EnegreceR[P] | Quanto mais tentam me silenciar, mais alto eu tenho que falar

asindayleO EnegreceR[P] de hoje é com a Asindayle Apangesy. Ela, que tem 21 anos, é estudante de RP na Universidade Metodista de São Paulo e trabalha com Relacionamento e Redes Sociais, conta suas experiências e percepções do negro na universidade, no mercado de trabalho e na mídia enquanto mulher negra. Acompanhe:

Segundo a pesquisa Retrato dos Negros no Brasil feita pela Rede Angola, nos últimos 10 anos o acesso de negros à universidade cresceu 230%. Apesar do número positivo, apenas 26 entre 100 universitários são negros. Como você observa essa disparidade no ambiente acadêmico da Comunicação e das Relações Públicas?

Eu sou cotista na universidade que estudo (Universidade Metodista) e para mim é nítido a falta de pessoas negras nas academias e, principalmente, ocupando espaços. Percebo isto quando eu “conto nos dedos” quantos negros têm na minha sala e quantos ainda são de pele escura, o que, no caso, é zero.

Segundo a pesquisa Os Negros no Trabalho realizada pelo Dieese, apesar de certo aumento de escolaridade, a desigualdade no mercado de trabalho não diminuiu e apresenta outras vertentes como salários incompatíveis para a mesma função entre negros e não negros, o que fica mais evidente quando se trata da mulher negra. Em sua opinião, qual a razão desse comportamento?

Racismo estrutural. Quando se é negado direitos básicos, as barreiras vão se construindo no caminho e vai ficando cada vez mais difícil ultrapassá-las. Mais uma vez fazemos o “teste do pescoço” e em quais lugares os negros estão no mercado de trabalho. Sem perspectiva e oportunidade, a mulher e o homem negro buscam refúgio nos subempregos.

Em sua opinião, como a universidade, as associações e entidades representativas das Relações Públicas se posicionam em relação ao negro no mercado de trabalho? Você conhece alguma ação de apoio ou promoção por parte deles?

A faculdade raramente proporciona o estudo sobre o mito da democracia racial. Não dá abertura para alunos negros falarem em sala de aula. Eu sequer tive um professor negro, por isso nem representatividade há. Na Metodista existe uma área que chama “Núcleo de Arte e Cultura” que organiza vários eventos durante o ano para jovens negros, mas a comunicação é pouca e não atinge todas as pessoas.

Na academia ou no mercado de trabalho você já passou por alguma situação preconceituosa explícita ou não explícita em relação à sua negritude? Pode nos contar sobre?

Na faculdade surgiu o assunto “racismo” na aula. Na sala, com 60 alunos e 5 deles negros, o professor levantou a ideia de desigualdade racial com argumentos sem informação alguma, falas extremamente desonestas. Comecei a me pronunciar e percebi que estava me posicionando sozinha com quase 50 alunos me intimidando sendo encorajados pelo professor. Foi desgastante, humilhante. Cheguei a ouvir que racismo não existia. Desde aquele dia eu percebi que quanto mais tentam me silenciar, mais alto eu tenho que falar.

Sabemos que RP adora debater soluções para uma crise. Quando o assunto em pauta envolve racismo e alguns colegas de categoria afirmam que determinada ação é “vitimismo” ou “mimimi”, como você se sente? Como gostaria de responder a essa afirmação?

São falas sem embasamento algum. Limitar a vitimismo mais de 300 anos de escravidão, a não inserção do negro na sociedade nos deixando marginalizados é a maior injustiça que se possa existir. É fechar os olhos para o mundo sem rever todos seus privilégios. Falta empatia.

Pensando nos avanços dos últimos anos, como você vê o cenário dos negros no mercado e na academia em Comunicação e Relações Públicas nos próximos 10 anos?

Eu vejo o cenário “engatinhando”. Tenho poucas referências de comunicólogos negros que falem sobre racismo na mídia tradicional ou redes sociais. Falta mostrar mais sobre a importância de se comunicar, de ler, de ter outras visões, e isso se começa no Ensino Fundamental. Falta investimento na escola.

Como estudante de RP, quais propostas você faria para colaborar na luta contra o racismo na sociedade?

Eu acredito que temos uma luta diária e que cada indivíduo pode lutar do seu jeito. Seja na faculdade com núcleos, seja na escola, no trabalho, na mesa do bar, palestras…
Eu tenho comigo que conscientização no ambiente de trabalho é importante: conversar, mostrar novas ideias, colaborar com a representatividade optando por negros em ativações, em propagandas etc. E ler é muito importante, filtrar informação para que vire conhecimento.

Qual sua opinião sobre o sistema de cotas raciais para ingresso na universidade e concursos públicos?

As pessoas se concentram na ideia de que racismo diz respeito somente a ofensas e injúrias e não percebem que é muito mais que isto: se trata de um sistema de opressão que privilegia um grupo racial enquanto exclui outro.

Cota tem objetivo de diminuir a distância, no caso a universidade, para educação superior.
E acredito que cota não diz respeito à capacidade, pois capacidade sabemos que temos; cota diz respeito às oportunidades. São elas que não são as mesmas.

Qual a sua opinião sobre como a grande mídia retrata o negro?

Positivamente falando, acho que falta muito ainda para ser considerada uma mídia diversificada. A mídia influencia muito no consciente das pessoas, vemos o resultado do não investimento em educação, lazer, necessidades básicas nas periferias, estatísticas do genocídio da população preta, população carcerária, negros sendo retratados somente como empregados e seguranças nas novelas e isso são exemplos que cercam a grande mídia.

Ainda não é suficiente, queremos mais que isso, e podemos mais. Djamila Ribeiro disse uma frase em um texto que acho importante: “Basta ligar a TV e achar que está na Dinamarca num país de 52% de população negra. Cadê a surpresa em relação a isso?”.

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