Diálogo com autor – Rafael Vergili

Como é bom saber que novos livros e trabalhos sobre a profissão de Relações Públicas estão sendo produzidos e disponibilizados para a comunidade profissional e acadêmica, o que eleva o nível de conhecimento, abrangência e traz novas abordagens e perspectivas para a profissão.

Damos início a semana com uma entrevista muito agradável e que traz informações muito boas para quem busca o desenvolvimento acadêmico (especialização, mestrado e doutorado), tem interesse em escrever livros de RP e quem deseja atuar com Mídias Sociais para grandes empresas do País.

Diálogo com Rafael Vergili, autor do livro “Relações Públicas, Mercado e Redes Sociais”

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Rafael Vergili, Relações Públicas, doutorando na ECA-USP e autor do livro “Relações Públicas, Mercado e Redes Sociais” pela Editora Summus

Conversamos com Rafael Vergili, doutorando em Ciências da Comunicação pela Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP), integrante de grupos de pesquisa na Universidade Metodista de São Paulo (UMESP), Universidade Federal do Amapá (UNIFAP) e Universidade de São Paulo (USP) e autor do livro “Relações Públicas, mercado e redes sociais”.

O pesquisador possui experiência na área de assessoria de imprensa e comunicação, é membro do Corpo de Jurados do Prêmio ABRP (Associação Brasileira de Relações Públicas), palestrante, autor de diversos capítulos de livros e artigos publicados em anais de eventos nacionais e internacionais, além de ter sido premiado no Congresso Internacional de Comunicação e Consumo.

Vergili apresentou, na entrevista a seguir, alguns aspectos relacionados ao processo de seleção dos programas de pós-graduação do Brasil, como se dá o desenvolvimento de uma dissertação/tese, além de tratar diretamente da obra “Relações Públicas, mercado e redes sociais”, publicada pelo Grupo Summus Editorial.

Confira a entrevista a seguir:

DECISÃO PELA ÁREA ACADÊMICA

  1. No término do curso de graduação, os alunos normalmente tendem a buscar mais o ramo empresarial, o que os distancia, de certo modo, do investimento na academia. É possível você comentar o grau de satisfação pela opção em seguir o ramo acadêmico e compartilhar conosco algum ponto interessante para você para incentivar os futuros pesquisadores?

Rafael Vergili – Aulas e atividades de pesquisa acontecem predominantemente no período da manhã e da tarde, dificultando atividades profissionais com horários mais rígidos. Quando existe a possibilidade de dedicação exclusiva à pesquisa (com auxílio de bolsa de alguma agência de fomento, por exemplo), a produtividade científica tende a crescer. Geralmente um pesquisador se sente realizado com a publicação de artigos científicos em periódicos de alto impacto, apresentação de trabalhos em Congressos nacionais e internacionais, mediação de debates, entre outras possibilidades. Essas atividades demandam tempo, mas acredito que quem realmente possui interesse por lecionar e/ou pesquisar consegue conciliar o ambiente acadêmico e o mercado de trabalho. Muitos dizem “não tenho tempo”, mas, como dizem, quando se está disposto a obter sucesso em alguma atividade: “tempo não se tem, tempo se arruma”. Sinto-me realizado com as opções escolhidas.

  1. Na escolha do profissional em dar sequência aos estudos é aconselhável fazer o passo-a-passo, especialização, mestrado e doutorado ou pode-se decidir qual linha lhe é mais interessante e investir nesta etapa acadêmica?

Rafael Vergili – Isso é algo muito pessoal. Eu, por exemplo, optei por não realizar uma pós-graduação Lato Sensu (especialização), que geralmente promove contribuição mais adequada para quem quer informações atualizadas sobre o mercado, aprimorar a rede de contatos, melhorar o cargo na empresa em que trabalha ou dar um upgrade na carreira.

A pós-graduação Stricto Sensu (mestrado e doutorado), por sua vez, é basicamente voltada para quem quer seguir carreira acadêmica (apesar de existirem agora mestrados profissionalizantes, por exemplo). Para quem quer lecionar ou se dedicar à pesquisa, o mais tradicional é a realização do mestrado e do doutorado, mas há, inclusive, pessoas que optam pelo “Doutorado Direto”, fato raro, mas que pode acontecer, dependendo da maturidade acadêmica do pesquisador.

