EnegreceR[P] | A Academia precisa falar sobre isso

martaseloMeu nome é Marta Quintiliano, tenho mais três irmãos, sou segunda filha de Maria Madalena Quintiliano (empregada doméstica, hoje aposentada) e João Quintiliano (motorista de depósito de construção). Sou de Cidade de Trindade/GO, a 18 km de Goiânia.

Depois de dez anos sem estudar, entrei na Universidade Federal de Goiás, universidade pública, por, além de ser um sonho, também por acreditar que era um direito meu e de muitos outros negros e pobres que muitas vezes não conseguem adentrar nesse universo. Formei no início de 2015 em Relações Públicas. Entrei na UFG pelas cotas da própria Universidade, como Quilombola: pertenço ao Quilombo Urbano Vó Rita. Trabalho na Fundação RTVe (TV UFG) como técnica de OPEC. Além de ser Quilombola, participo do grupo Uneiq (União dos Estudantes Indígenas e Quilombolas), grupos de Negros e Negras da UFG.

Segundo a pesquisa Retrato dos Negros no Brasil feita pela Rede Angola, nos últimos 10 anos o acesso de negros à universidade cresceu 230%. Apesar do número positivo, apenas 26 entre 100 universitários são negros. Como você observa essa disparidade no ambiente acadêmico da Comunicação e das Relações Públicas?

Eu percebo o seguinte: depois das cotas nas federais e institutos, entram vários negros; no entanto, por sermos pobres e não contarmos com apoio financeiro, acabamos desistindo do curso. Todos nós sabemos o quanto é difícil permanecer em um curso, seja ele qual for, ainda mais se for elitizado. Os professores não querem saber se você tem ou não condições de ter o material bibliográfico ou para fazer os estágios. Os cursos, na maioria das vezes, são integrais e, mesmo se não forem, você tem que ficar na universidade para estudar se quiser acompanhar as aulas.

Aqui na Universidade, quando eu entrei, eu pensava que não existiam negros. Professores, pelo menos no meu curso, não existiam, e eu me sentia perdida. Depois fui percebendo que os discentes que são negros não se auto-afirmavam (isso na Comunicação) – e eles estão, de certa forma, corretos, porque quem vai querer sofre racismo gratuito? E também descobri, depois que passei a participar do movimento de estudante Uneiq no ano 2013, que muitos alunos orientados pelos professores de cursinhos daqui de Goiânia se declaravam negros ou indígenas; sendo assim, os discentes das comunidades tradicionais que não tinham o mesmo preparo que os “filhos de papaizinho”, acabavam perdendo a vaga extra (essa vaga é para indígenas e quilombolas). Antes as pessoas não precisavam de muitos documentos para adentrar à universidade pelo programa UFG Inclui, sendo assim, alguns discentes de pele branca fraudavam o sistema, porém, os que nós descobrimos, denunciamos e foram excluídos da UFG. Se em uma sala com 60 alunos no ano que eu iniciei o curso a única negra era eu, eu vejo que o curso de Comunicação ainda é muito excludente.

Segundo a pesquisa Os Negros no Trabalho realizada pelo Dieese, apesar de certo aumento de escolaridade, a desigualdade no mercado de trabalho não diminuiu e apresenta outras vertentes como salários incompatíveis para a mesma função entre negros e não negros, o que fica mais evidente quando se trata da mulher negra. Em sua opinião, qual a razão desse comportamento?

Nós vivemos em um país machista e racista, sendo assim, a mulher ainda continua ganhado pouco, e se for negra, menos ainda, às vezes desempenhado a mesma função que os homens. Eu sou exemplo disso: me formei, daí veio à minha mente “o que vou fazer agora?”. O mercado goiano não abre espaço para o profissional negro/a, o que nos resta são os subempregos. É só abrir os jornais e ler as vagas de empregos, é perceptível que eles querem pessoas brancas. Eu não fiz entrevista porque eu fui a única candidata a subir “na balança para ser pesada”. É um absurdo!

Em sua opinião, como a universidade, as associações e entidades representativas das Relações Públicas se posicionam em relação ao negro no mercado de trabalho? Você conhece alguma ação de apoio ou promoção por parte deles?

Não tem posição! Eu, pelo menos, nunca fui chamada para pensar sobre o assunto e não me lembro de ter lido algo sobre. Minha monografia foi sobre questões raciais e não tive apoio dos professores e isto me deixou chateada. RP só pensa em lucro? Eu penso que não. Quando descobri a parte comunitária das Relações Públicas eu me apaixonei. A Academia precisa falar sobre isso. Não adianta incluir o negro no espaço acadêmico se a sociedade não está preparada para recebê-lo.

