Projetos de extensão nas universidades: muito além do RP que há em você!

Por Michele Boin

Muitos jovens nem sabem, mas a maior parte das universidades costuma ter vários tipos de projetos de extensão disponíveis para seus alunos participarem e assim aprenderem “ultrapassando” os muros dessas instituições: são projetos assistencialistas, de caráter transformador, com a comunidade em geral, com crianças, com animais, dentro e fora das instituições e dentro e fora até do estado em que a universidade está localizada. Tem várias opções e para diferentes perfis.

Eu mesma participei, pela Universidade Metodista de São Paulo, do pré-projeto da Operação Porta do Sol do Projeto Rondon – projeto do Ministério da Defesa, em parceria com outros ministérios e IES (Instituições de Ensino Superior), de caráter transformador, atendendo cidades brasileiras com baixo IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) -, realizada em janeiro deste ano no município de Mogeiro – PB.

Mesmo não podendo viajar com os colegas, devido a contratempos, foi uma experiência muito gratificante, em que tive um pouco mais de contato com esse universo do voluntariado, aprendi muito e conheci pessoas fantásticas de outros campos de estudos. Toda experiência é válida e nos acrescenta muito!

O relações-públicas pode desempenhar um papel determinante nesse tipo de ação, não só como um facilitador na abertura de relacionamentos com a comunidade e pessoas-chave da mesma, bem como no planejamento e condução delas, tendo em vista o seu perfil analítico e estratégico, de bom relacionamento interpessoal, conhecedor de técnicas e ferramentas de comunicação, preparado para lidar com possíveis crises e dificuldades – e de administrá-las -, de grande criatividade e versatilidade, podendo ser muito útil e também ampliando, na prática, os conhecimentos aprendidos em sala de aula.

Afinal, projetos de extensão têm esse objetivo, certo? Pois é, mas garanto que o que se aprende na prática lá vai muito além do estudante e profissional, tocando na parte humana de todos nós. Dizem que é o tal “aprendizado de vida – e para a vida”.

O VRP conversou com alguns participantes de projetos, que contaram um pouquinho da sua experiência e motivações. Para Davi Galli, que participou do Projeto Rondon Regional de São Paulo, na época estudante do 7º semestre do curso de RP na Metodista, a escolha se deu por sempre ter tido “interesse em viver o máximo de experiências diferentes”, e por isto sempre estava atento às oportunidades. Ele considera ter participado em um bom momento, já que ainda não estava executando o TCC (Trabalho de Conclusão de Curso), mas já estava mais maduro.

Já Laureen Dávila estava no 5º semestre do curso de RP, também na Metodista, e considera a participação fundamental para a vida acadêmica: “Já tinha certa bagagem teórica para colocar em prática, além de maturidade e desenvoltura para absorver a experiência e lidar com diferentes situações distantes do meu dia-a-dia pessoal e profissional”.

Ela participou da Operação São Francisco do Projeto Rondon, realizada em janeiro de 2013 em Sergipe, no município de Frei Paulo. “Sempre me interessei por trabalhos voluntários, mas poucas oportunidades ofereciam uma experiência mais profunda, de imersão, e atividades tão próximas e imediatas quanto este projeto. A decisão de participar não foi difícil: era a grande oportunidade de colocar em prática conceitos acadêmicos e, principalmente, de contribuir para comunidades por meio da área que escolhi”, explica.

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Jozy Miranda, da USC (Universidade Sagrado Coração), de Bauru – SP, participa do RP Comunica da própria instituição – o projeto desenvolve diversas ações de Comunicação e Relações Públicas que visam educar as pessoas em relação a reciclagem e a sustentabilidade na cidade de Bauru, e trabalha a comunicação com as cooperativas de recicláveis na cidade.

Ela faz técnico de Enfermagem do Trabalho e é Servidora Pública Estadual, não estuda ou tem formação em Comunicação (apesar de ter pretensões de atuar junto à área), mas compartilhou conosco a sua experiência, tendo em vista que o projeto é de RP. Ela entrou ainda na primeira metade do curso, no 3º semestre, mas conta que isto em nada a prejudicou, pelo contrário, a motivou: “Pelo projeto de extensão, pude colocar em prática o conhecimento teórico que tive nas disciplinas cursadas e ele ampliou minha visão sobre as ações que podem ser desenvolvidas por nós enquanto profissionais. Se soubesse que seria de grande valia, como está sendo, teria entrado antes”.

