EnegreceR[P] | O dia que descobri que eu era cheio de privilégios que eu chamava de direitos

Por Marcelo Teixeira 

marceloEu sou negro, mas nunca tive muita noção do que realmente é ser negro no país que se diz o mais tolerante do mundo, mas onde 77% das pessoas assassinadas são negras. Meu pai, por ter vindo de uma infância bem humilde, fez tudo o que pode para oferecer aos filhos dele uma vida típica de classe média. Algo que sou muito grato, pois sei que fez por amar incondicionalmente os seus filhos. Mas este amor, infelizmente, me fez crescer como um típico adolescente de classe média, o que, por muito tempo, me impediu de encarar a dura realidade: a minha vida era muito distinta da dos milhares de negros brasileiros – leia-se cheia de privilégios.

O pior de tudo é que, consequentemente, recebi uma educação típica de classe média, o que, por muito tempo, me tornou apático aos problemas dos milhares de negros no Brasil. Eu adorava bater no peito e dizer que eu era o cara, pois era negro, mas falava três idiomas, tinha estudado fora do país, trabalhava em grandes empresas em cargos bacanas, era do segmento especial do banco, dirigia carro do ano… Reproduzia sem nem raciocinar o discurso do opressor e falava que meus irmãos de raça se vitimizavam, faziam mimimi etc.

Um dia reparei como era cômodo o meu papel: ser um negro de classe média, com acesso às oportunidades era fácil, extremamente descomplicado, mas e se eu fosse um negro na periferia, filho de doméstica com auxiliar de pedreiro, tendo que aos 16 anos trabalhar para ajudar em casa, realidade de 90% dos negros no país? Será que eu teria conquistado tudo que eu batia no peito para dizer que conquistei?

A minha visão começou a mudar quando caiu a ficha que a maior parte da população no país era negra. Passei então a reparar nas empresas onde trabalhava quantos negros tinham, nos ‘lugares descolados’ típicos de classe média que eu adorava ir, e a resposta sempre era a mesma: pouquíssimos, isso quando eu não era o único. Isso me fez pesquisar mais sobre a realidade do negro no Brasil. Descobri que a maioria estava na escola pública, logo, não tinha na época acesso à universidade, estava trabalhando cedo em qualquer posição, pois precisava ajudar a compor a renda da sua família. Foi quando descobri que eu não era o cara como eu pensava ser, eu era ainda o garoto mimado que teve vários privilégios e se orgulhava deles e ainda esfregava na cara de quem era desprivilegiado. Quando me lembro disto sempre me pergunto: “no que eu pensava antes de começar a pensar?”.

É engraçado que muitas vezes eu ouvi coisas do tipo “você nem parece negro” ou “você não se veste como os negros”. O mais divertido é que acho que as pessoas que falaram isto, no fundo, devem achar que estavam me elogiando, quando na verdade acho uma das coisas mais ofensivas do mundo, e me faz questionar: “será que se eu me vestisse como ou parecesse negro teria conseguido abrir as portas corretas e ainda poder esfregar minhas conquistas na cara dos outros?”.

Ironicamente, acho que a vida tratou de dar a resposta para esta indagação. Como negro eu ostento o título de nunca ter sido enquadrado por um policial, algo que para muitos parece bizarro, mas que para diversos negros, infelizmente, é realidade toda semana ter que provar que é honesto. Enfim, em um domingo fui correndo à padaria, fui a pé, de chinelo, regata e bermuda (acho que o fato dela ser Hollister, marca favorita dos “rolezinhos”, ajudou, mas abafa rs). Encontrei um amigo branco e começamos a conversar. Nisso, passou uma viatura policial que, ao se aproximar de nós, diminuiu a velocidade que já era lenta. Homens mal-encarados nos olhavam e tentavam decifrar nossa conversa e linguagem corporal a fim de perceber se era uma conversa amigável ou talvez uma tentativa de crime. Foi tão bizarro que meu colega se sentiu constrangido, eu me senti por ser brasileiro, por ter desprezado um dia meus irmãos que passam por isto quase semanalmente, e por fim me senti mais constrangido por um dos policiais, fazendo o papel de mocinho branco contra o delinquente negro, ser negro também.

Tudo isso me fez refletir que sim, o Brasil é um país que precisa trabalhar muito ainda a questão da diversidade, e a racial é uma delas. Uma coisa é real por aqui: se você não é homem, branco, heterossexual e cristão, a sua vida tende a ser um pouco mais complicada do que nos comerciais de margarina. Prova disto são as inúmeras pesquisas que sempre ilustram capas de jornais dizendo que negros, mulheres, gays etc ganham até x% a menos que seus pares. Você realmente ainda não acha que temos um problema?

Esta minha trajetória e este teste que me fez ver que, apesar dos negros serem a maior parte da população, eles ainda não estão em quantidade representativa em importantes setores da economia, e isto é muito grave, e isso sim tornam essenciais as cotas. Talvez você esteja pensando: “mas o cotista não tem o preparo suficiente e será um mau profissional”. Aí te respondo que, segundo dados da Unicamp (confira aqui), o desempenho dos cotistas é melhor do que dos não cotistas. Talvez você pense: “mas não é justo ele entrar com uma nota menor que a minha por conta de cota”. Mas é justo esse cara não ter tido acesso às mesmas oportunidades que você teve na formação de base por conta do espolio da escravatura?

Quando falamos de cotas, sempre gosto de usar os Estados Unidos como exemplo, pois, sim, nós brasileiros pagamos um pau imenso para os herdeiros do tio Sam: as universidades americanas usam desde 1970 políticas de cotas, isto permitiu não só inserir milhares de negros no Ensino Superior, mas, pouco a pouco, inseri-los em posições tipicamente brancas (incrível que até nisso estamos 40 anos atrás dos americanos). Vamos analisar a realidade deles hoje? Eles elegeram o primeiro presidente negro de sua história (e este sim está começando uma verdadeira revolução lá com #LoveWins #Change #Hope #RevolutionOfLove), a mulher mais poderosa da mídia americana é Oprah Winfrey, uma negra, seguida por Ellen Degeneres, assumidamente gay (#diversidade). Não seria legal se o Brasil pudesse viver um momento como o que os Estados Unidos vivem? E não seria ainda mais legal se percebêssemos o que eles também perceberam antes de nós: que algumas coisas que consideramos direitos são na verdade privilégios?

Gostaria de te perguntar: você viu o caso da Maju e da Taís Araújo, você se indignou, usou a hashtag de apoio etc? Mas o que você realmente tem feito para mudar isto? O que nós, como relações-públicas, podemos fazer?

Para fechar, gostaria de lhe convidar a assistir o vídeo abaixo, o mais emocionante da minha vida: Oprah e Jesse Jackson chorando no primeiro discurso do Obama como o primeiro presidente negro dos Estados Unidos. Quem sabe um dia eu e você choremos pelo primeiro presidente negro do Brasil? #RebelHeart #RevolutionOfLove #Change #Hope

Se ainda tiver mais um tempinho, sugiro ver a entrevista da Alexandra Baldeh Loras, consulesa da França em São Paulo, onde ela debate racismo, cotas, sobre a falta de referência negra nos livros de história, na mídia, etc. Acho que vale muito a pena ver, ainda sugiro que depois deste vídeo mais uma vez você se pergunte se não há algo um pouco fora do lugar e se realmente não temos que debater a questão racial.

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