#15 Mudei de país, e agora?

Por Diego Galofero

Olá galera, como estão? Michele Boin saiu do Versátil RP para seguir um sonho pessoal dela mas nós do Versátil RP não esquecemos dela, por isso, vou seguir com essa maravilhosa série idealizada por ela.

Nossa décima quinta história inspiradora é com Laura Villas Boas, 30 anos, Relações Públicas pós-graduada em Mídias Digitais, que seguiu para norte rumo ao Canadá.

VRP:  Para qual país você foi? Quanto tempo ficou lá? Quando a viagem aconteceu?

LAURA EM TORONTO

Laura: Fui para o Canadá, em 2016. Fiquei nove meses por lá.

VRP: Como conseguiu a oportunidade?

Laura: Eu nunca tinha pensado em fazer um intercâmbio. Nunca foi meu sonho nem morar e nem estudar fora. Eu cresci em uma família que tinha dinheiro para viver uma vida básica de qualidade, mas não tinha dinheiro para pagar por pequenos luxos como escola particular ou escola de inglês. Como eu sempre gostei muito da língua, a primeira coisa que fiz quando entrei no meu primeiro emprego, aos 18 anos, foi entrar em uma escola de inglês. Fiz o básico, parei, mais tarde fiz um pouco de aulas particulares, parei de novo, depois de uns bons anos tentei voltar e parei novamente. Estudar e trabalhar não é muito fácil, então eu acabava sem tempo ou me desgastando muito com mais os estudos do inglês. Então, como eu sempre gostei muito do inglês, eu estudava muito sozinha. Todo esse esforço fez com que eu tivesse um inglês intermediário. Eu conseguia ler (não entendia todas as palavras, mas conseguia pegar o sentido geral), conseguia escrever (conversava com algumas pessoas em inglês e, apesar de alguma coisa de gramática errada, me fazia entender muito bem. Também trocava e-mail com alguns clientes e fazia planos em inglês), Mas tinha uma dificuldade absurda de ouvir e de falar. O nível que eu estava era confortável pra mim, pois eu conseguia me manter nos cargos compatíveis com a minha experiência. Até que chegou uma época que eu estava com um alto estresse no trabalho, estava literalmente colecionando doenças derivadas ou agravadas do estresse, e decidi testar meu currículo. Na época, com seis anos de atuação na área e há um tempo no cargo de coordenação, decidi ver se a minha experiência era compatível com a de um gerente. Mandei currículo loucamente e descobri bastante gente interessada na minha experiência para o cargo de gerente. O que me impedia? Adivinha! O inglês! Como gerente, eu precisaria conduzir calls, vender serviços, apresentar resultados, explicar procedimentos. Enfim, tudo em inglês. Me percebi completamente presa. Foi aí que eu comecei a pesquisar sobre estudar fora do país. Pensava que era a forma mais rápida de estudar, já que aqui no Brasil as pessoas ficam anos e anos estudando em escolas de línguas e, algumas, nem saem falando o idioma. Comecei a me interessar pela ideia, exatamente, um ano antes de eu embarcar. Nesse meio tempo, eu pesquisei sobre a Irlanda e a África do Sul, mas foi quanto uma amiga que já mora no Canadá veio passar uns meses no Brasil que eu parei pra olhar para lá. Ela me explicou como as coisas funcionavam e me deu várias dicas. Foi aí que eu resolvi o meu destino. Entre tirar o visto e ir, demorou seis meses. Eu fui por conta, então passagem, moradia, escola, fechei tudo separado e com muita pesquisa. Inclusive a escola eu fechei apenas quando cheguei lá no Canadá. Sobre grana, eu já tinha trabalhado em agências legais e com salários bons, então eu mesma tinha o meu próprio dinheiro para me bancar por lá durante o primeiro mês. Nos outros meses, para me bancar, eu trabalhei de faxineira.

VRP:  Você já tinha viajado para o exterior anteriormente? Para qual lugar e em qual ocasião?