Na Acadêmia ou no mercado de trabalho você já passou por alguma situação preconceituosa explícita ou não explícita em relação à sua negritude? Pode nos contar sobre?

Sim, inúmeras vezes. No primeiro dia no Restaurante Universitário, eu fui sentar em uma mesa e ninguém sentou perto de mim e fiquei sem entender (na verdade eu sabia que era por causa da minha cor). Outra situação foi a seguinte: um professor disse na sala, com a sala lotada, que negras eram mais “quentes na cama”. Tentei denunciar, só que não deu em nada porque as pessoas a quem fui fazer a denúncia disseram que “a corda ia arrebentar do lado mais fraco”. De fato o tal professor, em uma de suas provas, me reprovou.

Uma coisa que acontece com frequência é eu ir aos salões de dança e ninguém dançar comigo. As minhas amigas brancas, todas elas, dançam, menos eu. Daí elas dizem que é “coisa da minha cabeça”. Também acontece quando vou aos restaurantes que são considerados elitizados com amigos brancos e os garçons me ignoram. Uma situação que me deixou “puta” foi quando estava em uma exposição e lá tinha várias pinturas de meninos negros, daí as pessoas brancas ficavam tirando foto minha como se eu fosse parte da exposição.

Quando pequena odiava minha cor porque nunca via pessoas negras na TV e na escola raramente tinha professoras negras, e lembro que aos cinco anos fui dançar quadrilha com um menino branco, daí, no dia da apresentação, ele não foi porque disse que eu era negra e que ele havia ensaiado porque a professora havia pressionado. São tantas as situações.

Sabemos que RP adora debater soluções para uma crise. Quando o assunto em pauta envolve racismo e alguns colegas de categoria afirmam que determinada ação é “vitimismo” ou “mimimi”, como você se sente? Como gostaria de responder a essa afirmação?

Eu aprendi uma coisa: um branco nunca vai saber o que é ser um negro nesse país, por mais que ele esforce para entender. Sabe por quê? Porque é sentimento, é vivência. O que eles não previam era que o “mito da democracia racial” não iria perdurar por muito tempo. Não é “mimimi” e jamais será, apenas cansamos de aceitar tudo calados. O dia que tiver negros na grande mídia representando os 51% da população e no mercado de trabalho tiver mais negros em cargos de chefia ganhando o mesmo que um homem branco ganha, daí eu começarei a pensar que estamos “chorando de barriga cheia”.

Pensando nos avanços dos últimos anos, como você vê o cenário dos negros no mercado e na Academia em Comunicação e Relações Públicas nos próximos 10 anos?

Espero que cresça e que a sociedade esteja mais evoluída e educada para receber os negros comunicadores que cansaram de servir “cafézinho” e agora querem ser servidos. É necessário pensar de forma integrada para que não tenhamos muitos negros formados, porém fora do mercado de trabalho.

Você tem profissionais negros do mercado ou da Academia de Comunicação e de Relações Públicas que admira? Quais e porquê?

Na TV Brasil tem a Jornalista e apresentadora Luciana Barreto, do Jornal que é transmitido às 12h. Admiro muito sua história de vida. Na UFG tem a professora Luciene Dias, que sempre luta para a inclusão do negro nos espaços acadêmicos e no mercado de trabalho.

O Lázaro Ramos apresenta um programa chamado “Espelho” que é fantástico, ele só entrevista pessoas negras, é bem bacana. Agora RP eu desconheço.

Como profissional de RP, quais propostas você faria para colaborar na luta contra o racismo na sociedade?

Eu aprendi que uma coisa quem vai mudar esse país são as crianças, então eu promoveria debates nas escolas, campanhas nos bairros periféricos com outdoors com representantes negros, parceria com a Secretaria de Igualdade Racial para promover rodas de conversas, exposições e documentários com a temática. Essas crianças, com toda certeza, iriam questionar o sistema excludente. Também uma ouvidoria mais eficaz que tenha negros dos outro lado para atender as denúncias ou pessoas qualificadas, programas de TV com a temática…

Qual sua opinião sobre o sistema de cotas raciais para ingresso na universidade e concursos públicos?

Eu sou uma defensora das cotas. Sem elas talvez eu estaria até hoje limpando o chão das madames. As cotas são necessárias. Eu acredito que elas não vão durar por muito tempo, mas que dure o tempo necessário para que as desigualdades sejam amenizadas e que nós, negros, possamos ter esperança de um futuro melhor com qualidade de vida.

Qual a sua opinião sobre como a grande mídia retrata o negro?

Os homens como bandidos e as mulheres como objeto sexual ou empregadas domesticas.

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