Universidades como protagonistas na inovação

Por Artur Vilas Boas¹

Melhorar o mundo por meio do avanço tecnológico – missão de muitos apaixonados por melhorar a vida de pessoas usando soluções avançadas. E como se faz o avanço tecnológico? Imersão, muita imersão. Geralmente, o avanço tecnológico está relacionado às figuras dos inventores buscando criar novas (e melhores) maneiras de se construir algo ou de se resolver um problema. Tais inventores começaram a encontrar seu melhor ambiente para geração de ideias inovadoras: espaços isolados como garagens, ambientes de estudo como bibliotecas, bancadas de experimentação…tais ambientes foram evoluindo e foi criado um espaço saudável para os inventores: as universidades. A história de Kekulé e o anel de benzeno conta um pouco sobre o pesquisador imerso em sua realidade tendo lampejos inventivos e encontrando as soluções na alemã Universidade de Giessen:

“Bem, o espírito criativo ‘baixou’ numa noite fria em 1865. O químico Friedrich Kekulé acabará de descobrir a intrigante estrutura da molécula de benzeno, a maior lacuna que ainda persistia na química orgânica. Kekulé atribuiu sua descoberta a um devaneio.
Mr. Kekulé contou que, depois de passar o dia todo pensando sobre o assunto, ele decidiu relaxar um pouco na frente da lareira. Estava ali, contemplado as brasas que flutuavam em padrões circulares, quando, conforme ele mesmo contou, ficou como que paralisado e caiu em devaneios. Meio que adormecido começou a ver as fagulhas dançando na sua frente, como se sepenteassem no ar. De repente, elas formaram um círculo que girava, como uma cobra que mordia a própria cauda. Kekulé contou, então, que acordou num salto, com uma imagem nova e precisa da estrutura da molécula de benzeno: tinha um formato de anel!
A fórmula de Kekulé para resolver problemas: pense muito sobre o assunto; depois relaxe e deixe a mente entregue aos devaneios.” (retirado do livro Criative-se, de Claxton e Lucas)
Mas, poderiam se encontrar todos os ambientes, dialogar com diversas pessoas e realizar os experimentos necessários para o avanço tecnológico – tudo sob rigor científico dos pares que nela habitam. Bom, esse seria o melhor dos mundos – mas há muito o que melhorar para as universidades, especialmente no Brasil, se tornarem ambientes de promoção à invenção tecnológica. E mais que invenções, precisaríamos de líderes empreendedores para transformá-las em inovação, gerando valor e tornando as mesmas viáveis e acessíveis no mercado. E esse é meu universo: o processo de transformação das universidades para uma missão rumo à inovação.
E como uma universidade pode melhorar o mundo a partir do avanço tecnológico? Seria somente, como pensam alguns, por meio da produção científica aplicada? A resposta é o que venho encontrando nos meus últimos anos como pesquisador na USP e atuando à frente do Núcleo de Empreendedorismo da USP. O avanço tecnológico se dá somente a partir de o desenvolvimento de um ecossistema de empreendedorismo – ecossistema traz consigo o conceito de “um conjunto de comunidades atuando de maneira colaborativa entre si”. Temos a necessidade da universidade atuante, mas também é preciso um mercado aberto, um ambiente de investimentos propício, agentes de suporte, infra-estrutura para avanços tecnológicos, cultura regional que valorize a inovação e muitos outros elementos.
E aí entra o papel da universidade em ecossistemas de empreendedorismo, que, ao meu ver, se dá em diversos pontos, tais como formação de mão-de-obra qualificada, oferta de espaço físico para realização de eventos ligados a empreendedorismo, aproximação do ambiente de pesquisa, espaço laboratorial para experimentação, influencia na cultura regional etc. Um modelo bom foi apresentado pelo Paulo Lemos, da UNICAMP, no livro Universidades e Ecossistemas de Empreendedorismo:

Exilemos (1)

A partir desse trabalho sistêmico, a universidade começa a se organizar para promover empreendedorismo e inovação. Na minha experiência, tenho visto funcionar bem – a USP, por exemplo, tem sido recente berço de criação de startups como 99taxis, Kekanto, Ifood e diversas outras. O importante é pensar nos papéis que pode oferecer, implementar isso em projetos, grupos de extensão, laboratórios, salas de aula e dar liberdade para os alunos criarem. O resto é consequência.


Intercâmbio Versátil - Arthur Villas Boas

¹Artur Vilas Boas atua à frente do Núcleo de Empreendedorismo da USP e é executivo da Wylinka, OSCIP voltada para desenvolvimento de ecossistemas de empreendedorismo e inovação no Brasil. Suas pesquisas na USP estão voltadas para a criação de ambientes promotores de empreendedorismo inovação, com publicações ligadas ao papel da universidade, modelos de incubadoras e aceleradoras de startups, metodologias de ensino para empreendedorismo na engenharia e muito mais!

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