O olhar negro, universitário e comunicador

Por Cassia Sabino

A falta de representatividade negra no meio acadêmico e profissional não é um assunto exclusivo da área de Comunicação, o acesso ao Ensino Superior sempre nos foi vetado. Segundo o IBGE, entre os anos de 2004 e 2014, o percentual de alunos pretos ou pardos nas Universidades subiu 28,8%. Porém, ao ingressar na Universidade, nós, jovens e negros, nos deparamos com um ambiente totalmente hostil, onde tentamos por diversas formas ocupá-lo.

A presença do negro no meio acadêmico já é por si só um ato político e sua permanência universitária se assemelha com um campo de batalha. É comum ouvir a frase “Sou o único negro da sala.”. Sinto junto dela o peso de quem possui uma vivência acadêmica isolada. Sou a única representante negra nas salas de aula desde meus 4 anos de idade e não esperava que durante a faculdade seria diferente. Todos os dias atribuo um novo significado para a palavra resistência.

A militância tem transformado as universidades em um espaço mais inclusivo. É notável o crescente número de coletivos que buscam reivindicar um espaço para unir e fortalecer o povo negro e universitário. Não tive contato direto com a militância durante meus anos escolares, para mim isto era uma discussão distante. Foi na transição do Ensino Médio para o Ensino Superior que me informei melhor sobre questões raciais. Estudo em uma faculdade particular que não possui nenhuma movimentação direcionada a estas questões; até o ano passado não havia nenhum professor negro no corpo docente do curso de Relações Públicas.

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Mesmo participando dos movimentos estudantis, me percebo constantemente isolada por não conseguir estabelecer um diálogo aberto, onde eu possa discutir sobre minhas vivências, dentro da faculdade. Quando as universidades não promovem ou apoiam atividades voltadas à questões raciais, elas estão contribuindo para o isolamento do aluno negro.

Ao olhar para frente, o mercado de trabalho não é diferente, vejo poucos profissionais negros atuando na área de Comunicação. Fiquei extremamente feliz quando fui a um workshop ministrado pela Taís, que faz parte do blog Versátil RP, e vi que ela é negra. Ser negra, mulher e formada, já comunica muito, mas utilizar da Comunicação para propagar a militância, é quebrar o grande tabu que é falar sobre racismo nas mídias sociais. É importante que a figura do profissional negro seja ativa na universidade, pois o estudante, que ainda está em formação, precisa desta referência na área.

“A Consciência Negra é, em essência, a percepção pelo homem negro da necessidade de juntar forças com seus irmãos em torno da causa de sua atuação – a negritude de sua pele – e de agir como um grupo (…).” – Bantu Steve Biko


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Cássia Luiza Sabino, 19 anos, estudante do 4º semestre de Relações Públicas na Universidade Católica de Santos (UniSantos)

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