É necessário pensar a comunicação social como possibilidade

Por Luana Protazio

Patricia Alves é Iyalorixá do Ilê Axé Iya Mi Agbá – Terreiro de tradição e preservação cultural de matriz africana iorubá, pedagoga, Mestre em Comunicação, Informação e Educação em TvDigital – FAAC/UNESP. coordenadora de Educação no Instituto Omolara Brasil. Pesquisadora no Núcleo de Estudos e Observação em Economia Criativa – NeoCriativa/FAAC/UNESP/Bauru e no Núcleo Negro da Unesp para Pesquisa e Extensão- NUPE/UNESP, e ativista no movimento de mulheres negras.

Para abordar comunicação, Patrícia segue o pensamento de Paulo Freire, de qual se considera adepta. No livro Extensão ou Comunicação, o autor faz uma distinção entre ambos os termos. No meio acadêmico, extensão universitária é aplicar o que aprendemos em sala de aula em determinado espaço ou comunidade, consequentemente tornando este e todos os sujeitos ali presentes em objeto de estudo, com o objetivo de otimizar algo neste espaço. “Nisto, não me preocupo em entender de que forma se trabalha neste espaço antes da minha presença, porque meu projeto tem começo, meio e fim” ela explica, “quando chega ao fim, será que minha intervenção transformou aquele espaço e aquelas vidas de alguma maneira? provavelmente não de forma profunda ou contínua. Então o que preciso fazer é comunicação, e não extensão.“. E nesta linha comunicação implica em todo um processo de relações, na criação de um espaço afetuoso e harmonioso, e acima de tudo implica entender que para fazer comunicação não vou com o meu saber à tal espaço, vou para um espaço de troca de saberes. Isto é comunicação.

Como ativista no movimento de mulheres negras e no movimento hip hop, já vivi os dois lados da moeda – ser objeto de estudo e estar no meio acadêmico. Muitas vezes discutimos em coletivo como estávamos cansadas da universidade vir até nós, retirar informações, e voltar à seu centro, e poucas foram as vezes que tivemos um feedback das informações coletadas. No meio acadêmico pude perceber que esta é uma prática frequente, visto que a universidade em sua própria tese detém o saber e o conhecimento, “a estrutura do país para se pensar a desigualdade necessita que a ideia de saber esteja presa num espaço, e regula quem tem acesso a tal espaço. Atualmente este espaço é a universidade.” afirma a pedagoga.

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Apesar do aumento significativo de negros no ensino superior nos últimos anos, a presença negra no espaço acadêmico é pouca quando comparada ao todo. Os dados no infográfico Retrato dos negros no Brasil feito pela Rede Angola revelam que o acesso da população negra ao ensino superior aumentou 232% na comparação entre 2000 e 2010, entretanto apenas 26 em cada 100 alunos das universidades do país são negros. Não são raras as vezes em que se é o único aluno negro da turma, e não são raras às vezes em que não se tem sequer um professor/a negro/a durante todo o curso. Então temos uma realidade onde numa sala de 20 alunos no máximo 3 são negros em média, e sabemos que a questão racial não é e nem deve ser uma questão apenas do negro, e sim de toda a população, neste sentido qual é o papel do aluno não negro, futuro comunicador, nesta realidade? Primeiro é necessário entender que há uma questão racial no Brasil que precisa ser enfrentada, o contexto que a proporcionou e a perpetua, e como a comunicação contribui para a manutenção dessas relações; vezes conflituosas, vezes invisibilizadas, mas sempre desiguais.

Entusiastas da profissão estão começando a entender a importância de discutir relações socioraciais em eventos acadêmicos. O ERERP, Encontro Regional de Estudantes de Relações Públicas, realizado neste ano em Bauru – SP, abrigou em sua programação de 3 dias mesas sobre a diversidade nas mídias sociais e nas organizações, além de uma talk sobre a importância da regulamentação da mídia, assunto que muito toca o povo negro já que menos de uma dúzia de famílias/grupos controlam os principais meios de comunicação brasileiros, e estes defendem seus próprios interesses, e a manutenção de seus privilégios em detrimento das minorias. Outro evento de grande nome nacional na área, a RP Week, realizado anualmente na Faculdade Cásper Líbero, também abordou diversos temas ligados ao social em sua programação, e procurou em cada atividade mostrar como podemos trabalhar uma comunicação mais humana. Mas ainda é preciso mais, é preciso que as universidades tomem para si o papel de propor e instigar a discussão e reflexão racial na academia, não apenas nas datas simbólicas, mas de forma a entender que há um racismo estrutural no país.

“Estou convencido que nenhum intelectual que se gaba de si mesmo e nenhuma Universidade que queira manter a cabeça erguida perante o século XXI pode se dar ao luxo de olhar imparcialmente os problemas raciais e étnicos que assolam nosso mundo” (HALL, S. Raça, cultura e comunicações: olhando para trás e para frente dos Estudos Culturais. In: Revista Projeto História. São Paulo, n. 31, dez. 2005, p. 24).

Ainda, como futuros profissionais que irão mediar relacionamentos e gerar elos, numa posição tão nobre como atuar com relações públicas humanas, só conseguiremos comunicar se tivermos conhecimento da estrutura racista e desigual na qual o país se sustenta. “Os negros no País são os que mais são assassinados, são os que têm menor escolaridade, menores salários, maior taxa de desemprego, menor acesso à saúde, são os que morrem mais cedo e têm a menor participação no Produto Interno Bruto (PIB). No entanto, são os que mais lotam as prisões e os que menos ocupam postos nos governos.” A declaração é da Organização das Nações Unidas (ONU), em visita ao país em 2013, e conclui “O racismo no Brasil é estrutural e institucionalizado e permeia todas as áreas da vida”. Portanto é mais do que fato que a responsabilidade social passa pelas relações étnico-raciais.

Por fim, Patrícia nos lembra com um sorriso no rosto, “é necessário pensar a comunicação social como possibilidade.” A possibilidade de uma sociedade com justa equidade e inclusão.


Luana Protazio

 

Luana Protazio, 20 anos, estudante do 2º semestre de Relações Públicas na Universidade do Sagrado Coração (USC), voluntária de comunicação na Casa do Hip Hop Bauru, e fundadora do site Elogie uma Irmã Negra.

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