E finaliza mostrando, mais uma vez, que se surpreendeu: “A coordenadora do projeto fez o convite e fiquei muito interessada. De imediato, o que me chamou a atenção foi a possibilidade de obter horas extracurriculares (atividades complementares à grade curricular do curso), mas, depois, notei que participar do projeto me proporcionaria outros benefícios”.

Mas será que dá mesmo para aprender e vivenciar RP e Comunicação nos projetos? Para tirar essa dúvida de uma vez por todas, nossos entrevistados detalharam a rotina desse mundo:

Davi: “Antes do início do projeto houve o processo seletivo […]. Durante o projeto, cada integrante participava de diversas atividades, que se enquadravam tanto no planejamento quanto no desenvolvimento e avaliação das ações do projeto. Para citar um exemplo, nós criamos um Memorial para o Kantian, um bairro humilde da cidade de Itapeva – SP. O intuito foi apresentar a história do bairro, reforçando sua identidade e integrando os moradores.

Para a realização desta ação, foi necessário planejar os passos, reunir material, coletar fotografias, fazer entrevistas, preparar um dia de inauguração, montar o local, entre outras coisas. Portanto, foi uma experiência multidisciplinar muito enriquecedora […]. Sem dúvidas, a comunicação é parte fundamental de qualquer projeto ou ação bem sucedidos. Houve apresentações em público, elaboração de matéria para o jornal local, explanação sobre o conceito de identidade, entre outras coisas.”

Laureen: “O primeiro passo para participar do Rondon foi montar um projeto de atividades que contemplassem os eixos de cultura, direitos humanos e justiça, educação, saúde, comunicação, meio ambiente e trabalho. […] Optei, então, por pautar meu projeto na Educomunicação, que leva a educação por meio da comunicação […]. Assim, busquei levar à população algumas técnicas para a criação de meios de comunicação, para que eles mesmos pudessem construir espaços e canais de diálogo e expressão entre a comunidade, e até mesmo poder público.

Em conjunto com outros estudantes, realizamos diversas atividades enriquecedoras como oficinas nas áreas de comunicação (fotografia e jornal mural), cultura e lazer (jogos, atividades educativas e palestra sobre preservação cultural e IPHAN), além da produção de documentários sobre a cidade de Frei Paulo e a participação da Universidade Metodista no projeto. Esta só foi uma das vertentes do projeto, pois outros estudantes também participaram, contribuindo de acordo com sua área de atuação.”

Jozy:Planejei a execução de um evento em escolas, mais precisamente em um abrigo para menores, o qual abriga crianças que frequentam escola regular. Executei o evento juntamente com a participação dos outros colegas participantes do projeto. Realizei também uma pesquisa pós-evento para verificar se nosso objetivo geral, que é de criar disseminadores da mensagem sustentável, foi alcançado.” Planejamento de eventos, pesquisa, formulação de conteúdo, execução de eventos e busca de parceiros para projeto foram algumas das atividades de RP desempenhadas por ela.

Sobre a experiência, todos são enfáticos: aprendizado, amadurecimento e conhecimento. “Posso dizer, com certeza, que evolui nos três aspectos: como estudante, por aplicar conceitos de comunicação e ações que visavam empoderar pessoas a ajudá-las a ser melhores; e como profissional, por trabalhar com pessoas de diferentes cursos, personalidades e crenças; mas foi como pessoa que eu ganhei mais! Voltei muito mais humano, e este ponto é daqueles que se sente e não se explica.”, conta Davi. Laureen completa: “Essas atividades desenvolveram, também, o meu senso crítico em relação a como fazemos comunicação e de que maneira eu me insiro neste universo, e como eu desejo/posso contribuir com minha profissão”.

Neste tipo de projeto costuma-se ter contato com outras atividades e profissões que não a cursada pelo voluntário. Muitas pessoas ficam receosas de participar e não saberem lidar com isso, até porque não estudaram para tal e não conhecem profundamente as demais áreas. Mas será que é mesmo esse “bicho de sete cabeças”?

