Diversidade no meio digital: Trans ativismo contra a transfobia e a favor da informação.

Por: Thainá Naveya

O texto inicia a seguir com as palavras de Letícia Lanz, que representam os sentimentos da grande maioria de pessoas transgêneras.

“Se, por décadas, eu me resignei a viver como homem, tendo a clara percepção íntima de não pertencer ao universo masculino, foi por não compreender quem eu era, por desconhecer inteiramente a natureza do mal-estar que eu sentia, desde a minha infância, em relação ao rótulo de menino‘ que me havia sido dado ao nascer. Sentia apenas aquela necessidade premente de fazer certas coisas que os adultos imediatamente repeliam dizendo tratar-se de coisas femininas. Coisas que eu fazia com muita naturalidade, como se tivessem sido feitas sob medida para mim. Eu sentia muito conforto em fazer aquelas coisas como se, ao fazê-las, eu conseguisse expressar externamente a pessoa que eu sentia ser internamente.”

Muitas pessoas não fazem a mínima ideia do quanto é difícil viver nesta prisão de gênero para ser algo que todos esperam, atrelados aos padrões impostos por questões religiosas, morais ou físicas. Os transgêneros sofrem com o preconceito e a incompreensão de sua condição que transcende as regras de gênero. A escolha do termo transgênero neste texto se dá como segue:

“Transgênero é um termo guarda-chuva‘, destinado a reunir debaixo de si todas essas identidades gênero-divergentes, ou seja, identidades que, de alguma forma e em algum grau, descumprem, ferem e/ou afrontam o dispositivo binário de gênero.” (Letícia Lanz, 2014)

O preconceito contra tudo o que foge ao que é considerado como padrão sempre fora extremamente reprimido, algo que mudaria após a luta de LGBT’s por injustiças contra transexuais em 1969.

“Em Nova York, no dia 28 de junho de 1969 o bar Stonewall-Inn foi local de mais uma rusga policial – mais uma vez sob a alegação de falta de licença para a venda de bebidas – e todos os travestis que se encontravam no bar foram presos. Mas, ao contrário das outras vezes, as pessoas resolveram resistir, em solidariedade com os presos. O clima foi ficando cada vez mais tenso. Gays e lésbicas de um lado, os polícias do outro e os travestis presos. Depois de dois dias de confrontos intensos, a polícia desistiu. Esta data fica na história do movimento LGBT como o dia do Orgulho Gay, motivando, em todos os inícios de Verão, paradas e marchas pelo mundo inteiro” (Fonte).

Elucidado essa realidade podemos perceber que ela está atrelada, entre as diversas dificuldades, a desinformação. Pois é bem verdade que a mídia tradicional (como a impressa, o rádio e a televisão), serviu como um meio de comunicação também sobre este assunto, porém com um teor distorcido pela maioria, que se apresentava mal intencionado ao passar a informação de forma incompleta ou incorreta, pois a mídia se refere a uma mulher ou um homem transexual com pronomes e artigos aos quais elas não se reconhecem algo ainda recorrente. Por exemplo, a exibição do Profissão Repórter no dia 22/06/2016 começa com um erro na chamada: “Temos uma história muito bacana, de um menino chamado Fabrício que venceu o concurso de menina mais bonita da escola”. É incorreto referir a transexual com o pronome de registro e ainda tratá-la como menino.

“Temos uma hierarquia entre masculino e feminino, e as pessoas que atravessam essa fronteira colocam a questão binária em xeque. Vivemos em uma sociedade que dá a impressão de que ser homem e ser mulher é algo que resulta apenas da natureza, que tem a ver com o corpo, de como se formou a genitália, com os hormônios, a genética… Não dá para falar sobre gênero sem passar pelo contexto da sociedade e sem problematizarmos uma desigualdade de base. Vivemos numa sociedade que naturaliza as diferenças entre os sexos, em relação a poder, afeto, família, trabalho, acesso à justiça, que imaginamos ter a ver com a essência corporal porque, desde bebês, meninos e meninas são tratados de maneira diferente. Do ponto de vista da teoria de gênero, não tem nada natural, tudo é aprendido.” (Fonte)

Mas surgiu a internet e com ela a informação passou a ter outros autores, entre eles pessoas LGBT’s. Neste universo digital as realidades sobre transexuais, travestis, não-binários e todos fora do padrão binário, homem ou mulher, começam a ter uma justa e verdadeira informação. É chegada a hora dos transgêneros terem a real compreensão de quem eles são.

A voz dessa população ganha força e se propaga em um ativismo contra a desinformação gerada pela transfobia. O conhecimento sobre a realidade transgênera atinge quem não tinham um norte sobre a própria condição, tal como ter uma pré orientação sobre terapia hormonal e os procedimentos seguros para lutar contra a própria disforia de gênero, tal como a busca por profissionais confiáveis e alertas sobre os riscos com automedicação e cirurgias plásticas baratas.

