Afinal, o que querem as mulheres?

Nesse oito de março retomo uma situação que gerou muito desconforto no início do ano. Trata-se do post do até então Presidente do Conrerp/2 Cláudio Andrade que contou em seu perfil no Facebook que estava ao lado de uma mulher amamentando no avião e se referiu ao ato de maneira machista e desrespeitosa com expressões como “pq alguma mulheres botam as teta pra fora em lugares públicos sem o mínimo de pudor”, “um teco do meu bilau pode?”, “mulher gosta mesmo é de se exibir guando pode” e “VTNC” (sic para todas) em resposta ao comentário de uma moça.

Para além do clichê “conteúdos que podem afetar o campo profissional”, até por que sempre achei esse tema bastante controverso, se alguém tiver tendências a comportamentos socialmente condenáveis não há coaching que dê jeito (mas isso é assunto para outro dia). Pretendo aproveitar o gancho da data para fazer uma análise das conversações em torno do ocorrido dentro do grupo de Relações Públicas no Facebook, sobre a representação legal e moral e a situação das mulheres na sociedade sobretudo pelo viés da comunicação.

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O grupo de Relações Públicas no Facebook é público e tem atualmente cerca de 17 mil membros. O post em questão foi feito no dia 7 de janeiro (sábado) às 08:01 da manhã. Na última atualização constava mais de 500 comentários, mais de 200 compartilhamentos e mais de mil reações. Além disso, no mesmo fim de semana os movimentos de valorização da profissão lançaram notas de repúdios aos comentários do então Presidente do Conrerp/2, só a do Versátil RP, por exemplo, teve um alcance de mais de dez mil pessoas.

No mesmo dia o senhor Cláudio Andrade pediu desculpas publicamente com uma nota regada de academicismo da qual citou Foucalt, Bauman e Marc Augê e apelos ao “exercício da liberdade de expressão”.  Na sequência e provavelmente sob orientação de alguém ele apagou a primeira nota e postou outra mais objetiva. Somente no dia 08 de janeiro o Conrerp/2 se posicionou e o Conferp em 13 de janeiro. Até o momento o caso tem um processo em andamento na Comissão de Ética do Conrerp/2 e um mês depois o senhor Cláudio Andrade pediu afastamento do cargo. Quem assume interinamente seguindo a precedência vigente é a Secretaria Geral Ana Cristina Souza Rocha, ironicamente uma mulher.

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Print da primeira note no perfil pessoal do Sr. Claudio Andrade.

 

Análise das conversações no grupo Relações Públicas

Como mencionei acima, o post dentro do grupo de Relações Públicas aconteceu em um sábado pela manhã no primeiro fim de semana do ano, ou seja, a indignação das pessoas superou o fato de ser um dia de descanso do qual quem tem filhos, por exemplo, poderia estar curtindo as férias escolares.  O que reafirma a máxima de que não existe horário comercial nas mídias sociais e a qualquer momento uma polêmica pode se tornar uma grande bola de neve de rejeição.

Dos 545 comentários no post, 78% são de mulheres (427 de mulheres e 118 de homens, verifiquei apenas pelo nome social de cada perfil). Na figura abaixo vemos a nuvem de palavras dos comentários das mulheres, com destaque para Conrerp, Conferp, Presidente, RP, Chocada, Absurdo, Conselho, Vergonha, Ética, Mãe.

Wordcloud com a opinião das mulheres.

Wordcloud com a opinião das mulheres.

Houve muita mobilização naquele fim de semana, desde as notas de repúdio articuladas entre os movimentos, a sugestão de fazer um “mamaço” na frente da sede do Conrerp/2 e a hashtag #foraclaudio pedindo a renúncia do cargo. Obviamente as reações em relação ao ocorrido foram bastante negativas, podemos verificar isso na opção “reações” do Facebook, das quais 686 são o ícone de raiva.  E dos comentários mais curtidos, que podem sinalizar concordância com a opinião expressada, destacam-se a falta de condições morais e éticas do então Presidente, questionamento sobre a credibilidade da liderança do Conrerp/2, comentário de uma mãe acompanhado de foto amamentando o filho, rejeição dos comentários favoráveis ao post do senhor Cláudio e cobrança de posicionamento oficial do Conrerp/2 e Conferp.