Parte da experiência do voluntariado é sair da sua zona de conforto e conhecer novas realidades. Auxiliei em atividades da área de saúde, meio ambiente e lazer, dando apoio a oficinas, palestras e brincadeiras.”, esclarece Laureen. Para Davi, a experiência foi com atividades na área de pedagogia, administração e saúde: “Foi ótimo aprender coisas novas em outras áreas e observar como profissionais se comportam e, principalmente, como as áreas se integram. Isso tudo é muito positivo para formar profissionais multidisciplinares que compreendem outras áreas e sabem atuar de forma sinérgica”.

Jozy concorda: “O processo de execução de um evento envolve atividades que estão fora de nossa área de atuação, e isso nos leva a entender melhor e conseguir lidar com questões diferentes do seu dia-a-dia. Aprendi sobre questões de logística, financeiro etc. Neste caso, foi muito positivo, pois aprender sobre outras áreas cria um entendimento multidisciplinar que agrega valores tanto na vida profissional quanto pessoal”.

Sobre os prós e contras dessa participação, Davi acredita que só há pontos positivos, pois “conhecer lugares belos com realidades sociais distintas, perceber a gratidão das pessoas, fazer novas amizades, e mesmo dormir no chão, passar o dia trabalhando e mudar plano de última hora são todos pontos que te tornam mais forte e preparado para vida real”.

Laureen “assina embaixo’ e acrescenta: “A experiência, como um todo, é tão enriquecedora, amplia os horizontes e linhas de pensamento, que só tem a acrescentar, tanto na vida pessoal quanto na acadêmica. Entrar em contato com outras realidades é de extrema importância, até para que possamos entender melhor de que maneira nos inserimos em diversos contextos e, consequentemente, como podemos contribuir da maneira mais positiva. Participar deste projeto foi uma das coisas mais fantásticas e modificadoras que já fiz em minha vida!”.

Já Jozy separa: “Os prós são: interagir com estudantes de outras áreas em prol do projeto e também conseguir desenvolver projetos em áreas que não sejam do seu interesse, tais como redes sociais, clipping etc. Os contras, não creio que sejam um problema do projeto, mas sim com os parceiros que os norteiam, pois trabalhar com setor público é muito burocrático.

Bom, com tudo isso vem a questão que “não quer calar”: e para o mercado, participar de um projeto de extensão é positivo ou negativo? Antes as empresas não se atentavam muito a isto; depois passaram a valorizar e até incentivar esta participação – tendo em vista que as organizações começaram a se ver como participantes e colaboradoras responsáveis da sociedade, e isso seria ainda mais positivo para sua imagem -, sendo considerado sempre preferência por essas pessoas com experiências voluntárias; já hoje as pessoas se dividem ao responder esta questão: é claro que não chega a ser algo negativo, mas não é mais tido como certa a contratação de alguém só porque é ou foi um voluntário.

Para Davi tem funcionado: “Acredito que as pessoas que foram voluntárias são vistas de forma diferenciada. Na minha percepção, são pessoas que ‘correm atrás’ de ser algo a mais, de ‘sair da caixa’, e acredito que as empresas pensam assim. Para mim tem sido assim, sempre posso usar isso a meu favor em ocasiões de entrevistas ou dinâmicas”.

“Eu acredito que as empresas constroem um olhar de mais confiança para com quem já foi voluntário. Atividades como esta podem indicar comprometimento, empatia e pró-atividade. Já tive uma porção de comentários positivos de entrevistadores a respeito do voluntariado!”, compartilha Laureen.

Jozy faz planos para o mercado com sua participação: O trabalho voluntário conta pontuação em alguns concursos, e entendo que é visto com um olhar diferente para com quem atua. Eu atuo na área da Saúde, na qual tenho formação, porém, pretendo, após me formar, trabalhar na área da Comunicação em Saúde, e creio que participar do projeto de extensão irá me ajudar e muito neste sentido.”

Bom, mas se tudo é tão positivo assim, porque não vemos por aí tantos estudantes e profissionais participando de projetos de extensão nas instituições? Claro que algumas delas, principalmente as instituições públicas, de âmbito estadual e federal, costumam demonstrar maiores índices de inscritos e participantes em projetos, mas sabemos que a realidade geral não é bem esta, mesmo com muita “luta” por parte de coordenadores junto às universidades.

