EnegreceR[P] | Eu preciso ser duas vezes melhor do que um branco para ter os mesmos direitos que ele

daiHá momentos em que a verdade deve ser dita:
Ser negro não é fácil;
Ser mulher não é fácil;
Ser pobre não é fácil.
Imagine ser negro, mulher e pobre?
Essa é a minha realidade e de muitas outras pessoas neste país.

Sempre me disseram que o racismo era coisa da minha cabeça, algo inventado pelos negros para se fazerem de vítimas e ocuparem espaços que não têm direito, que qualquer um que estudasse poderia alcançar grandes cargos e posições na sociedade. Ouço isto até hoje. Era difícil entender isso na minha sala na escola, quando apenas as negras eram motivo de chacota pelo “cabelo ruim”, “cabelo de bombril”, como chamavam – e ainda devem chamar. Era difícil entender por que os mais brancos diziam ter nojo de chegar perto dos negros porque eles eram sujos.

Ficou ainda mais difícil entender como eu poderia alcançar os mesmos lugares que os brancos na sociedade se os negros tem menos recursos do que eles na maioria das vezes. Talvez racismo ser coisa da minha cabeça fosse uma forma de me fazer sentir inadequada, em uma sociedade que apresenta de forma escassa qualquer ícone que me represente.

Foi difícil conseguir alugar a primeira casa sozinha. Até ouvi que não dava pra se confiar em uma negra. Foi difícil entrar na faculdade porque eu não tinha como pagar o valor integral. E no meio de tantas entrevistas para uma vaga de bolsa disseram que eu deveria olhar pra mim e me colocar no meu lugar porque como negra eu não tinha perfil para ser universitária.

Depois que finalmente consegui, percebi que eu era a única que não morava em uma boa casa em um bairro badalado da capital. Quer saber do teste do pescoço? Na minha turma da faculdade eu fui a única negra a me formar e, apesar dos desafios e de muita gente duvidar que isto seria possível, com nota máxima na monografia.

Dívida histórica? Para muitos brancos eles já fazem muito por nos deixar dividir a calçada com eles. Uma sociedade em que branco ainda se acha senhor de escravo e acredita que negro ou está ali para servi-lo ou para rouba-lo, em que mulher negra só serve para uma relação sexual sem compromisso e não pra casamento, e homem negro só sai com mulheres brancas pelo tamanho de sua genitália e nada mais. Em que ter um ou dois “amigos” negros é prova de não ser racista.

Eu tive dificuldade de encontrar emprego, não por formação acadêmica ou falta de inglês, mas pelo cabelo e cor da pele. Afinal, um cabelo liso é muito mais “apresentável” e dá a impressão de ser “mais limpo” do que cabelo crespo e armado.

Também não foi fácil chegar a um cargo gerencial em uma empresa de homens brancos. Perdi as contas de quantas vezes fui atender um cliente e este me olhou com cara de espanto e perguntou “mas você é a gerente?”. Comecei no menor cargo e consegui conquistar um espaço lá dentro. Trabalhei incansavelmente durante meses a fio, acordando cedo, dormindo tarde, usando todos os recursos, criando novas estratégias, abrindo mercados, sendo líder no resultado de retorno das ações propostas durante um ano inteiro… Até alcancei a gerência, mas eles deslegitimam minha posição. Uma branca, algum tempo depois, alcançou a mesma posição que eu na empresa e, no caso dela, foi esforço, ela deu duro, trabalhou nos fins de semana, apresentou resultados e mereceu chegar lá. No meu caso, dizem que foi porque eu tive relações sexuais com meus clientes, como uma boa puta negra. Só por isto eu cheguei lá.

Quando alguém diz que você “até que se veste bem pra uma negra” tem algo errado. Quando seus colegas de trabalho dizem que as cotas para negros já foram preenchidas na empresa (2 negros entre 10 pessoas nesse cargo) alguma coisa está errada. Se você não é negro não entende isso. Essas palavras não significam nada para você, pois não há um contexto. Sua realidade é muito diferente da minha, por isto estas palavras te parecem surreais, inventadas, vitimismo, mimimi.

Competência, inteligência, capacitações, determinação – nada disto importa ou é suficiente quando você é negro. Eu até cheguei lá. Foi suado, foi sofrido, foi dolorido. Tenho marcas em mim que me fazem chorar ao vê-las e perceber que me julgam não ser digna de nada apenas pela quantidade de melanina que tenho na pele.

Eu preciso ser uma leoa porque preciso me defender. Porque a vida não é fácil pra mim apenas pelo fato de ter nascido negra de olhos castanhos e lábios maiores do que os das mulheres brancas. Porque chegaram até mesmo a usar a ciência – a eugenia, mais conhecida como ciência do preconceito – para dizer que sou inferior aos brancos, que posso trazer problemas genéticos caso me misture com eles. Que sou causadora de doenças e males psicológicos e por isto merecia ser exterminada da sociedade. Sim, foi por esse tipo de coisa que muitos como eu passaram e eu ainda passo com os racistas enrustidos. Eu preciso ser duas vezes melhor do que um branco para ter os mesmos direitos que ele. Não posso falhar.

A sociedade pode ter me dado menos oportunidades apenas pelo fato de eu ser negra: formação básica inferior, oportunidades inferiores… Mas minha força nunca será. Não posso me calar diante disso. Quanto mais tentarem me calar, mais alto eu vou falar!

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Um pensamento sobre “EnegreceR[P] | Eu preciso ser duas vezes melhor do que um branco para ter os mesmos direitos que ele

  1. Um texto coerente e realista. Tive a honra de conheça-la pessoalmente, de trabalhar contigo e posso afirmar com toda a certeza que em todos os momentos que pensou em desistir, em todas as noites que chorou em silêncio, em todos esses momentos você se fortaleceu. Hoje, lendo esse texto, percebo o quanto você cresceu como pessoa e que se continuar com a mesma fibra crescerá ainda mais. Eles podem te julgar, mas não sabem pelo que já passou para chegar até aqui. Cara feia, definitivamente, não assusta. Parabéns, Daiane.

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