O preconceito na comunidade LGBT+ e o impacto na representatividade e nas representações

Por Gabriela Ramos 

Precisamos conversar sobre orgulho, mais especificamente o orgulho LGBT+. Desde muito cedo, lá pelos meus onze anos, percebi que não era como a maioria das minhas coleguinhas do colégio e comecei a pesquisar e me encontrar cada vez mais dentro do movimento LGBT+. Desde então, já me aventurei por muitos rótulos, muitas pessoas e por mim mesma, é claro.

Mulher, cis-gênero, homossexual, pan-romântica, branca: é assim que me identifico hoje. Isso é o que mais me fascina na comunidade LGBT+, há uma infinidade de meios em que identidade de gênero, orientação sexual, orientação romântica e muitos outros aspectos se unem em cada pessoa. É incrível a possibilidade de haver tantos aspectos, de tantas maneiras diferentes, cada qual com lutas, essências, histórias e (falta de) representatividade diversas em cada um de nós. Apesar de isso ser lindo, justamente por fazer com que nossa comunidade seja tão diversificada, também é algo que abre portas para situações nada agradáveis de preconceito e intolerância, muitas vezes até mesmo dentro do nosso próprio movimento. Com isso, quero dizer que é mais do que evidente a presença de machismo, racismo, gordofobia, transfobia, elitização, etc dentro de uma parte teoricamente tão diversa da nossa sociedade. É triste ver que, em um grupo que busca igualdade, haja tanta discriminação.

Um dos problemas que imperam sobre os LGBT+ e acabam muitas vezes fragmentando uma união que poderia ser muito forte e bonita é o quão presentes os privilégios sociais são no movimento. Por exemplo, um homem, cis-gênero, homossexual, branco, magro, com ensino superior completo e de classe social mais elevada, em geral tem muito mais aceitação e até mesmo voz dentro do próprio movimento do que mulheres, transgêneras, homossexuais, negras, gordas, sem ensino superior e de classe social mais baixa. Assim, uma comunidade que deveria oferecer apoio e dar voz às pessoas, pode acabar fazendo o contrário.

Já perdi a conta das vezes em que já vi colegas (homens) homossexuais apertando os peitos ou as nádegas de garotas (na maioria das vezes sem consentimento) com o argumento de que podiam justamente por serem homossexuais, ou então mulheres do movimento perdendo espaço de fala por ter algum homem falando por ela, ou até mesmo pessoas cis-gêneras falando por pessoas trans. Já vi muitas pessoas LGBT+ diminuindo outras por não serem magras o suficiente, ou femininas, ou masculinas, ou por terem o cabelo e a cor da pele de tal jeito. Como podemos nos orgulhar de sermos nós mesmos e amarmos quem amamos, se não respeitamos pessoas que amam e são diferentes de nós?

É possível ver como, por exemplo, a letra G da sigla é muito mais representada e cada vez mais aceita no convívio e nos meios de comunicação e mídia sociais, seguida pela letra L, seguida pelas quase invisíveis B e T, que muitas vezes têm sua existência e validez duvidadas e negadas. É claro que não podemos deixar de ver também o “+” da sigla LGBT+, que inclui inúmeras identidades de gênero e orientações românticas e sexuais, das quais muitas vezes a maioria das pessoas nunca ouviram falar, como pansexuais, demigêneros, agêneros, não-binárixs, assexuais, queers, e tantas outras. Ultimamente casais homossexuais tem sido de fato mais presentes em peças publicitárias, videoclipes e até mesmo na televisão, mas quantos destes casais possui uma ou ambas as partes sem ser cis-gêneras? Quantos são inter-raciais? Quantos fogem dos padrões de estética impostos pela sociedade? Quantos realmente representam algo de fato relacionável?

Um meio que encontrei para me informar sobre tudo isso foi a busca por vídeos no Youtube que não fossem produzidos somente por homens, brancos, homossexuais, cis-gêneros, como por exemplo o canal da Laci Green, Unsolicited Project, Canal das Bee, Lorelay Fox,  e até mesmo canais de poesia como Button Poetry, que me possibilitaram o acesso a pontos de vista mais abrangentes sobre o assunto.

Com o passar dos anos também pude encontrar abrigo nos coletivos, especialmente depois que ingressei na universidade e ver que ser parte da luta LGBT+ é difícil, mas também muito gratificante. Conseguir encontrar um grupo de pessoas dispostas a conhecer outras faces do movimento, discuti-las, trabalhar toda a questão do espaço de fala e privilégios, para assim conscientizar a si mesmas e aos outros é muito importante. Procurar e dar boas vindas à pessoas com diferentes identidades, e deixa-las expor sua realidade é fundamental para o desenvolvimento de um ativismo consciente. É isso que me dá orgulho: a busca pela igualdade.

Aí entraria talvez, nosso trabalho como relações-públicas em agências, governos e nas mais diversas organizações, se possível, em todos os setores. Agir e sensibilizar os stakeholders para causas sociais, que visam uma sociedade mais segura e agradável também deveria ser nosso papel. Um exemplo disso foi a campanha mundial #ProudToBe, realizada pelo Youtube após o ataque à boate Pulse em Orlando este ano, em que diversos youtubers LGBT+ fizeram vídeos dizendo o porquê de se sentirem orgulhosos de serem quem são e de fazerem parte do movimento.

Vídeo #ProudToBe da Youtuber Lorelay Fox:

Eu quero ter orgulho de uma comunidade LGBT+ em que os próprios membros, independente de suas identidades e orientações se respeitem e se apoiem. E, para isso, também é necessário o debate e a problematização, seguidas de formas de divulgação eficazes e conscientes. Só assim seremos devidamente representados da forma que realmente devemos ser.


gabriela-ramos

 

Gabriela Ramos, tem 18 anos, natural de São Paulo e é graduanda em Relações Públicas pela Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (UNESP) em Bauru. Atua ativamente no Coletivo Prisma, o coletivo LGBT+ da universidade em que estuda e é membro do Grupo de Pesquisa Comunicação Midiática e Movimentos Sociais (ComMov)

Anúncios

Um pensamento sobre “O preconceito na comunidade LGBT+ e o impacto na representatividade e nas representações

  1. Pingback: Planejamento e Diversidade na Comunicação Digital | Parte II | Versátil RP

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s