#08 Mudei de país, e agora?

Por Michele Boin

Oie!

Saindo entrevista fresquinha com a Stephanie Swan Capelache, 24 anos, formada em Relações Públicas pela Universidade Metodista de São Paulo, turma de 2014. Entre agosto de 2009 e agosto de 2010 ela foi para o Canadá e lá ficou por um ano – e ainda passou um tempo na China e nos Estados Unidos nessa época. Hoje ela nos conta um pouco do vivenciou neste período. Você pode conferir os relatos anteriores aqui!

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Viagem de Stephanie ao Canadá e passagem por China e Estados Unidos

VRP: Para qual país você foi? Quanto tempo ficou lá? Quando a viagem aconteceu?

Stephanie: Fui para o Canadá, fiquei durante um ano e a viagem ocorreu entre agosto de 2009 e agosto de 2010.

Também fui à China em Março de 2010 (durante meu intercâmbio no Canadá) e fiquei duas semanas. Não me lembro os dias exatos, só sei que parti em viagem no dia 4 de março. Já em 1º de Julho de 2010, fiz uma viagem de um mês para os Estados Unidos, com 105 intercambistas, em dois ônibus (ainda no meu tempo de intercâmbio no Canadá).

VRP: Como conseguiu a oportunidade?

Stephanie: Canadá – Foi pelo Rotary Internacional. Meu irmão já havia realizado a mesma viagem cinco anos antes, porém para a Bélgica. Eu tive que realizar alguns procedimentos, pois há certos números de vagas e os clubes enviam pessoas anualmente.

China – Acredite se quiser, fazia parte do calendário de atividades da escola que poderiam ser feitas nas férias de primavera. Você podia escolher entre viajar para a Espanha ou para a China. Eu não pensei duas vezes! E foi demais!!!

EUA – Eu acabei perdendo a vaga na viagem que todos os meus amigos intercambistas do Canadá iriam, daí procurei outra grande viagem e achei essa através de uma amiga. Fiz tudo certo, rápido e a tempo de conseguir uma vaga.

VRP: Você já tinha viajado para o exterior anteriormente? Para qual lugar e em qual ocasião?

Stephanie: Eu viajara para a Disney quando tinha uns sete anos, mas não considero porque não lembro de nada (risos).

VRP: Quando viajou, você já tinha fluência na língua nativa? Percebeu alguma grande diferença entre o seu aprendizado no Brasil e a prática do idioma no país?

Stephanie: Sim. Eu fui para o lado do país onde se falava inglês, e eu já era fluente, pois fazia curso de idiomas desde pequena. No entanto, foi só durante minha estadia lá que adquiri confiança e desenvoltura para falar com quem quer que fosse, além de aprender muito sobre as expressões locais e nacionais da cultura canadense.

Quanto a China, bem… Nem vale a pena a comentar (risos). Foi minha primeira experiência e só deu pra entender que é bastante complicado a estrutura do idioma deles.

VRP: Por que optou por fazer o intercâmbio? Quais eram seus planos, sonhos e ambições com isto?

Stephanie: A princípio eu não estava muito interessada, francamente. Mas, como meu irmão havia realizado intercâmbio e meus pais queriam muito que eu tivesse essa oportunidade, eu meio que fui me acostumando com a ideia. Eu era bastante imatura naquela época para não me apaixonar de cara pela ideia, mas hoje eu ainda tenho certeza que foi uma das melhores experiências da minha vida. Não tive nenhum sonho, eu acho. Pelo menos não me recordo. Só esperava que, quando eu voltasse, fosse conseguir um emprego por ter um ano de intercâmbio no currículo. Mas eu esperava que fosse um ano de maravilhas como todos me falavam que seria. Foi muito bom!

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Viagem de Stephanie ao Canadá e passagem por China e Estados Unidos

VRP: Quais eram suas condições no exterior?