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Sempre que ocorre um fato que gera controvérsia logo questionam no grupo supracitado sobre como gerir a crise, mas curiosamente nessa ocasião foram poucos. O que pode ser um indicativo de amadurecimento, aos trancos e barrancos vamos interiorizando que relações públicas não é só apagadora de incêndio. Embora seja bem triste ter que tratar disso com um problema interno da categoria, quem sabe aprendemos que:

  1. RP não resolve problemas de personalidade/caráter;
  2. Exercer representação requer responsabilidade em todos os atos;
  3. Fazer mapeamento de público é importante, sobretudo para identificar suas causas (o direito de amamentar em público, no caso) e não ser negligente com elas;
  4. Se você acha que o erro apontado por um grupo desfavorecido é mimimi, está achando errado. Repense;
  5. Não adianta fazer um super planejamento de reposicionamento de imagem e relacionamento se seu pessoal não estiver alinhado com os valores pretendidos;
  6. Internet e redes sociais são palanque, se você comete um erro e não se retratar com humildade sincera as pessoas vão falar, vão catalogar e vão usar como exemplo em momentos propícios (tipo o dia das mulheres, rss).

Representação legal e moral

Todos os conselhos profissionais são autarquias federais, ou seja, tem natureza jurídica e estão subordinados ao Ministério do Trabalho. A função do sistema é basicamente ser um aparelho burocrata que normatiza e fiscaliza o cumprimento da lei 5.377/67 que regulamenta a atividade profissional das Relações Públicas. Ou seja, trata-se de uma representação legal da categoria.

Dentre os comentários no post muita gente questionou “quem colocou ele lá?“. Pois bem, as eleições no Sistema Conferp funcionam a partir da criação de chapas regionais e chapas federais. Para quem acompanha as movimentações pelo menos nos últimos cinco anos já percebeu que poucas pessoas querem assumir esse papel, tanto que somente a região 4 apresentou concorrência de chapas, as demais e no Conferp as eleições foram em chapas únicas. Ou seja, embora o escopo sugira democracia e análise de propostas não há de fato como escolher o “melhor”, mas isso não é um julgamento das chapas eleitas, muito pelo contrário. Tenho admiração por quem assume o trabalho de conduzir um regional ou a instância federal pois, talvez nem todos saibam, os conselheiros trabalham de forma voluntária.

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Fonte: site do Conferp / Eleições de 2015

A questão da representação legal também é um problema nosso. Não estou diminuindo o ocorrido, mas provavelmente muitos dos que questionaram sobre a renúncia, usaram #foraclaudio ou letras garrafais com “não me representa”, não sabem como funciona e quais são os objetivos do sistema Conferp e quiçá não são registrados. O que não exclui todas as opiniões e exigências em relação ao caso, mas é somente por meio do registro profissional que se efetiva cobranças. E não sou eu quem estou falando, como citei mais acima os conselhos profissionais são autarquias burocratas subordinadas ao Ministério do Trabalho, todas as ações serão baseadas nisso e não tem trend topics que modifique. Como as coisas mudarão? Via trâmites burocratas que só quem está em concordância com a lei pode participar. Teve o acréscimo da pressão popular registrada e não registrada? Teve sim. E isso foi ótimo, mas questões como a flexibilização que é um debate arrastado desde a década de 90 ganha um recomeço a cada gestão mesmo sendo um debate importante para todos os profissionais.

Porém os trâmites burocráticos só interessam a nós, quem é de “fora” não está dando a mínima para a lei 5.377/67, mas viu que aquela personagem que fala em nome da categoria, que vai às universidades conversar com os jovens e que participa de parcerias com agências e empresas esteve envolvido em polêmicas. Logo, também podemos falar do valor simbólico de influência e de formação da opinião pública. Sobretudo quando se trata de uma gestão que se propôs a começar um projeto de transformação da ação profissional e consolidar o discurso político de “fomentadores” da eficácia nos relacionamentos, uma vez que as empresas estão cada vez mais investindo no diálogo e na aproximação com seus públicos […] Não se trata de uma campanha, mas de uma estratégia de ação política” (do documento oficial da Gestão Visão Integrada 2016/2018).