Contudo o que ganha força, além da informação, é o ativismo contra a transfobia. Mesmo a mídia tradicional, que na maioria das vezes desrespeita o nome social e ignora o respeito ao gênero de pessoas transgêneras, começa agora a ter que mudar o seu texto respeitando as diferenças sobre a pressão dos ativistas dessa população. Outro ponto é a separação do que é sexualidade e condição de gênero. Na sigla LGBT: LGB’s são os que sentem atração física por alguém. Já os T’s são os que se identificam fisicamente com o gênero oposto e inclusive podem ser LGB’s enquanto T’s.

São muitas as pessoas trans ativistas como a Daniela Andrade, Bru Waldorf, Luiza Coppieters, Amanda Palha, Letícia Lanz, Indianara Alves Siqueira, Kimberly Luciana Dias, e muitas outras no Brasil e no mundo.

E esse ativismo só aumenta, pois a violência transfóbica é ainda intensa. Fundamentalistas, neonazistas e ignorantes no assunto continuam a alimentar o discurso contra a população transgênera. Mesmo com avanços admiráveis dessa minoria, que ao atingiram posições sociais antes inalcançáveis como importantes cargos na política, em setores públicos e privados, além de currículos acadêmicos, em que o posicionamento e o discurso contra a transfobia ganha força, tanto pela união, quanto pela luta insistente expondo os discursos preconceituosos na mídia digital, quando não levados a estâncias jurídicas, o que faz com que muitas pessoas cis-gêneras (não transgênera), também passem a conhecer e a se posicionarem contra a transfobia. Recentemente o rapper Criolo deu um exemplo disso ao mudar a letra de uma música após tomar o conhecimento de que nela havia um termo ofensivo para as mulheres trans.

A transfobia e a exclusão de pessoas transgêneras no Brasil são grandes, colocando o país no topo de violência e assassinatos contra essa população. Só neste ano já forma mortas 57 pessoas por transfobia, segundo o “QUEM A HOMOTRANSFOBIA MATOU HOJE?”, que atualiza estes dados diariamente. Notícias de desrespeito e transfobia são quase diários. Um preconceito recorrente em repartições públicas, escolas, faculdades, delegacias, hospitais e entre outros. Ainda mais com um cenário político repleto de homofobia e transfobia, que inclusive desrespeita a lei de dignidade humana do próprio país.

Apesar de todo esse cenário de violência e preconceito essa sigla ‘T’ do movimento LGBT tem conquistado muitos avanços. Avanços que antigamente surgiam lentamente, mas que agora por meio de um poder maior da diversidade no meio digital, ganha velocidade. Assim surgem a divulgação da inclusão de pessoas trans nas campanhas publicitárias de comésticos, roupas e outros produtos. Tal como protagonismo em programas de entretenimento, séries e filmes. E como já foi dito, a conquista de importantes cargos em vários âmbitos sociais. Algo que só tende a aumentar a cada dia que mais e mais pessoas transgêneras decidem se posicionar contra a transfobia.

Páginas de sites ou blogs.

Mundo T-Girl

Trans.Parência

NLucon

Canais de transgêneros no Youtube:

Canal Voz Trans*

Daniela Andrade

Mayra Viamonte

Maite Schneider

João Walter Nery

Videos sobre transgêneros:

Transexual, a busca pela identidade

Transgêneros -Freud Explica-Parte 1

Transgêneros-Freud Explica 2

Transexualidade: um panorama geral

Tabu Brasil: Mudança de Sexo (Dublado) – Documentário National Geographic

DICIONÁRIO DE GÊNEROS | Transgênero, por Laerte Coutinho

DICIONÁRIO DE GÊNEROS | Homem Trans, por João W. Nery

Homem trans: conheça e respeite

Matérias no mundo digital:

Transempregos, oportunidade de trabalho para travestis transsexuais e crossdressers

Transfobia, mercado trabalho

Mudança de gênero: a complexa transformação de crianças e adolescentes



Thaina-Naveya
Thainá Naveya é Jornalista graduada na FAPCOM. Atualmente trabalha como repórter no portal ZNnaLinha, atuando também como editora de redação e web. Devido a disforia de gênero deixou de avançar em projetos como compositora, ao qual mantém guardadas suas composições para trabalhar em projeto futuro, se possível.  Já se aventurou em artes cênicas participando de encenações teatrais amadoras e como figurante de novela, porém sem avanço graças às amarras da disforia. ‘Pãe’ de duas lindas e evoluídas meninas, pois aceitam e respeitam a condição trans da ‘pãe’, tendo o maior apoio da pessoa que lhe proporcionou essas pequenas nascidas do amor, mesmo que essa união afetiva tenha deixado o status de casados para o de grandes amigas.
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Um pensamento sobre “Diversidade no meio digital: Trans ativismo contra a transfobia e a favor da informação.

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