Laura: Sim. Um ano antes, nas férias do trabalho, eu passei sete dias em Cancun, no México. Fui apenas para descansar e me divertir, então, nesta ocasião, não teve relação com estudo de língua. Apesar de que eu não falava espanhol, mas percebi que os sete dias lá já tinham feito uma boa diferença na minha compreensão da língua. Coisa que eu me preocupava muito antes de ter passado por isso na prática. Acredito que essa viagem me fez perceber o quanto vivenciar o idioma em um local que ele é nativo faz a diferença.

VRP: Quando viajou, você já tinha fluência na língua nativa? Percebeu alguma grande diferença entre o seu aprendizado no Brasil e a prática do idioma no país?

Laura: Essa é uma pergunta muito importante. Uma coisa que eu percebi quando cheguei lá, foi que o nível de inglês considerado pelas escolas do Brasil não são os mesmos níveis de inglês considerados pelas escolas lá. E, na verdade, nem pelas pessoas no dia-a-dia lá. Pelo que eu percebi, aqui no Brasil damos muita importância para a gramática. Então, você falando ou não, se a sua gramática não for boa, o seu nível será baixo. Lá, eles dão ênfase para a conversação. Para vocês terem noção, eu quis estudar gramática lá, e para isso, tive que sair da escola e fazer aulas particulares com uma professora brasileira. Por que até as professoras particulares canadenses não focavam na gramática, mesmo eu as pagando para isso. Essa diferença entre como estudar o inglês muda tudo. Vou contar um exemplo do que aconteceu comigo. Como eu estava muito tempo estudando sozinha antes de ir, eu não tinha com quem praticar a conversação. O listening praticava apenas com filmes e séries. Então, eu achava que eu não sabia falar.Claro, não falava com ninguém. E achava que não conseguia entender nada, já que os filmes e séries tem muita gíria, e isso pra mim foi um impeditivo. Quando eu cheguei lá, percebi que eu conseguia entender o que as pessoas falavam. Não todas as palavras, mas eu entendia o que elas estavam falando, sabe? E também descobri que eu sabia falar. No primeiro dia, eu já conseguia conversar com as pessoas. Fiz o teste na escola e adivinhem, na aula de conversação, fiquei no nível 9, sendo que o último era o 11. No Brasil, eu sempre estava no nível intermediário 1 ou 2. Então, começa por como eles enxergam a língua, por que isso faz com que as aulas sejam conduzidas de forma diferente. E, claro, para terminar, você ficar o dia inteiro ouvindo uma língua te ajuda muito a desenvolver. É absurdo! A minha impressão era que uma parte do meu cérebro estava apagado ou sendo muito mal usada antes de eu ir para lá. E que, o dia-a-dia, fez com que essa parte do meu cérebro começasse a funcionar. Depois de uns meses, algumas pessoas perguntavam se eu era canadense. Claro que em aparência poderia me passar por uma canadense e isso influencia, mas eu ficava muito feliz quando perguntavam isso, por que se eu falasse muito mal, ninguém ia pensar isso, certo? Bom, é isso que eu penso. E quando uma canadense me perguntou se eu era canadense? Acho que um dos dias mais felizes que eu tive lá. Rs Eu estava vendo resultados claros.

VRP: Por que optou por fazer o intercâmbio? Quais eram seus planos, sonhos e ambições com isto?