Talvez quem faça a especialização antes do mestrado, por exemplo, possa ter algum tipo de vantagem por já ter mais “experiência acadêmica”, uma vez que é necessário um trabalho de conclusão de curso antes da finalização da pós. Isso faz o estudante/profissional exercitar o pensamento lógico, aplicar normas da ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas) e ter contato com livros que poderão ser utilizados no decorrer do mestrado e doutorado.

  1. Quais são os graus de dificuldade em passar nos processos que envolvem as etapas da academia?

Rafael Vergili – Acredito que a preparação para cada etapa é a base para aumentar as chances de obter sucesso no processo seletivo. De maneira geral (com pequenas variações de acordo com a universidade escolhida), o processo é composto por cinco etapas: 1) projeto de pesquisa; 2) prova dissertativa; 3) entrevista; 4) proficiência de língua estrangeira; e 5) comprovação documental.

Na primeira etapa, uma Comissão Julgadora atribui uma nota para a originalidade, pertinência do projeto à linha de pesquisa escolhida pelo candidato e a adequação do cronograma ao tempo disponível para a realização das tarefas.

A segunda etapa se baseia em uma prova escrita, geralmente com uma pergunta sobre cada livro recomendado na bibliografia básica do processo seletivo. Algumas universidades indicam apenas um livro, outras indicam até cinco obras.

Entendo que a terceira etapa é a mais subjetiva, uma vez que fatores como empatia e nervosismo fazem parte da entrevista entre a banca – em que o(a) futuro(a) orientador(a) estará presente – e o candidato que pleiteia uma vaga no mestrado ou doutorado. Alguns candidatos optam, inclusive, por realizar disciplina(s) como “Aluno Especial” (momento em que você cursa uma disciplina para conhecer mais adequadamente o Programa de Pós-Graduação, aprimorar o projeto de pesquisa, conhecer o método de trabalho do possível orientador e, posteriormente, caso aprovado no processo seletivo, utilizar os créditos no decorrer da vigência da pesquisa). No meu caso, tanto no mestrado como no doutorado, não realizei disciplinas como Aluno Especial e fui para a entrevista do processo seletivo sem ter feito contato preliminar com os futuros orientadores, o que não é muito comum.

Na quarta etapa, são realizadas provas escritas (geralmente de múltipla escolha) para comprovar proficiência de língua estrangeira. No mestrado, é exigida uma língua estrangeira. No doutorado, duas. Inglês e espanhol são as opções mais frequentes, mas alguns programas aceitam alemão, francês e italiano.

Por fim, a última etapa consiste na comprovação documental, com apresentação de currículo Lattes, produções bibliográficas e diplomas.

  1. Pelo que temos de conhecimento, você direcionou sua formação acadêmica (mestrado e doutorado) em estudos que envolvem a profissão de Relações Públicas. Além de sua formação na área, o que mais lhe motivou a esta escolha?

Rafael Vergili – Além da afinidade natural pelo tema, em decorrência da minha formação, a inquietação se deu principalmente pela observação de um paradoxo: uma profissão promissora – indicada, por exemplo, pela Folha de S. Paulo, em 2008, como uma das 10 mais promissoras profissões da década e pela Revista Época, em 2014, como uma das profissões que não correm o risco de desaparecer – ser “desconhecida” por vários segmentos da sociedade, além de ser preterida por outras áreas de comunicação, especialmente no mercado de comunicação digital, como tento demonstrar em pesquisas realizadas no livro.

Quando se aborda a questão da articulação de redes sociais, a maioria esmagadora das empresas afirma que tem o relacionamento com públicos estratégicos como principal objetivo no ambiente digital. No entanto, assim como a minha pesquisa, institutos renomados indicam que apenas 10%/15% dos contratados para essa área são relações-públicas (teoricamente um profissional preparado para harmonizar expectativas entre públicos e empresas). Entender os motivos para essa baixa inserção no mercado digital e tentar verificar maneiras para melhorar esse cenário para o campo foram fatores que motivaram a pesquisa.

