cair em um grande clichê, mas é difícil definir de outra forma. Foi RP que me escolheu, muitas vezes, em diversos momentos, e continua me escolhendo. Por isso, acho que a melhor pergunta seria “Por que escolheu continuar estudando Relações Públicas?” Eu poderia ter desistido, visto que a área não me contemplava, ou qualquer coisa do gênero. Mas eu respondo que continuo estudando RP porque, de diversas formas, é como e por qual motivo eu gosto de estar envolvido com as coisas. Fui conquistado pela convivência, pela filosofia RP de ser, pela forma com que a profissão cresce junto comigo.

VRP: Qual ou quais as pessoas que te inspiram a ser Relações Públicas?

Nunca fui muito bom em escolher pessoas ou ídolos. Gosto de pensar no improvável, assim acabo encontrando exemplos que me inspiram todos os dias, porque surgem de pessoas que podemos encontrar em qualquer lugar, a qualquer hora. Além disso, quando cito alguém específico fico com aquela sensação de que aquela pessoa é inalcançável, e não acho muito saudável enxergar por esse viés. É importante termos ícones, mas é importante também saber que no nosso universo podemos inspirar e sermos inspirados.

O que me inspira a ser Relações Públicas são as ideias, e ideias podem estar em todo lugar, em qualquer pessoa. Desde um desconhecido que você cruza na rua até o grande CEO de uma empresa. É claro que existem muitas pessoas com exemplos de ideias brilhantes e reconhecidas, mas sempre penso quantas outras ideias não estão por aí, ainda desconhecidas ou subestimadas, que podem me inspirar e fazer a diferença? Tento ficar de olhos abertos.

VRP: Comemoramos em 2014 os 100 anos das Relações Públicas no Brasil, para você, a profissão é valorizada como deveria?

Vou dar uma visão de recém-formado, de alguém que acredita que a valorização começa consigo mesmo. Nunca conheci alguém plenamente satisfeito com o quanto sua profissão é valorizada, mas conheci pessoas plenamente satisfeitas com a sua atuação, e, o que acredito ser consequência, reconhecidas por isso.

Falando sobre as Relações Públicas, tem alguns pontos que costumo pensar. O primeiro é que, na minha opinião, a desvalorização caminha junto com o desconhecimento. Nesse sentido, acredito que nós, os próprios profissionais, têm parte de culpa.

Além disso, vejo muita gente desmotivada pelo fato de ter que encarar a famosa pergunta “Relações Públicas? O que é isso? O que você faz?”. Prefiro enxergar isso como um processo de descoberta da profissão, de autoconhecimento e de valorização que cada um pode fazer por si só. Não adianta reclamar da valorização das Relações Públicas se quando alguém da sua família ou algum amigo te pergunta o que você faz, você responde “Nossa, muita coisa” ou “A, é comunicação”. Nós falamos tanto em construção de imagem e relacionamentos, porque não encarar essa situação dessa forma? Por que não encarar o desconhecimento da profissão como um incentivo para fazer mais, buscar mais, e mostrar resultados melhores?

Como disse, minha visão não é de mercado, mas acho que esses detalhes são muito importantes. Não dá para vestir a camisa pela metade.

VRP: O que você vê como a maior contribuição da profissão para o país, durante todo este período de cem anos?

Estudando fora, hoje vejo mais do que antes que a produção acadêmica no Brasil é muito forte na área. Sinto orgulho quando referencio e vejo trabalhos na Europa referenciarem autores brasileiros de Relações Públicas e Comunicação. Além disso, acredito que a busca constante pela construção do diálogo e a vontade dos novos estudantes em se envolver e arriscar em diversas áreas venha a ser favorável para a profissão. O RP está cada vez mais aberto a dar a cara a tapa, se jogar em projetos e lutar para que sua presença seja notada.

VRP: Conte mais sobre a sua história com a profissão. Como iniciou sua atuação? O que tem feito? Qual seu projeto de maior orgulho na área?

Quando comecei meus estudos queria saber como a área funcionava, quais eram as possibilidades e até onde eu poderia ir. Comecei a fazer tudo o que me interessava e, de certa forma, me dava medo. Precisava me soltar para saber se era isso mesmo que queria. Fui me envolvendo com a profissão de uma forma muito gradativa, e acho que foi isso me deixou mais à vontade em ser relações-públicas.

Fui membro da Comissão de Recepção de Calouros e da Comissão de Formatura da minha turma. Fui Trainee de Comunicação e Conselheiro da Empresa Júnior de Relações Públicas da Unesp/Bauru – RPjr. Fui Coordenador de Comunicação Visual da Agência Propagação, uma agência experimental de propaganda social, com sede na Rádio Unesp FM e, além disso, bolsista da Revista FAAC, uma publicação eletrônica interdisciplinar vinculada à Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação da Unesp. Procurei participar da organização de eventos acadêmicos e conhecer o que os meus colegas faziam na área.

