EnegreceR[P] | Preta e Acadêmica, por Leila Evelyn

leilaA presença negra é historicamente negada no meio acadêmico. Por séculos o negro viu “de fora” o desenvolvimento cientifico do país; hoje, com atuais sistemas inclusivos como cotas em faculdades e sistemas afirmativos negros, a inserção deste mesmo negro tornou-se evidente, porém não razoável.

Costumo imaginar a faculdade como um tatame, onde eu sou a lutadora em desvantagem buscando a revanche com conhecimento e conquistando aliados. Sou negra, periférica, vim de escolas públicas de ensino precário e salas superlotadas, o que dificultava a excelência de professores em sua tentativa fadada em passar conhecimento. Tenho colegas da época de escola que, infelizmente, não podem desfrutar do privilégio de um bom Ensino Superior. Posso afirmar, com certeza, que o incentivo veio da minha família, os livros e o RAP.

É bem comum ser desafiada intelectualmente no âmbito educacional: as expectativas que têm quanto a mim, como negra, são, obviamente, inferiores. Causo uma clara surpresa quando digo algo que pareça “inteligente demais”. Confesso também sentir uma pressão psicológica pessoal para não errar; é como se cada erro pesasse por três, eu preciso ser três vezes melhor, preciso mostrar que sou capaz de exceder expectativas.

Dói muito pensar que a faculdade não é pra você, que ali não é seu lugar. Sinto falta de estudantes e professores como eu, com demandas parecidas, que possam entender minha dor e ajudar a seguir quando a vontade é ceder. Segundo o IPEA (2013), somos hoje menos de 11% de estudantes no Ensino Superior e, como não obstante, 1% dos professores universitários no Brasil são negros: isto assusta e revolta.

Diferentemente do que é propagado pelo senso comum, não só de cotas vive o povo negro. Trata-se de uma luta histórica em prol da ocupação de espaços, uma forma do negro adentrar o Ensino Superior, ter a oportunidade de fazer parte de um sistema educacional que outrora era somente possível a uma classe privilegiada branca. Sistema este que, hoje, permite a mim e a outros fazer parte do Terceiro Grau educacional, um balbucio à dignidade de meus ancestrais, que não tiveram a mesma prerrogativa.

Sou militante convicta e idealista, não aceito que o sistema seja como é. Sou a preta cismada, que problematiza e escuta diariamente que racismo não é isso ou aquilo: hora ou outra escuto insinuações sobre vitimismo. Sou uma estudante de Relações Públicas que acredita que o público merece mais do que ser tratado de forma estratégica, que vê sentimentos e que trata da imagem de forma sincera, buscando adequar a verdadeiras demandas sociais. Hoje, venho alcançando meus primeiros objetivos: sou coordenadora de projetos filantrópicos junto ao movimento “Ainda existe amor em SP” e idealizadora do projeto “AFROntará“, que vem crescendo e passando da venda de turbantes para ocupações na própria academia, um verdadeiro ato de libertação e conscientização.

Acho que essa será uma luta infinita e as vitórias que conquistamos nos permite imaginar novas liberdades. Acredito que cada geração vai criar novos significados sobre o que é ser livre.” (Angela Davis)

Leila Evelyn dos Santos, 19 anos, estudante do 3º Semestre de Relações Públicas da FAPCOM (Faculdade Paulus de Comunicação).

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