Na obra O Poder do Simbólico, o sociólogo Pierre Bourdieu disserta sobre o espaço social, capital simbólico, nomeação e representação. Em certo trecho afirma que “a posição de um determinado agente no espaço social pode assim ser definida pela posição que ele ocupa nos diferentes campos […] também o capital simbólico, geralmente chamado prestígio, reputação, fama etc. que é a forma percebida e reconhecida das diferentes espécies de capital” ( p. 135).  Nós bem sabemos como prestígio e reputação são valores importantes no meio social e basta fazer um breve retrospecto da atual gestão para notar o quanto eles também sabem e estavam colocando em prática a construção de credibilidade. Desde entrevistas e diálogo com os movimentos da categoria, idas constantes nas universidades, convites para as plenárias abertas na sede e assim por diante. Todo um trabalho que corre o risco de ser engolido pelo comportamento questionável do agente que ocupava uma posição de representação no regional.

A representação da categoria implica numa construção e visão de mundo, ainda citando Bourdieu “a teoria mais acentuadamente objetivista tem de integrar não só a representação que os agentes têm do mundo social, mas também, de modo mais preciso, a contribuição que eles dão para a construção da visão desse mundo e, assim, para a própria construção desse mundo, por meio do trabalho de representação que continuamente realizam para imporem a sua visão de mundo ou a visão de sua própria posição nesse mundo, a visão de sua identidade social” (p. 139).  Daí lembramos da importância da nossa participação nas questões burocráticas do conselho regional da categoria, sobretudo por que no mundo em que eu gostaria de viver não incluí pessoas com atitudes machistas e misóginas. Mesmo que meu desejo seja repleto de utopia, ao menos no conselho da minha profissão da qual eu contribuo financeiramente (pagando a anuidade) e de forma voluntária (por meio do trabalho com o Versátil RP) eu espero a extinção desses contra-valores que somatizam na violência física, psicológica e simbólica da mulher.

Você pode substituir o seu machismo por equidade de gênero, por exemplo 

Um fato curioso sobre a ocasião, a amamentação em local público não é crime, muito pelo contrário. A Senadora Vanessa Grazziotin elaborou a PL 514/2015 que penaliza quem tentar proibir a lactante da sua função. Sim, o ocorrido foi dentro de um avião (que não é um local público), porém o que importa aqui é sobre o limite da noção e do bom senso. Precisamos chegar ao ponto de criar leis que permitam o ato natural e biológico da mãe amamentar seu filho.

Aaah, mas vocês só reclamam, o que querem afinal?“. Olha, queremos muitas coisas, mas vamos falar de ações em que as representações da categoria podem somar na causa.

Que tal salários igualitários para a mesma função e qualificação que os homens? A diferença de remuneração entre homens e mulheres ultrapassa os 50%, mesmo sendo maioria nas cadeiras universitárias. E quem sabe uma publicidade que não nos objetifique? Embora tenhamos certo progresso de campanhas e projetos que motivam uma publicidade diversa e sem fetichização da mulher, ainda vemos muitas campanhas ruins, sobretudo nos meios massivos de comunicação. Outro ponto, que tal colaborar com a extinção do machismo no meio acadêmico? E nos eventos de comunicação que tal convidar mais mulheres para palestrar?  E elaborar ações que motivem a distribuição de cargos de lideranças às mulheres? Quem sabe motivar as universidades no debate sobre diversidade e equidade de gênero?

E que tal pegar todos esses itens e fazer recorte de raça?  Como afirma Sueli Carneiro “os diferentes retornos auferidos pelas mulheres de uma luta que se pretendia universalizante tornava insustentável o não reconhecimento do peso do racismo e da discriminação racial nos processos de seleção e alocação da mão-de-obra feminina, posto que as desigualdades se mantêm mesmo quando controladas as condições educacionais.” , ao direcionar os problemas de desigualdade social pensando nas mulheres negras tudo fica extremamente acentuado. Todos os indicativos nos levam para o fim da fila.

Cena do filme Hidden Figures.

Cena do filme Hidden Figures.

O que queremos é que os órgãos representativos de fato nos representem. Queremos que as lideranças da categoria sejam capazes de apoiar os problemas que nos deixam para trás na corrida por recolocação, desenvolvimento e liderança profissional e acadêmico, pois superando essas barreiras as outras tantas que encontramos em nosso caminho apenas por sermos mulheres (e mulheres negras) serão menos avassaladoras.

BIBLIOGRAFIA:

BOURDIEU, Pierre. O poder simbólico. Tradução Fernando Tomaz. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1989.

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