Bebendo de outras fontes – Débora Zanini

Por Taís Oliveira

Já deu para reparar que não existem divisões e nem limites entre áreas do conhecimento e técnica num contexto tão rápido, conectado e democrático (no sentido de que ninguém mais é detentor de sabedorias inalcançáveis), né? Na verdade essa é uma filosofia que sempre existiu aqui no VRP, não por acaso nosso mote é “generalista especialista como um profissional de RP” (como um profissional de RP deve / deveria ser).

Tenho ciência que algumas pessoas consideram essa “exigência” de um profissional que sabe de muitas coisas algo ruim, pois pode acarretar em um profissional que sabe muito pouco (paradoxo). Mas como quase tudo na vida, isso também é relativo. Eu, particularmente, sou defensora do “muito além das técnicas” e da máxima que nosso principal objeto é públicos, ou seja, pessoas.  E pessoas são complexas e toda forma de entender suas particularidades são muito bem-vindas.

Pensando nesses pontos, iniciamos hoje uma série no GT de Mercado entitulado “Bebendo de outras fontes”, da qual vamos trazer profissionais de outras áreas para falar a partir do seu ponto de vista de forma que some às práticas das relações públicas.

E para iniciar teremos a Débora Zaninique é Socióloga pela Unicamp, trabalha na área de Pesquisa Digital desde 2011. Já desenvolveu e coordenou pesquisas tanto para marcas como Risquè, Doril, Wizard, Pom Pom , entre outras; como também para setores da sociedade civil, como o Movimento do Cicloativismo e o Movimento de Moradia de São Paulo. Durante este tempo, implementou, desenvolveu e adaptou técnicas das tradicionais formas de pesquisa das ciências sociais para dentro do universo digital. Atualmente é supervisora da área de monitoramento da Ogilvy e professora no IBPAD.

VRP: Atualmente vivenciamos um grande “boom” de manifestações populares de setores que antes não tinham tanto espaço em mídias de massa, por exemplo. Profissionais da comunicação buscam se adaptar e compreender esses movimentos, como a etnografia colabora com o aprofundamento das culturas e mais especificamente com uso da etnografia digital?

deboraUm dos marcos mais importantes na história do Brasil para as manifestações populares foram a década de 1980. É nesta década que surgem os chamados Novos Movimentos Sociais. O que eles são: movimentos que se organizaram a partir das manifestações populares com demandas que iam muito além das condições básicas de sobrevivência (como alimentação e moradia, por exemplo). Estas manifestações populares lutavam por igualdade em diversos setores da sociedade: é neste cenário que o Movimento Feminista, LGBT, Movimento Negro e o Movimento Antimanicomial ganharam destaque, por exemplo.

Porém, o debate com a maior parte da população sempre foi difícil: raro foram as demandas destes movimentos serem pautas debatidas nos meios de comunicação de massa, como jornais impressos, programas de televisão e rádio.

Assim, quando surgem as mídias sociais surge, ao mesmo tempo, um possível espaço democratizado de comunicação para este movimentos: é a primeira vez que eles tem como ‘conversar’ com outras pessoas em um formato de larga escala. E isto, eles fizeram muito bem. É praticamente impossível, no nosso cenário atual, uma manifestação de caráter machista ou racista passar impune nas redes sociais.

Quantos casos vemos de marcas que, ao tentar conversar com seu público-alvo, acabam criando crises por não entenderem o que é realmente importante e o que não é para seu público-alvo.

E é nesse cenário que a Etnografia Digital ganha espaço e importância para estes profissionais. A Etnografia Digital, aplicada corretamente, permite entender comportamentos, opiniões, códigos culturais importantes para cada grupo com que se quer comunicar. Ou seja, pode ser usada para: construção de personas; entendimento real do público para planejamento de comunicação e ações digitais; entender as transformações culturais que acontecem nestes ambientes (eles não são estáticos). Etnografia, literalmente, significa descrição cultural de um povo. Assim, ao se usar esta metodologia, pretende-se entender a fundo seu público.

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