LAURA E SEU CONTATO COM A NEVE

Laura: Conforme falei, optei por fazer o intercâmbio por que precisava aprender o inglês rápido. Meus planos foram os seguintes. Eu chegar lá e ver se me adaptava em um mês, se sim, ficaria por seis meses. Se amasse muito, ficaria por um ano. Antes de ir, entre aquele um ano de pesquisa e planejamento da viagem, eu saí daquele emprego que estava me deixando doente e abri a minha própria consultoria. Como estávamos atravessando a crise, alguns meses eram bons, mas outros eram horríveis. Então, aproveitei para ir enquanto o país estava mal. A ideia era que eu voltasse quando o Brasil estivesse melhor e com uma língua no currículo. Lá, o primeiro mês foi um misto de dias ótimos e dias péssimos e eu quase desisti de ficar. Acabei ficando e, ao invés de ficar seis meses, fiquei nove. Não fiquei um ano por alguns motivos. Primeiro que eu não queria enfrentar o inverno canadense. Cheguei na primavera e saí no outono, literalmente pulei o inverno. Mas para vocês terem noção, mesmo assim, peguei -17º. O inverno lá pode chegar a -40º. Segundo, por que eu estava trabalhando lá com faxina. Tinham dias que eram tranquilos, mas tinham uns muito tensos. Eu não estava mais aguentando. Terceiro, a saudade da família e dos amigos estava absurda! Quarto, por que eu não fui sozinha. Fui com meu noivo. O negócio é que ele já tinha inglês, então ele saiu do trabalho dele aqui e foi pra lá me acompanhar. Ele não queria ficar mais lá também, então, conversamos e decidimos voltar quando completássemos nove meses. Voltei faz pouco tempo, em dezembro de 2016, então ainda não sei o quanto a língua vai fazer diferença na minha carreira. Por enquanto, o que eu já senti diferença foi em poder me candidatar em vagas que precisam do inglês e até conversar com um recrutador da Irlanda que precisava de uma pessoa para uma empresa dele aqui do Brasil. O que já é ótimo, né?!

VRP: Quais eram suas condições no exterior (onde morava, onde estudava, como se locomovia, comia, fazia amizades etc.)?

Laura: Eu morei em Toronto, no Canadá. Antes de ir, como não conhecia a cidade e a minha amiga errou nos cálculos dos aluguéis, acabei alugando um quarto bem longe do centro. Era uma hora e meia do centro. O problema foi que eu trabalhava e estudava mais para o centro e estava frio quando eu cheguei, então foi bem desgastante morar longe. Depois fui para um lugar bem pertinho do centro e do lado do metrô e era ótimo. Sobre os estudos, eu tive algumas fases lá. No primeiro mês, decidi estudar em escolas dentro de igrejas, por que elas eram de graça. Mas como as aulas eram muito básicas, acabei desistindo e entrando em uma escola mesmo. Na escola, fiquei cinco meses. Foi muito boa para o desenvolvimento da minha conversação, do meu listening e do meu vocabulário. Depois, senti falta da gramática, saí da escola, e fiz aulas particulares. Tentei estudar com uma canadense, que era ótima, mas focava na conversação e não na gramática. E, depois, estudei com uma brasileira, que me dava aulas exclusivamente de gramática. As aulas particulares duraram dois meses. Eu me locomovia lá apenas com transporte público, ônibus, metrô, trem e streetcar (mais ou menos um trólebus). Eu pagava por um cartão mensalmente que me dava direito de andar de transporte público, dentro de Toronto, o quanto quisesse e precisasse. O transporte lá era não era veloz, mas como não tinha transito, passavam frequentemente. Porém, falando em estrutura, os de SP humilham os de lá. Em relação a comida, eu cozinhava todo santo dia. O que eu ganhava como faxineira era o suficiente para eu ter uma vida básica boa, mas pequenos luxos era quase zero. Então eu não conseguia, por ex, comer fora mais de duas vezes por mês ou ir a shows, teatros etc. No mercado, só comprava o que eu precisava para comer, nada de comprar besteiras a mais, e era sempre a marca do mercado pra economizar. Então dos nove meses que eu fiquei lá, nunca almocei fora em dia de trabalho. Levava marmita todo santo dia. Alias, eu tinha uma bolsa térmica que eu levava snacks para eu comer de três em três horas e não ter que gastar na rua. A comida, em geral, não era boa. Nem pra cozinhar, por que os ingredientes e os temperos também não eram bons. Incluo aqui as comidas de restaurantes, não teve nenhum lugar que eu comi e pensei, nossa que maravilhoso! Tudo era bem normal em questão de sabor. Já sobre as amizades, fiz algumas na escola e o meu noivo fez algumas no trabalho, mas a gente era bem reservado. Todo lugar que a gente ia, as pessoas nos diziam para não confiar em ninguém, principalmente nos brasileiros, e não contar nada sobre as nossas vidas pessoais. As pessoas diziam “não confie nem em mim”. Então era um ambiente bem complicado falando em amizades. As amizades que fiz foram com mexicanos, japoneses, coreanos e canadenses.

