Bebendo de outras fontes – com Eloy Vieira

Por Taís Oliveira

Nesse capítulo (o trocadilho vai fazer sentido, juro) do Bebendo de Outras Fontes temos um querido colega para compartilhar muitas coisas bacanas sobre sua pesquisa de mestrado: Eloy Vieira. Ele que é formado em Comunicação com habilitação em Jornalismo e Mestre em Comunicação pela Universidade Federal de Sergipe, conta que sua pesquisa se deu na interface da Economia, da Cultura e da Comunicação, onde pode aliar o conhecimento de mundo sobre séries ao projeto abordando temas sobre fãs e indústria cultural.

série bebendo de outras fontes

“O lugar do fandom no processo produtivo das indústrias culturais no contexto da cultura da  convergência: os casos de ‘Doctor Who Brasil’ e ‘Universo Who’” – a pesquisa investigou o lugar dos fandons no processo de produção coordenado pelas indústrias culturais no contexto da cultura da convergência. Eloy escolheu estudar a série Doctor Who com grande adaptabilidade de mídias com seus mais de 50 anos no ar.

Bora acompanhar? Então, sente-se confortável aí na poltrona, pegue sua pipoca e vem. 🙂 

Fale sobre a cultura da convergência e a correlação entre convergência dos meios de comunicação, cultura participativa e inteligência coletiva.  
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Falar de cultura da convergência sem falar desses tópicos é impossível. São questões da contemporaneidade que tem relações imbricadas entre si. Durante minha pesquisa, passei a utilizar a expressão “contexto da cultura da convergência” porque ela é mais abrangente ainda e me ajudou a dar conta da complexidade que encontrei ao investigar algo tão contemporâneo e dinâmico. Aliás, falar de Cultura da Convergência e não lembrar do Jenkins é impossível. Foi ele mesmo quem cunhou esse termo e que o relacionou de forma tão direta convergência midiática, cultura participativa e inteligência coletiva ao aliar as conclusões que Sola Pool, Negroponte e Pierre Lévy fizeram acerca desses fenômenos, mas sem necessariamente correlacioná-los, pra mim, este é o grande mérito do Jenkins, apesar de reconhecer que ele é bem condescendente com o papel das corporações nestes processos (até porque é financiado por elas, mas essa não é a questão aqui). 

Como define / resume a adequação dos produtores de Doctor Who às transformações na comunicação, sobretudo em relações à TICs? 

Doctor Who é uma série muito especial, não só pra mim, mas para a TV mesmo. É uma obra que foi ao ar pela primeira vez em 1963 e faz sucesso até hoje. Isso não é nada fácil para uma série de ficção científica que tem tantos efeitos especiais e a tecnologia é onipresente dentro dela. A evolução tecnoestética que a série passou ao longo dos mais de 50 anos no ar é apenas uma parte da reflexão que traz de todas as mudanças que passamos neste intervalo de tempo. O que me impressionou na série na verdade foram as adequações que os produtores tiveram que fazer para se adaptar ao público e aos novos hábitos de consumo midiático que vieram juntos da convergência. Isso ficou muito evidente a medida que fui estudando os relatórios da BBC ano a ano.Para se ter uma ideia, como destaquei lá no texto completo, os investimentos em mídias sociais e a aproximação com os fãs tornou-se um dos 5 pilares que passaram a orientar todo o trabalho de produção e distribuição dos conteúdos da emissora, sendo que Doctor Who, ao lado de Top Gear e Dancing With the Stars, são as marcas chamadas de Global Brands, ou seja, os produtores delas ainda tem o desafio de fazer tudo isso a nível mundial. É preciso lembrar que, mesmo quando essas adequações atendem aos anseios dos fãs e dos consumidores em geral, o que a BBC pretende com isso é maximizar seus lucros e tornar-se um grande player a nível global para bater de frente com os players norte-americanos que já fazem isso muito bem há muito mais tempo. Acho que reconhecer que essas mudanças são mais complexas do que meras relações comerciais e econômicas e lembrar que elas perpassam pela cultura, tecnologia e sociedade já é um grande passo para tentar entender a complexidade dessas relações.

Fale mais sobre a pressão dos fãs no Twitter para que houvesse mais salas de exibição.

Apesar de acompanhar a série já há algum tempo, eu nunca participei ativamente dessas discussões entre os whovians (como são conhecidos os fãs de Doctor Who), então não estava muito por dentro desse episódio que aconteceu entre os fãs, a BBC e a Cinemark. Na verdade, acabei descobrindo tudo no decorrer da pesquisa quando entrevistei os líderes dos dois maiores fandoms (grupos de fãs) brasileiros relacionados à série e foi um grande presente porque acabou me salvando e dando um norte para toda a minha hipótese. Foi somente graças a articulação desses fãs, por exemplo, que, ao invés de o especial de aniversário de 50 anos da série ser exibido apenas em algumas salas de cinema do RJ e SP, acabou sendo transmitido em praticamente todas as capitais brasileiras onde a Cinemark está presente e em algumas cidades importantes do interior. Isso é um bom exemplo de como as demandas dos fãs podem ser atendidas e gerar, ao mesmo tempo, satisfação por parte da audiência, como gerar muito mais lucros para a emissora e para a rede de cinemas responsável pela distribuição do conteúdo. É o tipo de cenário que, sem a instantaneidade e espontaneidade do Twitter, seria praticamente inimaginável.

Fale mais sobre a estratégia de segunda tela citada no trabalho.

Apesar de não figurar no aclamado livro de Jenkins sobre cultura da convergência, o fenômeno da segunda tela é bem típico deste cenário. Não podemos falar de segunda tela sem lembrar da cultura da convergência porque ela é basicamente o suprassumo da prática da convergência e da cultura participativa. Os produtores aproveitaram isso para cunhar o mote da campanha de aniversário: “#SaveTheDay”, para fazer alusão ao nome do especial “The Day of the Doctor”, ou seja, eles aproveitaram algo meio espontâneo, já que a hashtag em inglês é mais ou menos comum e transformaram no mote da campanha da própria BBC e também dos próprios fandoms.

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