LIVRO “RELAÇÕES PÚBLICAS, MERCADO E REDES SOCIAIS”

  1. No final do ano passado (2014) você lançou o livro Relações Públicas, Mercado e Redes Sociais pela editora Summus, a proposta do livro está alinhada com a sua dissertação de mestrado. Poderia nos contar um pouco sobre o processo que envolve a produção literária em Relações Públicas, as possibilidades e dificuldades?

Rafael Vergili – Como o meu livro teve como base a minha dissertação de mestrado, parte das etapas para a produção do livro foi alterada. Ou seja, eu não precisei iniciar a obra do zero. Na banca de defesa do mestrado, recebi nota 10 com distinção e louvor, além de indicação do trabalho para publicação. Um dos membros da banca, o Prof. Dr. Luiz Alberto de Farias, foi responsável direto pela recomendação à editora, que, por sua vez, pediu para que pareceristas avaliassem o material.

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Livro: “Relações Públicas, Mercado e Redes Sociais” | Escrito por: Rafael Vergili | Prefácio de: Luiz Alberto de Farias | Editora: Summus | Ano: 2014

Poucos meses depois, a editora aprovou a obra e sugeriu algumas mudanças. Prazos foram estipulados e após reuniões, ponderações, diálogos, adaptações, atualizações de pesquisa e revisões, a obra foi publicada. Geralmente segue-se a sequência: avaliação de pareceristas, revisão, convite para autor redigir prefácio, aprovação de capa e definição de data de lançamento.

  1. Qual o objetivo primaz da sua confecção literária e da sua aplicação ao profissional de RP?

Rafael Vergili – A obra teve o objetivo de verificar se a deontologia de Relações Públicas estava em sintonia com as exigências do mercado de trabalho, ou seja, comparar se as premissas, direitos e deveres do profissional de RP – que foram estruturados em um contexto tecnológico muito diferente do atual – ainda são válidos nos dias de hoje, especialmente por meio da apresentação do perfil profissional mais contratado por grandes empresas para a articulação das redes sociais. Além disso, buscou-se averiguar os principais obstáculos que podem impedir a inserção do relações-públicas nesse nicho de mercado e destacar a importância do relacionamento – com seus limites e potencialidades – diante do contexto tecnológico em que estamos inseridos.

INSERÇÃO DO RP NA COMUNICAÇÃO DIGITAL DAS EMPRESAS

  1. Percebe-se um vazio a ser explorado pelos RPs no segmento da comunicação digital. No livro, é destacado que o profissional de Relações Públicas está na 4ª posição entre as profissões que atuam efetivamente na articulação das redes sociais, estando abaixo, portanto, em ordem de posição, dos jornalistas, marqueteiros e publicitários. Poderia compartilhar conosco, quais fatores centrais conduzem a esta baixa participação de mercado e como o profissional poderá se desenvolver para atender a esta tendência e modificar este cenário? 

Rafael Vergili – Quase 80% das 128 grandes empresas entrevistadas destacaram ter o relacionamento com stakeholders (públicos de interesse) como o principal objetivo nas redes sociais. Paradoxalmente, a inserção dos profissionais de Relações Públicas – teoricamente formados para lidar com esse relacionamento – não chega a 15% do total. Jornalistas, profissionais de marketing e publicitários possuem participação muito mais expressiva.

Com o intuito de entender a razão dessa discrepância, realizei, também, uma pesquisa qualitativa: essa baseada em entrevistas em profundidade com representantes de seis grandes agências de Comunicação (CDN Comunicação, Edelman Significa, FSB Comunicações, Grupo Máquina Public Relations, Grupo TV1 Comunicação e Marketing e In Press Porter Novelli) que prestam esse tipo de articulação de redes sociais para grandes empresas.

Obviamente, não existe apenas um fator para a baixa inserção dos profissionais de RP nos departamentos responsáveis por essa articulação de redes. Por exemplo, há a questão da cultura organizacional: como a chefia de grande parte das agências é formada em Jornalismo, há tendência de contratação de jornalistas, até por questão de afinidade e confiança no trabalho. Outro fator para a predominância de jornalistas é a justificativa de que “eles escrevem melhor” e como a comunicação por redes sociais se dá principalmente de forma textual, esse profissional seria priorizado. Entre outras possibilidades, ressalta-se, também, o número de estudantes formados em cada área. Por possuir menos cursos disponíveis, RP já teria uma desvantagem natural nos percentuais apresentados por ter menos alunos formados por ano.

