EnegreceR[P] | Não daremos um passo atrás na cobrança dessa fatura

josieNosso papo no EnegreceR[P] de hoje é com Josie Sodi, de Salvador/BA. Graduada em Relações Públicas pela Universidade do Estado da Bahia (UNEB) e atualmente cursando Direito na Universidade Federal da Bahia (UFBA). É feminista e militante do movimento negro, participa de articulações nacionais focadas na causa negra feminista, além de atuar nas redes sociais e comunidades.

Segundo a pesquisa Retrato dos Negros no Brasil feita pela Rede Angola, nos últimos 10 anos o acesso de negros à universidade cresceu 230%. Apesar do número positivo, apenas 26 entre 100 universitários são negros. Como você observa essa disparidade no ambiente acadêmico da Comunicação e das Relações Públicas?

A realidade, hoje, de fato é bem diferente da que encontrei ao ingressar na UNEB em 2004. Há mais negras e negros na universidade e as pessoas já entram com outro pensamento, outras posturas, plenamente conscientes de seus direitos, deveres e objetivos – e isso é extremamente positivo. Por outro lado, se comparado ao quantitativo de brancos, ainda somos franca minoria, tanto no quadro discente quanto no docente. E esse abismo se reflete no grau e na dimensão das discussões sobre questões raciais na universidade, com consequências desastrosas. Sem o olhar e o posicionamento do sujeito ativo da causa, fica difícil pensar ações que, de fato, contemplem satisfatoriamente as demandas.

Segundo a pesquisa “Os Negros no Trabalho” realizada pelo Dieese, apesar de certo aumento de escolaridade, a desigualdade no mercado de trabalho não diminuiu e apresenta outras vertentes como salários incompatíveis para a mesma função entre negros e não negros, o que fica mais evidente quando se trata da mulher negra. Em sua opinião, qual a razão desse comportamento?

A meu ver, a raiz de tudo está no racismo institucional, fruto de uma sociedade que ainda não se livrou das “amarras” do pensamento escravocrata, em que o negro era encarado como inferior, sendo, inclusive, negada sua condição humana. É duro admitir, mas o Brasil É, SIM, um país racista, que ainda insiste em tratar a população negra como uma subcategoria, dificultando, e por vezes inviabilizando, o fornecimento das mesmas condições dadas a outrem. É sintomática a exclusão social a que nós, negros, somos submetidos e, nos últimos anos, tornou-se incontestável o recrudescimento de manifestações racistas em diversos meios. Então, para cada negro que sobressai, para cada negra que alcança um patamar outrora inimaginável para os seus iguais, há centenas, milhares, que são empurrados para a informalidade, estocados nas mais baixas camadas sociais, tendo direitos e oportunidades negados e, lamentavelmente, acabam sendo tragados pela marginalidade. E mesmo quando conseguem fugir dessa ciranda de horrores, continuam sendo mal remunerados e preteridos em seleções e cargos de destaque. Justamente por isso, por não haver isonomia de fato, é que o discurso da meritocracia é tão falacioso.

Em sua opinião, como a universidade, as associações e entidades representativas das Relações Públicas se posicionam em relação ao negro no mercado de trabalho? Você conhece alguma ação de apoio ou promoção por parte deles?

Não se posicionam. Infelizmente, a questão negra é invisível para Conselhos e Associações de classe, não sendo diferente na grande área da Comunicação Social e, consequentemente, das Relações Públicas. Nossas demandas só são pontuadas, eventualmente, em algum estudo de caso e/ou discussão sobre representatividade nos mass media (impossível fugir da pergunta “quantos negros temos na TV?”) e só. Infelizmente, a ideia de meritocracia ecoa entre quem deveria lançar um olhar cuidadoso sobre a equidade racial, levando em consideração o histórico e a composição da sociedade. Desconheço qualquer tipo de ação e/ou movimento com essa temática por parte de “nossos representantes” e não vejo perspectiva de mudança desse posicionamento.

Na academia ou no mercado de trabalho você já passou por alguma situação preconceituosa explícita ou não explícita em relação à sua negritude? Pode nos contar sobre?