Jozy analisa o cenário atual: “É devido à falta de disponibilidade, tempo mesmo, pois muitos jovens estudantes trabalham e estudam, e, com isto, falta tempo para cumprir tantas tarefas que lhes são imputadas. Esta geração cada vez mais vem sendo cobrada para metas e resultados nos quais fazem deixar de lado. Outro fator considerável é a questão da divulgação e visibilidade desses projetos. Merece mais divulgação dos resultados e apoio integral a esses alunos, pois eles se doam e querem fazer acontecer. Porém, às vezes, são ‘barrados’ por falta de recursos, apoio etc.”

Participação de Jozy Miranda no projeto RP Comunica da Universidade Sagrado Coração | Foto: USC

Participação de Jozy Miranda no projeto RP Comunica da Universidade Sagrado Coração | Foto: USC

Laureen complementa com outro viés: “Acredito que os alunos não têm consciência de que o mundo inteiro é extensão da sala de aula: o conhecimento ultrapassa qualquer parede ou fronteira. Então, é preciso um pouco de coragem para ‘trocar os livros pelos pés, olhos e coração’, e começar a ‘escrever sua própria história’. Experimentar e vivenciar o mundo por si mesmo é a maneira mais profunda de se autoconhecer e compreender qual seu verdadeiro papel na sociedade.”

Já Davi busca como incentivar a participação: “Acredito que (precisa de) uma divulgação focada nos benefícios que os projetos podem trazer e, principalmente, na experiência extraordinária que o projeto é em si. Porque os benefícios são concretos, isto posso afirmar. Sei também que muitos interessados não podem participar por conta do trabalho, então, se houvesse convênios ou acordos com empresas também seria uma ‘boa’.”

Agora que você já conhece, na teoria, sobre este universo, falta o “empurrãozinho” final, não é mesmo? Qual é o conselho que essa galera dá? “Entre de cabeça! Experimente tudo, conheça o máximo de pessoas, não deixe de fazer nada e tire muitas fotos, porque as memórias são boas – e serão tantas que vale a pena registrar.”, salienta Davi. “Apenas vá! Vivencias como esta podem ser adquiridas em qualquer lugar, fique atento aos editais que sua universidade publica, ONGs que precisam de ajuda, projetos que sobrevivem da dedicação e união de quem está disposto.”, Laureen deixa a dica.

E Jozy, finalizando, relata sua experiência e o que ela lhe trouxe: “Vou falar um pouco sobre minha experiência de ‘embarque nesse mundo’: desenvolvi, juntamente com mais três colegas, um projeto de Sustentabilidade denominado ‘Sustentabilidade e Educação’. Dentro do projeto, no qual realizamos um evento em um abrigo para menores, podemos aplicar uma aula sobre sustentabilidade e reciclagem, e também confeccionamos alguns brinquedos com materiais recicláveis. Havia um déficit de coletores para recicláveis no abrigo. Fizemos contato com empresa de plástico de Bauru,      que doou 18 coletores para a separação correta dos resíduos. Realizamos também um pós-evento, quando verificamos que a mensagem da Sustentabilidade foi absorvida, pois eles deram continuidade aos nossos projetos e guardaram os ensinamentos, tornando-os multiplicadores da mesma.

Foi uma experiência ímpar, tanto pessoal quanto profissional. Desse evento resultou um estudo de caso que levamos para INTERCOM este ano na cidade de Uberlândia – MG. Na área profissional eu sou servidora pública estadual, e, devido a minha experiência no projeto de extensão, fui convidada para ser presidente da Comissão de Resíduos do Instituto em que atuo. Está sendo muito agregador, pois o que aprendo fora posso trazer e aplicar aqui também.

Diante do exposto, digo que é muito positivo e agregador nas questões de valores. Esse ‘mundo de extensão’ é fascinante, faz expandir sua visão e olhar ao próximo, como no sentido real da palavra. O profissional de relações públicas deve praticar estas relações no sentido literal da palavra. Entretanto, o que chama atenção e é de fundamental importância para o futuro profissional de Relações Públicas, se pode dizer que se trata de um objetivo de caráter social. Este profissional necessita trabalhar as relações, trazendo um novo conceito de humanidade, de alteridade e doação.

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E aí, que tal conferir os projetos de extensão que estão “rolando” e correr para se inscrever? Depois dessa não tem mais como você dizer não, afinal, você pode e deve participar! Aproveite tudo o que as universidades te oferecem e você vai ver que pode ir muito mais além do que sequer imaginava.

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