VRP: Você se sentiu bem acolhida pelos nativos do país? Por quê?

Laura: Sim, muito! Os canadenses são muito educados e gentis. Por que a pessoa pode ser educada, mas pode ser fria, né?! Mas os canadenses, não. Eles são muito gentis. Eles até te abordam perguntando se você precisa de ajuda na rua. Eles falam sorrindo, te ajudam até você conseguir o que precisa. Não te largam na rua perdido só por que deram uma resposta. Vou colocar alguns exemplos também. Uma vez estava procurando um mercado. Entrei no ônibus e perguntei onde era o mercado, como era a primeira vez que eu estava pegando um ônibus, o motorista viu que eu estava perdida. Ele deixou eu pagar menos, por que viu que eu não tinha troco, me ensinou a ir certinho e não saiu com o ônibus até ver que eu estava com uma cara de quem tinha entendido bem. Hahahhahaha Outra vez eu estava no mercado comprando um carrinho de compras. É como um carrinho de feira, mas encapado. Como eu não tinha carro, levava esse carrinho pra não ter que carregar tudo na mão. Eu estava lá, olhando os preços, abrindo os carrinhos pra ver o tamanho e talz e uma senhora se aproximou. Ela disse pra eu não comprar lá, pra eu ir no próximo quarteirão, em tal lugar, me ensinou a chegar lá certinho, e disse que eu pagaria metade do preço. Ficou lá me explicando como era o carrinho, como era a loja, como eu chegava lá. Isso sem eu nem pedir nada! E uma outra vez estava procurando um lugar. Eu estava andando pela calçada meio perdida, olhando para os lugares. Aí um segurança abre a porta de um shoppinzinho e diz, vocês estão procurando algo que está aqui dentro? Na verdade, não estava lá. Rs Mas a gente se sentiu melhor, por que ficar perdido, no meio da neve e sem saber nem onde você está é péssimo. Porém, apesar de tudo isso, os canadenses não são de fazer amizades. Eles são educados, gentis e só. Se você tentar se aproximar, eles fogem. Eles não gostam de aproximação e de fazer amizades. Agora, algo muito importante aqui, é que em Toronto tem pessoas do mundo inteiro! São mais de quarenta línguas faladas lá. Então, você vê gente do mundo inteiro o tempo todo. Acaba que você vê mais estrangeiros do que os canadenses pelas ruas. Então você depende da cultura de cada um sobre como você vai ser acolhida, sabe? Na real, vi e vivenciei algumas situações desagradáveis de pessoas mal educadas. Mas, de forma geral, as pessoas são educadas.

VRP:  Como interpretou a questão da diferença cultural? Pode me dar exemplos das maiores diferenças de hábitos e cultura com relação ao Brasil?

