Por trás da verdade podem haver outras verdades

Por Luiz Alberto de Farias, PhD¹

O poder absoluto é um daqueles desejos que mesmo os maiores titeristas negarão ter em suas almas, ainda que os tenham em seus olhos e mentes, bem ao alcance de suas mãos. O desejo pelo controle – parte da natureza humana, mais ou menos aflorado dependendo do indivíduo – e o seu eventual alcance em muitas circunstâncias é forjado a partir de estratégias de comunicação, ou em diversos momentos, por meio de ações de relações públicas.

Quando Edward Bernays, o famoso deflagrador das primeiras ações e artigos sobre relações públicas deu início à divulgação e implementação de estratégias de comunicação baseadas em teorias freudianas no início do Século XX, os resultados se mostraram tão eficientes quanto se poderia esperar, mas sempre de acordo com o entorno, com as circunstâncias prevalentes no meio. As transformações do mundo ainda na era Bernays levaram ao uso de outras metodologias contrapositivas às dele, mais baseadas em observação da opinião dos públicos, de modo a, também, em última análise, induzir, controlar, direcionar.

Se dermos um salto temporal à contemporaneidade chegaremos a um cenário não tão diferente: pessoas, organizações e lideranças buscando conduzir as opiniões por meio de estratégias de comunicação, sempre face ao cenário macro. Some-se a isso o maniqueísmo recorrente e a proliferação de “verdades absolutas”, irrefutáveis, multiplicadas por exércitos cujas armas podem ser identificadas no uso indiscriminado de redes sociais digitais. Nesse cenário encontramos o excesso de informações, a urgência pela manifestação (quase uma incontinência enunciativa) e recorrentemente o uso de blind endorsements (replicação de manifestações alheias sem crivo analítico prévio).

É em cenários de conflito que prioritariamente proliferam-se as relações públicas. Alguns já a classificaram como a arte de harmonizar exatamente esses conflitos. Mas o conflito, natural do gênero humano, do convívio que leva à disputa concreta ou simbólica, pode ser resolvido por instrumentos coercitivos ou pelo diálogo. E é exatamente nesse ponto que precisa agir o profissional de relações públicas, o semeador de equilíbrio nesse campo de centelhas. Em tempos nos quais a incoerência é base da disputa – tempos de clara intolerância e de afoiteza deliberada – cabe às relações públicas o trabalho da educação.

A Educação, base de qualquer movimento saudável, é aqui utilizada de forma ampla, no sentido de construir bases de capacitação para o debate – não o acalorado pela paixão, ou pelo menos não somente por ela, mas pelo estofo informativo. Em novos tempos (sempre são novos os tempos, pois eles não param, mas me permito utilizar esse reforço de interesse retórico), nos quais as redes tem sido tecidas por outros tipos de artesãos, que se utilizam de teias policêntricas, as relações públicas ganham reforço.

E podemos nos valer novamente das bases argumentativas do início do século passado instigadas por Bernays ou das estratégias de pesquisa de George Gallup, ambos célebres descobridores daquilo que por mais próximo de nossos olhos só poderia ter sido visto por profetas como eles. Os seres humanos são movidos por desejos que muitas vezes lhes tiram a capacidade de reflexão criteriosa, e podem ser entendidos se soubermos inquiri-los com as perguntas certas.

O que o ser humano também deseja é ser ouvido. E muitas vezes apenas diz. Para relações públicas o caminho é criar canais que possam fazer acontecer o encontro entre a sucessão de procuras entre organizações e seus públicos. E assim a certeza de que todos os discursos trazem em si, a priori, algum tipo de verdade, que não pode mascarar o direito a se olhar para todos os ângulos de uma história. Afinal, por trás de uma verdade sempre pode haver uma outra.


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¹Luiz Alberto de Farias é doutor em Comunicação e Cultura pela Universidade de São Paulo, onde atua como professor no Programa de Pós-Graduação em Ciências da Comunicação. É diretor Acadêmico das Escolas de Comunicação e Educação da Universidade Anhembi Morumbi. Atualmente é presidente da Associação Brasileira de Pesquisadores em Comunicação Organizacional e Relações Públicas (Abrapcorp) e editor da Organicom Revista Brasileira de Comunicação Organizacional e Relações Públicas.

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