Claro que sim! Risos. Na academia, um professor perguntou se os cotistas tinham sentido dificuldades para acompanhar a disciplina e respondi questionando-o se ele havia percebido alguma diferença entre as categorias de alunos. Diante da negativa, quis saber o motivo da pergunta inicial. Ele justificou como uma preocupação com a evolução acadêmica, mas para mim a ideia por trás deste tipo de pergunta é de que, para muitos, negros cotistas são intelectualmente inferiores. Já no mercado de trabalho, inúmeras vezes vi meu currículo ser preterido por outro similar, apenas porque o concorrente tinha um tom de pele mais claro. As desculpas costumam variar, mas, como não é mais possível exigir abertamente “boa aparência”, as empresas dizem que seu perfil não coincide com o que a empresa está buscando no momento. Há ainda situações em que você está chefiando a equipe de produção ou coproduzindo um evento e sempre te tratam como auxiliar/assistente e querem falar com o “chefe”, já que, na cabeça de gente preconceituosa, negra comandando não existe, né?

Sabemos que RP adora debater soluções para uma crise. Quando o assunto em pauta envolve racismo e alguns colegas de categoria afirmam que determinada ação é “vitimismo” ou “mimimi”, como você se sente? Como gostaria de responder a essa afirmação?

Eu fico revoltada, é muita desonestidade. Racismo é um tipo de situação que militantes precisam lidar diariamente, seja por sofrer na pele, seja por tomar conhecimento de casos de outras pessoas, e é muito duro ver alguém minimizar o grito de sua dor, dizer que você quer “ibope” ou privilégios. A ideia de democracia racial é tão hipocritamente enraizada na mente das pessoas que, quando exigimos reparação e igualdade de direitos, afirmam que estamos “promovendo o racismo” e “queremos dividir a nação”. Negro promover o racismo? Como? Racismo é mais que discriminação racial, é uma estrutura de poder! Que poder temos para isto? E a nação já é dividida desde a invasão portuguesa em 1500, com os negros sempre em posição inferior, desvantajosa. A quem insiste nessa cantilena, apenas afirmo que não daremos um passo atrás na cobrança dessa fatura, o Brasil nos deve muito e as cotas são apenas o começo.

Pensando nos avanços dos últimos anos, como você vê o cenário dos negros no mercado e na Academia em Comunicação e Relações Públicas nos próximos 10 anos?

Eu espero que melhore, porque ainda está complicado. Acredito que, com o advento dessa nova classe média e com a abertura das universidades por meio das ações afirmativas, consigamos ocupar o nosso lugar de direito, que nos foi negado durante séculos. Urgem mais negros na academia para, como bem diz a banda Simples Rap’ortagem na música Quadro Negro, que tenhamos “mais força para se lutar por um novo dia”. Precisamos de mais médicos, advogados, pesquisadores, doutores, cientistas, jornalistas, comunicadores… Enfim, precisamos de mais representatividade. A forma de se fazer comunicação precisa mudar. É inadmissível que ainda se verifique tantos absurdos em produções editoriais e peças publicitárias. Mais do que consumir, precisamos passar a gerar conteúdo, pautar ao invés de sermos pautados e fazer soar a nossa voz onde só se ouve silêncio ou deboche. Apesar de tudo, sou positivista e acredito em melhorias nesse quadro.

Você tem profissionais negros do mercado ou da Academia de Comunicação e de Relações Públicas que admira? Quais e por quê?

Na academia minha referência é Zilda Paim. A forma como ela apresentou as relações públicas e “desenhou” os caminhos que poderíamos seguir fez com que eu me identificasse bastante com o curso. O fato de ser uma mulher negra e a trajetória que seguiu até chegar à docência, sem dúvida, contribuiu para que eu acreditasse que, sim, seria possível vencer também. No mercado, quem me inspirou e, de certa forma, norteou meu caminho foi a RP da UNEB, Josenildes Oliveira. Era o meu primeiro contato profissional com a área e começar na Assessoria de Comunicação da própria Universidade foi um divisor de águas: ali eu vi como as coisas funcionavam na vida real e como ter jogo de cintura para sobreviver nessa arena. São duas mulheres maravilhosas, surreais.