JOGO DE HÓQUEI

Laura: Como eu disse, a diversidade cultural em Toronto é enorme. Toronto é a segunda cidade mais multicultural do mundo (a primeira é Nova Iorque e SP é a quinta). Então cultura diferente foi o que eu mais vi e vivi. Rs. De modo geral, tenho alguns pontos pra contar que diferenciam do Brasil, mas que aconteciam de forma generalizada. Lá não tem ladeira, portanto, não tem degrau. Isso faz com que os cadeirantes andem tranquilamente pelas ruas da cidade.  Os carrinhos de bebes cabiam duas, três crianças, até quatro. E como tudo era plano e os transportes públicos estruturados para transportar esses carrinhos, você via pela cidade toda também. Quem também podia entrar nos transportes públicos eram os cachorros. Aliás, algo comum lá era adestrar todos os cachorros. Eles não latiam, não pulavam e te davam até licença no ônibus quando você passava. Eu achava meio estranho o cachorro não poder ser cachorro. As crianças também não eram muito crianças, elas eram tratadas como adultos. Os adolescentes, ahh esses sim, são iguais em qualquer lugar do mundo, vou te contar, viu?! Rs O Canadá tem uma postura de não deixar pessoas com problemas psiquiátricos presas dentro dos hospitais,eles acreditam que todos precisam conviver e respeitar as diferenças, então eles, literalmente, abriam as portas dos hospitais e você via pessoas falando sozinha e fazendo coisas fora do normal uma em cada esquina. Sério. Não tem criança e nem cachorro de rua. Lá é proibido. Mas tem esquilo, gambá e guaxinim. Não pode beber na rua. Nos bares e baladas só se vende bebida até às 2h da manhã.Não tem nada alcoólico vendendo no mercado, se você quiser, tem que ir na loja que só vende bebidas alcoólicas. Se você estiver ficando bêbado no bar eles param de te vender e se você estiver muito alegrão na balada eles te mandam sair. As pessoas lá são bem famílias. Você via famílias andando juntas pela cidade inteira. Eles usam o parque para fazer pique niques e churrascos todos os dias. É um hábito bem comum deles. Aliás, eles são bem muquiranas, então eles levam sacola no mercado pra não precisar pagar, levam marmitinha aonde vão e economizam o máximo que podem. Os restaurantes nunca estavam lotados e não tinha muita variação de preços. Ou eram os bem baratinhos, ou era tudo na média. Como eles gostam de economizar, todos os restaurantes deixam os menus com os preços de tudo na porta do lado de fora. Os restaurantes fechavam por volta das 23h. Todos. Exceto os 24 horas, claro. Como o canadense não é muito consumista, quem frequentava shopping era estrangeiro. E shoppings de bairros, fechava seis da tarde no sábado e nem abria no domingo. Eles não tem varal lá, provavelmente, por conta dos muitos meses de frio, então todo mundo tem uma lavadora e uma secadora. A loja de um real deles é frequentada por todo mundo (se chama Dollarama). Quase toda esquina tem uma placa de pare, nos bairros residenciais, e todo mundo, realmente para. Mesmo sem pedestre esperando para atravessar. A mulher é, extremamente, respeitada. Ninguém olha para uma mulher lá. Se um carro mexer com uma mulher e ela anotar a placa, o cara vai preso caso ela tenha se sentido insegura. De qualquer forma, eles também brigam no transito (com um transito super ok, imagina eles em SP), também brigam no ônibus (e o ônibus quando está cheio, o motorista não deixa mais ninguém entrar, então nem lota), jogam lixo no chão (acredita?), as pessoas com um pouco mais de dinheiro aumenta o preço dos aluguéis em seus bairros pra pobre não morar lá, quem só usa carro odeia as ciclofaixas e adolescentes falam gritando, ouvem música alta no transporte público e são irritantes.

VRP: Qual foi a sua sensação ao retornar para o Brasil?