Não subestimo nenhum dos passos, aprendi muito e tive a chance de trabalhar com pessoas fantásticas, profissionais incríveis. Lidamos com questões além das Relações Públicas, nos preocupamos, amadurecemos, conheci outras áreas da comunicação, vimos as coisas acontecerem do começo ao fim. Foi um crescimento fora de série.

Um pouco antes de me formar comecei a enviar currículo e a me inscrever em processos de trainee. Participar de todos os processos foi uma experiência muito enriquecedora. Vi até onde podia chegar e perdi um pouco da insegurança de “ser fraco para o mercado de trabalho” que a gente tem quando sai da faculdade. Participei de entrevistas, eventos e dinâmicas de grupo, mas não ter entrado em nenhuma empresa, naquela época, foi a melhor coisa que me aconteceu.

Eu não tinha o perfil. E acredito que ainda não tenho, se é que um dia terei. Em cada dinâmica convivi e trabalhei com pessoas diferentes, passei por empresas com valores diferentes, mas não tinha o perfil. E às vezes a gente precisa que alguém diga isso pra gente, porque nós, sozinhos, não percebemos. Queremos tanto, tanto, que nos cegamos para as demais possibilidades.

Então, uma das minhas melhores amigas me perguntou “você viu o programa de intercâmbio do Erasmus Mundus?” e eu fui ler o edital. Fiz a inscrição, fui selecionado, e estou morando há quase 3 meses em Lisboa, onde sou mestrando em Ciências da Comunicação com especialização em Comunicação, Organização e Liderança.

Tem sido uma experiência fantástica, aprendizados pessoais e profissionais imensos e uma chance de defender e estudar as Relações Públicas com outros olhares, talvez outras abordagens, aqui do outro lado do oceano. A ficha ainda não caiu totalmente, mas tenho certeza de que, mais uma vez, RP me escolheu.

VRP: Qual é a área de atuação das Relações Públicas que você vê como mais promissora em curto prazo? Por quê?

Vejo a área de internet e mídias sociais como algo a ser explorado, das mais diversas formas, mas vou defender minha área de pesquisa. Acho que Relações Públicas e sustentabilidade formam uma dupla incrível! Em todas as suas dimensões, de planejamento e cultura organizacional a gestão de imagem. Acredito nas RRPP como construtoras de organizações sustentáveis.

VRP: RP e empreendedorismo combinam?

Combinam muito! E o que não combina com RP?

VRP: Como vê o forte movimento de blogs/páginas/grupos sobre a temática relações públicas no país? Quais os benefícios podem surgir daí?

Vejo como um ótimo ponto de encontro, compartilhamento de experiências e informação. Acredito que é importante incentivar a produção de conteúdo a respeito das Relações Públicas e para os profissionais da área, propor a discussão e incentivar uma visão mais crítica sobre os assuntos que envolvem as RRPP.

Acho que talvez faltem conteúdos mais abrangentes, que estimulem a curiosidade e o contato com a profissão por aqueles que não são relações-públicas. Vejo muitas pessoas compartilhando conteúdo referente a outras áreas, mas questões mais cotidianas, relacionadas ás Relações Públicas, vejo muito pouco.

VRP: Qual mensagem gostaria de deixar para os estudantes e recém formados?

Sou recém formado, agora estudante de mestrado, então vou tentar falar um pouco do que precisei ouvir na época em que ainda estava na universidade.

O que eu posso dizer, com base nas experiências que tive e estou tendo, é que nem tudo surge da certeza. Nós somos muito cobrados para ter a resposta certa, na hora certa, mas aproveitem a universidade para se sentirem mais confiantes para dar essas respostas. Se joguem de cabeça, participem de projetos, eventos, ouçam quem entende e quem não entende sobre todo tipo de assunto. Leiam notícias com pontos de vista que você concorda e discorda. Façam trabalhos com temas que vocês não dominam, com pessoas que não são seus melhores amigos. Experimentem a sensação de ser RP quando ainda é possível errar sem arcar com grandes e irreparáveis consequências.

Vistam a camisa, não desconversem quando naquele almoço de família alguém perguntar “mas o que você faz?”. Estude o que você faz, espalhe o que você faz, divulgue. Coloque em prática, nos detalhes, o que você acredita ser Relações Públicas.

Por fim, ao menos de vez em quando, saia do que é provável, dos modelos, do que alguém já fez e tentem encontrar um ponto de equilíbrio entre a vida pessoal, social e acadêmica. É difícil, nem sempre dá certo, mas é preciso tentar. Se você estuda em outra cidade, em algum momento vai perder o almoço de domingo em família. Em algum momento você vai ter que escolher entre uma festa e o livro que tem que ler. Você vai ter que escolher entre duas coisas que você quer, entre duas coisas que você gosta muito e, infeliz ou felizmente, é impossível ter tudo. Mas calma, às vezes parece que não, mas dá tudo certo. 😉

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s