A importância de uma mídia livre, periférica e negra, na cidade mais negra do país

Por João Lucas Pires

Salvador é a cidade mais negra fora do continente africano, e uma das cidades com a maior fomentação de movimentos culturais e produção cultural negra do país. Porém a segregação racial se faz presente fortemente em toda capital baiana, e todos esses movimentos e produções acabam sendo marginalizados e muitas vezes limitados aos espaços periféricos da cidade. A comunicação passa então a ser a principal arma para romper com o todo preconceito, racismo e segregação ainda vigentes.

Mas Salvador também sofre de um problema que é recorrente por todo país: a monopolização dos meios de comunicação pelos “coronéis da mídia”. A ausência de diversidade e pluralidade nos meios de comunicação de massa de Salvador, apenas incentivam a discriminação com tudo que é produzido pela população negra e periférica soteropolitana. Nesse contexto é que o “midialivrismo” com seu caráter inclusivo, horizontal e plural, passa a ser o principal caminho para a população, falar de suas necessidades, se fazer ouvida e mostrar-se presente em todos os espaços da capital.

Com muita luta, coletivos de jovens comunicadores e moradores das regiões periféricas da cidade estão se juntando cada vez mais e construindo seus próprios veículos comunicacionais, propondo um rompimento com os grandes meios e dando espaço para os eventos, debates, falando de cultura, TV e tudo que envolve o povo negro e periférico dessa cidade.

Já temos muitos exemplos dessa atitude empreendedora, e vale a pena ouvir um pouco sobre o que esses comunicadores tem a dizer:

Mídia Periférica

mpO Mídia Periférica é um coletivo de jovens negros comunicadores que surgiu em 2010, uma iniciativa de Enderson Araújo, morador de Sussuarana, onde junto com outros jovens e tendo a comunicação independente como principal arma, passou a denunciar e produzir conteúdos que dessem visibilidade e poder de fala aos moradores do bairro. Hoje atua com a realização de vários eventos por todo o bairro, como o “Anu Preto Filmes”, iniciativa que tem por objetivo trabalhar com o audiovisual e a produção cinematográfica dentro das “Perifavelas”, construindo narrativas próprias, através da apropriação do cinema.

“Precisamos de representatividade, visibilidade e poder de fala. Precisamos de mídias livres negras! Através do midialivrismo e da produção de conteúdo autóctone (de dentro, sobre dentro, para dentro e fora da periferia) traçamos nossa luta pela democratização dos meios de comunicação, fortalecimento da rede de ativistas e protagonismo juvenil. A comunicação independente é a arma que usamos para nos empoderar e empoderar os nossos, já que estamos distantes das esferas de poder e privilégio. Nós por nós!” Bruna Calazans – Responsável pela comunicação e conteúdo do MP

NORDESTeuSOU

nordestesouCom o intuito de destruir o paradigma de violência de um dos maiores bairros periféricos de Salvador, o Nordeste de Amaralina, a proposta do portal NORDESTeuSOU consiste em reunir esporte, lazer, entretimento e notícias culturais com um modelo de website diferenciado, visando o respeito e buscando mostrar todo tipo de produção proveniente da comunidade.

“Com o crescimento da internet e o acesso gratuito de todos, a comunicação feita de dentro para fora, é uma das maneiras de empoderamento da própria comunidade, que cria seus próprios canais de comunicação, com isso ajuda no fortalecimento da cultura e o entretenimento local, e incentiva os moradores a reivindicar quando preciso alguma demanda que atinge indireta ou diretamente a comunidade. A comunicação é uma peça importante no desenvolvimento das comunidades de forma que a produção dos conteúdos midiáticos seja criada pelos próprios moradores.”  Jefferson Borges – Diretor Geral e Fundador do Projeto

Portal SoteroPreta

SoteroPreta O Portal SoteroPreta está no ar há apenas um mês e já ultrapassa a marca de 22mil visualizações, é o primeiro portal de notícias voltado, prioritariamente, para a produção cultural soteropolitana construída, formada, mobilizada e destinada à comunidade negra de Salvador. Ele surgiu diante de um incômodo da jornalista Jamile Menezes, diante de tantas ações, iniciativas e projetos em curso de uma massa preta, jovem, e que tem sacudido estruturas e pautado novas formas de militância em Salvador.

“Mídia é meio de se ver. Isso, por muito tempo, se constituiu algo delimitado, restrito a estereótipos resistentes. Ainda os temos, mas quando nos aparecem, são agressivamente repelidos. De forma massiva, difícil de se ignorar. Então ter meios feitos por nós, sob nossa ótica, gestão e pauta, é estratégia de sobreviver em um contexto que quer nos silenciar o tempo todo. É resistir e inovar, é furar bloqueios, cavar caminhos por nós mesmos. Em Salvador, diante de sua população majoritária, ter estes meios multiplicados se faz não só urgente como imprescindível.” Jamile Menezes – Idealizadora e editora chefe do Portal SoteroPreta.

Agencia de Comunicação do Subúrbio

SubúrbioO Programa, ligado a CIPÓ, teve início em 2011 e atua com a formação de jovens como Agentes de Comunicação para o Desenvolvimento Local. O grupo recebe capacitação intensiva nas áreas de identidade, desenvolvimento, comunicação e gestão, para atuar como co-gestores de centros de multimídia comunitária, construindo e implementando novas formas de intervenção social a partir do uso inteligente e criativo das tecnologias da informação e da comunicação.

“A maior importância (da comunicação produzida na periferia) é ver jovens produzindo algo que eles pensaram, transformar isso em um produto concreto. A Agência de Comunicação do Subúrbio, busca transmitir e disseminar uma comunicação que é muitas vezes negada a esses jovens. A forma que utilizamos é o da Educomunicação, Educar para comunicar. Dessa forma, podemos valorizar nossos jovens mostrando o que eles têm de melhor. O subúrbio ainda é um lugar muito criticado, o nosso principal objetivo é mostrar que produzimos comunicação sim e feita por jovens para jovens.” Amanda Campos – Estagiária de mídias sociais

Com iniciativas como essas, dos já renomados Desabafo Social, Mídia Étnica e Cipó, eventos como os produzidos pelo Sarau da Onça e pelo Batekoo, e diversos outros projetos pensados dentro das periferias de Salvador, a população negra, e invisibilisada pelas grandes mídias, estão conseguindo cada vez mais se mostrar presente e tornando Salvador uma cidade efetivamente negra em todos os seus espaços.

Para mais informações sobre cada veículo e iniciativa:


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João Lucas Pires, 21 anos, baiano, estudante de Comunicação Social – Relações Públicas na Universidade do Estado da Bahia – Uneb.

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