Laura: Eu estava muito ansiosa para voltar para o Brasil. Estava feliz por ter alcançado meu objetivo e ainda ter conseguido viajar e conhecer outros lugares também. Estava meio apreensiva, mas muito feliz. O primeiro mês foi só festa. Eu estava com muita saudade, então tudo o que eu via ou vivia era muito incrível pra mim. Eu voltei uma pessoa diferente, todas as experiências que eu passei lá me fizeram ver as coisas e ver eu mesma de uma forma nova. Então, foi muito bom voltar e experimentar tudo sendo a nova Laura. Rs Depois de um mês comecei a querer morar sozinha de novo. Eu nunca tinha morado sozinha antes do Canadá e, depois que voltei para o Brasil, o meu noivo e eu tivemos que voltar para nossas casas. Então depois de passar nove meses juntos, tivemos que nos separar. Fora isso, a questão de cuidar da própria casa tem um gostinho muito bom, e eu comecei a sentir falta. Acho que isso também me fez ficar com muita saudade do Canadá. Não saudade a ponto de voltar pra lá, saudade no sentido de lembrar muito de tudo e sentir um quentinho no coração. Rs Mas eu amo muito o Brasil, então eu me sinto muito bem aqui. Ouço muita gente dizendo que volta não querendo mais morar aqui, mas pra mim não rolou isso. Foi muito bom ter chegado aqui. Me sinto em casa, confortável e feliz. Agora um paralelo, que até hoje as vezes eu estranho, é que lá no Canadá eu prestava muito atenção na conversa das pessoas na rua. Fazia isso para treinar listening mesmo. No começo, eu não conseguia entender. Só entendia quando a pessoa falava diretamente pra mim, se não era muito difícil. Depois comecei a entender quando prestava muito atenção. E, com o tempo, comecei a conseguir entender sem me esforçar. Então, as pessoas falando pelas ruas era algo que chamava muito a minha atenção. Por isso, acho que eu desenvolvi uma mania de prestar atenção rs e ainda hoje (ok que eu voltei apenas há três meses) estranho ouvir as pessoas falando em português.

VRP: Ainda mantem um relacionamento com os gringos? Como é essa relação hoje?

Laura: As pessoas estão no meu Facebook, então, eu falo com elas pelos comentários ou por inbox. Eles me contam como estão as coisas por lá e eu mostro como é o Brasil para eles. Gravo vídeos, tiro fotos, conto histórias. Mas imagino que seja uma coisa que vai diminuindo com o tempo, assim como qualquer amizade que a gente perde contato. Acredita que vamos manter o contato um do outro pra sempre, mas conversar frequentemente, acho que não diminuir mesmo.

VRP:  Quais foram as maiores dificuldades enfrentadas no país?

Laura: Eu listo duas como sendo as principais dificuldades: saudade e trabalho. Eu sou uma pessoa muito apegada. Então a saudade foi muito grande. Eu chorava sempre. Perdi as contas de quantas vezes eu chorei de saudade. Também tinha medo por conta da minha vó que já tem idade avançada, então isso me deixava com o coração apertado e me fazia chorar. Perdi datas importantes e simbólicas, como o aniversário de 50 anos da minha mãe, os 90 da minha vó, o 1º ano de um dos meus sobrinhos e afilhado e os 10 anos do meu outro afilhado. Então, quando rolavam esses eventos, eu sofria. Rs Aí o problema de não poder confiar nas pessoas e não poder fazer amizade com qualquer pessoa também contribuía para a saudade ser enorme. Por que eu não conseguia suprir. Não poder contar da sua vida, não poder falar do que você sente e tudo mais é muito complicado pra mim. Ainda mais pra mim que estava com tanta saudade das pessoas. O trabalho, vou ser extremamente clara, eu não podia ter trabalhado lá. Eu poderia morar e estudar, mas trabalhar, não. Então, essa situação de você trabalhar ilegal te deixa em uma situação quase que como uma escrava. Claro que, ainda bem, em Toronto tinham muitos empregos, então eu podia tentar mudar de empresa e tudo mais, mas você ficava impotente de certa forma. Você não tinha pra quem reclamar, não podia reclamar na verdade, e muita gente se aproveita disso para fazer mal para as outras pessoas. Então, as piores situações que eu passei por lá foram por causa do trabalho. Não foram nem um pouco legais. Mesmo algumas vezes eu me negando a ir a algum lugar e mudando de emprego, eu ainda assim estava descoberta de segurança. Olhando para trás, não me arrependo, mas sei que uma pessoa com dinheiro para se bancar lá o tempo todo sem precisar passar por isso, vai ter uma vida bem mais fácil e tranquila.

VRP: Faria intercâmbio de novo? Por que, para onde e por quanto tempo?