Stephanie: Como fui pelo YEP (Youth Exchange Program), que é um programa de intercâmbio do Rotary, já havia um modelo pré-estabelecido, e foi assim: eu fiquei numa pequena cidade chamada Chilliwack, a umas 2h de Vancouver. Era uma cidade de fazendas, majoritariamente. Morei três meses em cada casa, totalizando quatro famílias. Eles fazem isso para que o intercambista tenha uma melhor noção da cultura local e nacional, e tenha mais base para comparação, porque, às vezes, o que uma família faz não é exatamente o costume do lugar, sabe? Eu estudei meu 3º ano do colegial numa escola pública da região que, diga-se de passagem, achei muito melhor do que a particular que eu fazia no Brasil.

Eu tinha 18 anos, mas, como era gringa, os pais e responsáveis eram bastantes “corujas” e me levavam de carro aonde eu precisava. Algumas poucas vezes eu viajei de ônibus para outra cidade próxima, mas eles (os Rotarianos) eram bastantes chatos quanto à locomoção. Não possuía muita liberdade de ir e vir – mas esse era só o meu caso.

Comida… Eu comia muito (risos)! No começo tive um pouco de dificuldade de me acostumar porque eles têm costume de jantar cedo lá, ás 5 ou 6 horas da tarde, e eu sempre ficava com fome lá pelas 8h e eles me julgavam quando eu esquentava um miojo. Mas, na minha primeira casa, a despensa ficava sempre aberta e, como não tinha muita coisa pra fazer e eu não conhecia ninguém, ficava em casa e comia (risos). Infelizmente, engordei uns 9kg nos três primeiros meses. Quando eu comia fora, normalmente meus pais hospedeiros (hostpais) pagavam para mim. Todo mês eu recebia uma “mesada” de CAD$ 100,00, então procurava não gastar muito.

Amizades… Na escola eu tive dificuldade para socializar. Minha teoria é que, por ter entrado no último ano, os alunos estavam mais preocupados com os exames para a faculdade do que em fazer amigos novos. Eu também não era tão ‘descolada’ na época, então era mais reservada, o que não ajudou muito. Mas eu acabei fazendo amizade com os outros intercambistas da escola, que também ‘ficavam na deles’. Eram chineses, coreanos e uma japonesa. Eram gente boa! Ah, estranhamente, eu acabei fazendo bastante amizade com as moças da secretaria, que tinham idade para serem minhas avós. Mas era isso ou ficar 80% do tempo sozinha. Elas ficaram tão minhas amigas que, quando eu voltei ao Brasil, elas me enviaram um cachecol de presente pelo correio.

Mas, tirando essa parte da escola, eu fazia mais amizade com adultos. Achava mais fácil conversar com eles. E também com os intercambistas do meu Distrito (região de determinados Clubs do Rotary). Na viagem pelos EUA foi quando eu fiz mais amizades duradouras.

Na China fiquei duas semanas, mais como um intercâmbio cultural. Um mês antes da viagem, recebi uma chinesa na minha casa no Canadá, e duas semanas após sua partida, viajei à China, e depois de visitar Pequim, fui a Tiajing ficar na casa dela. Não cheguei a ESTUDAR, mas assisti algumas aulas na escola de lá, que se assemelhavam bastante com o método brasileiro, exceto pelo alto grau de disciplina dos alunos. Me locomovi de metrô, a pé e de carro, sempre acompanhada pela Shery (minha chinesa). Comi muito bem lá, minha família praticamente me levou em um restaurante diferente toda noite, e a comida lá é sensacional, muito bem temperada, muito saborosa. Para fazer amizade foi fácil, eles eram muito puros, inocentes e sem malícia. Era estranho, parecia que moravam em outro mundo, às vezes não entendiam nem sarcasmo. Mas, apesar disso, da facilidade de chegar neles e serem amistosos, foi quase impossível manter o contato. China, sabe como é, os meios de comunicação globais não são muito populares lá. Mas foi uma ótima experiência. São um povo muito incrível, carregado de história e tradições. Espero voltar lá um dia

VRP: Você se sentiu bem acolhida pelos nativos do país? Por quê?