Independentemente dos números, no entanto, gosto de destacar as razões explicitadas pelos entrevistados. É recorrente entre diretores e gerentes dos departamentos dessas agências a ênfase para o fato de que o profissional de Relações Públicas precisa melhorar a qualidade da redação, entrecruzar campos do conhecimento e entender mais sobre tecnologia.

No livro, enquadrei essas exigências em dois grandes conceitos: transdisciplinaridade e pensamento computacional. Ou seja, o relações-públicas precisa ter uma formação mais plural/híbrida, com entrecruzamentos mais sólidos com áreas de tecnologia, permitindo o entendimento mais adequado da estrutura da rede e, por consequência, conseguindo dialogar de modo mais embasado com profissionais de tecnologia para gerar soluções de relacionamento com stakeholders para as empresas em que atua.

  1. A proposta central do livro é questionar a inserção do profissional de Relações Públicas na comunicação digital das empresas. Mesmo sabendo da sua importância, há uma grande curiosidade quanto à ausência da disciplina de articulação de redes sociais na grade curricular do curso de Relações Públicas. O que você poderia comentar sobre esta questão.

Rafael Vergili – Meu projeto atual do doutorado aborda exatamente a relação entre Ensino Superior em Relações Públicas e Tecnologia. Como a pesquisa está em desenvolvimento, ainda não é possível emitir uma opinião conclusiva sobre o tema, mas, pela análise das matrizes curriculares dos melhores cursos de RP do Brasil e do mundo, percebe-se que as universidades nacionais até possuem disciplinas relacionadas às Tecnologias da Informação e Comunicação (entre as dez melhores Instituições de Ensino Superior brasileiras, por exemplo, apenas duas não oferecem nenhuma disciplina obrigatória sobre tecnologia), mas com conteúdo programático e bibliografia incompatíveis com as necessidades exigidas pela sociedade contemporânea – calcada em constantes evoluções tecnológicas –, para fornecer habilidades e competências (literacias digitas) que gerem autonomia no ambiente digital ao estudante após o término de sua Graduação.

O estudo ainda levará em consideração as mudanças nas matrizes curriculares provocadas pelas Diretrizes Curriculares Nacionais do Curso de Relações Públicas (2013), que podem alterar esse cenário, uma vez que alguns artigos do documento propõem a interdisciplinaridade e a preocupação com as tecnologias.

Aparentemente, até então havia uma lacuna na formação do profissional de Relações Públicas no que tange à tecnologia, o que pode – ou não – ser corrigida após a conclusão do processo de adequação das universidades às novas diretrizes curriculares. Pretendo que, quando concluída, a tese de doutorado possa esclarecer se essa lacuna foi preenchida ou que possa indicar um caminho para que isso seja solucionado o mais rápido possível para facilitar a inserção do profissional de Relações Públicas no mercado de trabalho e na academia, ambos cada vez mais atrelados ao contexto tecnológico atual.

ESPAÇO ABERTO

  1. Faça suas considerações. Deixamos este espaço para acrescentar ou compartilhar algo conosco.

Rafael Vergili – Gostaria de agradecer a oportunidade da entrevista e de poder relatar algumas experiências vividas para um público qualificado da área de Comunicação. Espero que algumas respostas possam contribuir para facilitar e incentivar a entrada de novos pesquisadores no ambiente acadêmico. O campo de Relações Públicas precisa de estudos mais aprofundados em diferentes perspectivas e linhas de pesquisa para que seja cada vez mais forte.

Aproveito para parabenizar o Blog pelo trabalho realizado nos últimos anos, uma vez que é uma iniciativa que contribui para o fortalecimento das Relações Públicas no Brasil.

O livro pode ser adquirido nas principais livrarias do Brasil ou no site do Grupo Summus:http://www.gruposummus.com.br/summus/livro//Relações+Públicas,+mercado+e+redes+sociais

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Um pensamento sobre “Diálogo com autor – Rafael Vergili

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