Laura: Faria, com certeza. Peguei um gosto por aprender línguas, que ninguém imagina. Como eu disse antes, parece que uma área do meu cérebro que estava apagada se acendeu. Em Toronto, eu estudei apenas inglês, mas como tinha contato com pessoas que falam espanhol, acabei aprendendo sem esforço algum. Antes de voltar para o Brasil, fui para Cuba, eu estava em Cuba quando o Fidel faleceu, o que me fez assistir muito a televisão para acompanhar o que estava rolando. Fiquei impressionada por entender TUDO o que era falado na televisão. Não estudei espanhol nem um dia se quer da minha vida e, do nada, estava entendendo tudo o que era falado. Em um passeio que fiz pelo Canadá, que conhecemos lugares andando de ônibus por quatro dias. Nesses quatro dias, dois italianos sentaram do meu lado. Eu entendia, praticamente, tudo o que eles falavam. E, quando fui para as cidades francesas, não conseguia entender quando as pessoas falavam, mas quando eu lia as placas nas ruas, parecia que eu estava lendo em português. Claro que são línguas similares em vários pontos com o português, mas como antes eu não conseguia entender, praticamente, nada, pra mim isso foi muito importante. Então, eu tenho muita vontade de aprender várias línguas agora. Já pensei em passar um mês em um país da América do Sul, para aprender espanhol, já comecei a estudar italiano sozinha e tenho vontade de ir para a Itália praticar e, claro, ainda quero aprender francês, que sempre foi meu sonho. A ideia não é morar muito tempo, apenas um tempo para praticar a língua mesmo. Então, não tenho planos exatos, mas são vontades, que provavelmente, tomaram forma em breve.

VRP:  O que essa experiência acrescentou à sua vida?

Laura: Nossa, não sei nem por onde começar. Rs Eu voltei com uma língua nova, com noções de outras línguas, com novas ambições, uma nova pessoa, um novo olhar para o mundo e para a minha vida, morei sozinha pela primeira vez, morei com meu noivo pela primeira vez, trabalhei com faxina pela primeira vez, conheci pessoas do mundo inteiro, mudei de rotina, reorganizei minha vida, resgatei valores que estavam dormindo, conheci e vivi novas culturas, superei todos os desafios. Eu posso ficar aqui listando por umas boas horas, mas vou me limitar a essas e deixar um recado, se você puder, faça um intercâmbio!

VRP: E como comunicador, qual foi o “peso” do intercâmbio na sua vida acadêmica e profissional? Exemplifique.

Laura: Aproveitando a deixa, eu vou comentar sobre o mercado de comunicação em Toronto. Como eu estava com a minha consultoria quando eu fui para lá, tentei dar continuidade atendendo os clientes do Brasil. Como não consegui nenhum job fixo ou a longo prazo, tinha que trabalhar na faxina de qualquer forma, para ter um dinheiro fixo todo mês para pagar as contas. Então acabei deixando a consultoria de lado, por que ganhar em reais e gastar em dólar não era uma opção. Ainda mais se eu trabalhava 8 horas por dia na faxina e ainda fazia inglês a noite. Que horas iria fazer o trampo da consultoria se ainda tinha que cozinhar, lavar roupa, arrumar a casa, ir ao mercado e etc? Depois de desistir da consultoria, tentei entrar em contato com agências de lá. As maiores agências de Relações Públicas estão em Toronto. Entrei em contato com todas! Agências e faculdades. Queria bater um papo, falar do mercado, contar sobre o mercado do Brasil, enfim, conversar e conhecer as agências e um pouco dos cursos. Mas não tive abertura nenhuma. Zero! Para trabalhar na área lá, é preciso validar o diploma, com isso, é preciso estudar lá de novo. A experiência brasileira não vale nada. Então, um gerente com anos de experiência no Brasil, chega no Canadá e começa como estagiário de novo. Assistente e assim vai. Pra mim, que já tinha muito tempo de experiência e anos de estudo, não valia a pena jogar tudo fora e começar de novo. Mesmo por quê a faculdade lá é caríssima, você paga pro semestre e o governo tem que ver que você tem MUITO dinheiro para permitir que você faça uma faculdade lá. Então, acho que quem quer ir para lá trabalhar na área e ficar morando lá, vai logo, não espera muito, por que depois é ruim jogar todo o seu esforço no lixo pra começar de novo. Sobre a minha vida acadêmica e profissional, no Brasil, ainda estou sentido já que voltei faz pouco tempo. Mas já vi a diferença, por exemplo, para estudar. Agora eu entendo qualquer palestra e qualquer texto em inglês. E, como eu disse, na busca por uma vaga bem legal, já tive entrevista com gringo e tive que falar inglês em várias entrevistas.