Stephanie: Com certeza! Os canadenses são um povo muito hospitaleiro. Eles me acolheram muito bem! São muito educados e realmente se preocupavam em me incluir em suas famílias e me agradar com a sua generosidade. São boas pessoas.

Bem, com os chineses, todo lugar que eu ia, além das pessoas ficarem me olhando, elas também eram muito educadas e muito hospitaleiras, e se esforçavam ao máximo para me deixar confortável.

VRP: Como interpretou a questão da diferença cultural? Pode me dar exemplos das maiores diferenças de hábitos e cultura com relação ao Brasil?

Stephanie: Sinceramente, gostei desse choque cultural. É bom conhecer culturas novas e aprender diferentes perspectivas com elas. Vejamos… O lance do jantar ser as 5 ou 6 horas realmente foi estranho, mas faz muito mais sentido, já que quando eles vão dormir já realizaram a digestão.

A escola com certeza foi uma das diferenças mais gritantes! Eu via nos filmes, e realmente é idêntico. Guardar suas coisas no armário da escola, o jeito como são as aulas, as classes, os professores, as instalações, os “treinamentos de incêndio”, as provas, o método: você escolhe suas aulas – isso era muito dinâmico e participativo -, e você podia escolher uma classe agradável (como costura, cozinha ou marcenaria) com conceitos que dão alguma habilidade pro jovem, além de ser uma quebra na constância de matérias pesadas como a gente estuda no Brasil.

Além disso, o contato: apesar deles serem super hospitaleiros, não eram tão carinhosos fisicamente. Essa frieza, no começo, foi chata, mas depois me acostumei, e, quando voltei ao Brasil, não conseguia mais dar “beijinho” em ninguém, só aperto de mão.

E, por último, o que mais me espantava era a inocência deles. A ‘malícia’ que temos aqui, o ‘jeitinho brasileiro’… Lá não tem isso. Aqui a gente comete várias ilegalidades “que não afetam ninguém”, como ultrapassar um pouquinho a velocidade ou baixar filmes de graça, esse tipo de coisa. Lá eles são pessoas certas e seguem a lei. É bonito, sabe? É decente. Como quando fui no supermercado e o caixa eletrônico – aquele que você faz tudo sozinho sem necessitar de atendente – ficava bem na frente da porta do mercado. Eu pensava “GENTE?!?!?! COMO ASSIM?!?!?! Vão roubar, certeza!”. Mas me disseram que raramente isso acontecia.

Lá as cidades eram mais limpas, menos plásticos nas calçadas. Até em cidade grande a maioria das vias parecia mais limpa do que a gente acha nas vias de São Paulo, por exemplo.

Tá, agora eu juro que é a ultima coisa: a segurança. Você sair da escola ouvindo música e ter a tranquilidade de andar com seu aparelho de som por aí, ou simplesmente não parecer possível que alguém te assalte, deixar a porta do lado destrancada e não se preocupar de alguém entrar, esse tipo de coisa

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Viagem de Stephanie ao Canadá e passagem por China e Estados Unidos

VRP: Qual foi a sua sensação ao retornar para o Brasil?

Stephanie: Péssima! Só fui me dar conta quando sobrevoávamos perto do aeroporto, e, descendo das nuvens, avistei uma favela enorme. Chorei. Não que tenha aversão a pobre, é só que é uma realidade tão diferente… Lá parece que todos os sonhos podem se tornar realidade, e aqui a gente sabe como tudo é tão difícil e injusto. Nos primeiros dias sentia um vazio imenso, uma sensação de pertencer a algum outro lugar. Mas o tempo foi passando e eu fui me acostumando. A gente se acostuma. É sempre assim, né?

VRP: Ainda mantem um relacionamento com os gringos? Como é essa relação hoje?