Como profissional de RP, quais propostas você faria para colaborar na luta contra o racismo na sociedade?

Eu prefiro agir. Atuo na “Cia Beluna de Arte“, que desenvolve diversos projetos tendo como público-alvo crianças e adolescentes em situação de risco, além de dispor de uma biblioteca comunitária na sede, localizada no bairro da Baixa do Fiscal, em Salvador/BA. Além disso, desenvolvemos um projeto chamado “Leituras Pretas“, cujo objetivo é promover a literatura afrodescendente aliada ao teatro em espaços diversos. Com ele, já homenageamos autores como José Carlos Limeira, Castro Alves, Maria Firmina dos Reis, Mãe Stella de Oxóssi, Vanda Machado, Abdias do Nascimento, dentre outros.

A partir da leitura dramática, propomos o resgate histórico e o reconhecimento de uma literatura por vezes ignorada e/ou esquecida, valorizando a cultura negra. É uma forma de atuarmos em prol da descolonização do pensamento, ajudando a mostrar ao mundo que, sim, a cultura negra existe, persiste e insiste. Com este viés, sempre me mantenho à disposição de propostas de indivíduos e coletivos que convidam para auxiliar em projetos voltados à luta contra o racismo, além de contribuir em ações de redes. É um trabalho de “formiguinha”, mas que tem dado resultados satisfatórios.

Qual sua opinião sobre o sistema de cotas raciais para ingresso na universidade e concursos públicos?

As políticas de ações afirmativas são extremamente necessárias. Em um mundo ideal, negros e brancos teriam oportunidades iguais no ensino e no mercado, mas, infelizmente, em sociedades racistas como a brasileira, ser negro torna tudo mais difícil. Não que o negro não seja capaz, mas, como já citei acima, o racismo institucional impede que ele tenha as mesmas condições que os demais. Então, devido a estes séculos de exclusão – iniciados quando o primeiro negro foi capturado em África e traficado para o Brasil, onde foi destituído de todo e qualquer vestígio de dignidade humana -, é fundamental que haja uma reparação do Estado para que as diferenças abissais sejam anuladas e que o país possa, de fato, ser uma democracia racial. Não há outros meios de corrigir tamanha disparidade e o povo negro não quer mais esperar e só receber “migalhas”. Ajudamos a construir esse país e ele precisa nos recompensar, nos dar condições igualitárias e tratar como cidadãos, efetivando o que está previsto na Constituição.

Qual a sua opinião sobre como a grande mídia retrata o negro?

Veja bem… De que mídia estamos falando? A que afirma que “bandido bom é bandido morto” quando refere-se ao negro assaltante, mas “santifica” brancos que dirigem embriagados, atropelam e matam trabalhadores? A que pede a execução sumária do favelado que atua nas bocas de fumo, mas blinda donos de helicópteros cheios de pasta-base de cocaína? A que expõe e pede condenações expressas em programas de TV para negros suspeitos de crime, mas dá o benefício da dúvida ao comprovadamente corrupto de colarinho branco? A que vende para o exterior a imagem da mulher negra como objeto sexual e deifica as brancas, privilegiando-as em concursos de beleza? A que subverte a História em produções televisivas retratando relevantes civilizações negras como se brancas fossem, relegando aos negros meros retratos de escravidão e subserviência? A que não hesita em colocar apenas o percentual mínimo de negros exigido por Lei em peças publicitárias – e ainda assim, majoritariamente, como coadjuvantes – e/ou reforçando estereótipos negativos? A que insiste em associar elementos culturais e estéticos do negro a coisas feias/ruins, mas que, quando usados por brancos, se torna cool? Bem, se é dessa que falamos, acho que está tudo muito errado por aí. Precisamos de mais representatividade, mas, sobretudo, de mais educação, respeito e menos hipocrisia.

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