VRP: Alguma dica extra para os intercambistas iniciantes? 

Laura: Sim, entre em grupos do Facebook. O máximo que você puder e pergunte tudo o que você quiser à vontade. Às vezes, o pessoal dos grupos não gosta das perguntas, mas não se intimide e continue perguntando. Faz muita diferença. Estude muito, não apenas na escola, estude o dia inteiro! O máximo que você puder. Eu lia jornal todo dia (no começo demorava 20 min para ler uma coluna pequena, por que eu não tinha muito vocabulário, depois em meia hora lia o jornal inteiro), eu assistia muita palestra em inglês no Youtube, prestava atenção nas conversas na rua, ouvia BBC durante o trabalho para treinar o listening com as entrevistas, fazia vários exercícios de gramática em casa mesmo sem o professor pedir e fazia testes de inglês online frequentemente, principalmente, de escolas do Brasil para ver o meu nível comparado com o Brasil. Esses estudos extras me ajudaram muito, eu consegui subir um nível (listening, gramática, vocabulário) por mês estudando além do que as aulas pediam. Uma venezuelana que eu conheci lá chegou falando apenas hello e, em um ano e meio, ela já tinha inglês suficiente para entrar na faculdade. Isso por que ela estudava o dia inteiro, saia da escola e ia para a biblioteca estudar mais.

VRP:  Fique à vontade para acrescentar qualquer coisa que não tenha falado anteriormente.

Laura: Muita gente vai para fora do Brasil e não tem foco em aprender a nova língua. Vai para mudar de vida ou para viver a experiência de morar em um lugar novo. Isso faz com que essas pessoas aprendam o básico da língua, o suficiente para conseguir viver, e empacar. Aí essas pessoas têm dificuldade para conversar com um nativo. É preciso ter cuidado, pois algumas pessoas ficam um pouco deslumbradas com as novas vivencias e deixam os estudos de lado. Eu vi pessoas que estavam morando lá três, dez, trinta anos e não falavam inglês direito. Também já ouvi falar de muita gente que passa um tempo fora e volta sem saber falar, por que não teve foco. Apesar do foco, se dê um descanso as vezes. Eu percebia que quando eu tinha um dia de folga do estudo, eu estava com a língua mais fresca na minha mente. Acho que o cérebro precisa de um tempo para respirar, assimilar as informações e armazenar certinho. Então, é preciso ter foco, mas também dar tempos estratégicos entre os estudos. Uma outra dica é observar tudo o que acontece a sua volta. Assim, eu acredito que a gente sai do automático, consegue analisar tudo o que acontece de diferente e consegue absorver como aprendizado. Importante sempre respeitar as pessoas diferentes de você. Vi muita gente se sentindo melhor do que outras e isso sempre era um problema para a pessoa e para quem estava em volta. Inclusive, as pessoas mais preconceituosas eram as pessoas que também sofriam preconceito, Por exemplo, brasileiro falando de indiano, mexicano falando dos filipinos e por aí vai. Nada a ver! Muito importante, tire foto e filme tudo! Quando você voltar para o Brasil e te der saudade, você vai amar ver tudo isso. Intercambio parece uma coisa de gente com muito dinheiro e você pode pensar que não é pra você, mas a minha dica é, pesquisa, vá atrás, por que é possível, sim!

Caso queira seguir a Laura, segue seus contatos:

www.facebook.com/laura.vbg

www.linkedin.com/in/lauravillasboas/

laura_vbg@hotmail.com

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