Stephanie: Mais ou menos. O bom é que minha melhor amiga do Brasil fez intercâmbio pelo mesmo programa, só que foi para a Tailândia, então nos entendemos bem, nos conhecemos melhor. E eu tenho amizades com amigos e amigas que são brasileiros e realizaram o intercâmbio do Rotary no ano anterior e no ano que fui. Mas de gringos mesmo tenho uma amiga da Alemanha, que é uma daquelas que nunca falo, mas quando falo parece que foi ontem, e as outras amizades próximas ficaram mais distantes e, infelizmente, perdi a intimidade com muitos deles. Mas a vida é assim, os essenciais ficaram. Skype ajuda muito, a propósito. E Facebook. Só assim para se manter informado da vida de todo mundo.

VRP: Quais foram as maiores dificuldades enfrentadas no país?

Stephanie: Minha dificuldade de fazer amizades “verdadeiras”. Me sentia muito sozinha. E minha falta de proatividade para realizar passeios.

VRP: Faria intercâmbio de novo? Por que, para onde e por quanto tempo?

Stephanie: Com certeza! Porque, por mais que eu lhe conte sobre, nunca vou conseguir descrever e/ou traduzir todas as emoções e experiências que algo assim proporciona na vida de alguém. É uma experiência mágica de conhecimento do mundo e auto-conhecimento. É incrível e indescritível! Faria para qualquer lugar que não fosse perturbado por abalos sísmicos, guerras ou violência. Por um ano, é um tempo muito bom, mas acho que não faria menos do que isso. Eu achava que era o lugar que determinava a aventura, mas na verdade é a alma que determina.

VRP: O que essa experiência acrescentou à sua vida?

Stephanie: Acredito que muito do que me considero hoje foi por essa vivência. Passei a ser menos julgadora e a ter mais senso de observação, comecei a respeitar mais as culturas e a compará-las menos. Percebi que o mundo é um lugar enorme, no entanto, a essência humana é muito semelhante e as pessoas são quase as mesmas. Aprendi que posso fazer o que desejar, desde que eu acredite que posso fazer. Eu sempre penso “eu andei na muralha da China, posso fazer qualquer coisa!”, “eu subi aquele maldito Grand Canion, qualquer esforço físico é batata!”

VRP: E como comunicador, qual foi o “peso” do intercâmbio na sua vida acadêmica e profissional? Exemplifique.

Stephanie: Gostaria que tivesse sido melhor. Achei que ter um intercâmbio, ainda mais de um ano, abriria todas as portas. Mas as empresas procuram experiência em recém-formados, e daí fica difícil. Acho que, por eu ter feito o intercâmbio antes da faculdade, não tenha tido um efeito tão bom quanto se tivesse feito durante ou depois. Até porque eu era mais jovem e mal sabia o que queria fazer da vida.

VRP: Alguma dica extra para os intercambistas iniciantes? 

Stephanie: Hum…

Não tenha medo. Principalmente de sair da sua zona de conforto. Se eu tivesse me arriscado mais, e tentado mais, provavelmente eu teria tido um aproveitamento melhor do meu ano.

Aprenda a língua do país: talvez você nunca seja um nativo, mas, se mostrar que está tentando aprender o idioma do país, os habitantes desse lugar verão que você está se esforçando para aprender a cultura deles. E não se desculpe por falar errado, eles não esperam perfeição de você, só esperam força de vontade. Eu aprendi que a língua é o maior traço da cultura de um povo.

Não julgue a cultura deles baseada na sua. Apenas experimente as coisas de mente aberta. Não tenha ‘nojinho’ com comida, ou frescura de tentar, deixe se surpreender. Seja educado sempre! Se houver a possibilidade de escolher entre dormitório e casa de família, escolha a segunda opção.

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Por hoje ficamos por aqui. Se você tem vontade de participar da série contando a sua experiência como intercambista (serve o gringo no Brasil também), mande um e-mail para michele.fboin@gmail.com 😉

 

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