#19 Mudei de país, e agora?

A moça convidada para compartilhar a experiência nesse mês é a queridíssima Marina Faria. Essa inteligente menina já foi nossa colaboradora, a primeira a escrever no Versátil RP depois de mim e da Taís. É uma honra ler seu relato Marina.

VRP: Para qual país você foi? Quanto tempo ficou lá? Quando a viagem aconteceu?

Marina: Eu vim pra Irlanda em 2014. Vim para fazer um curso de 6 meses de inglês, tentar ganhar um dinheiro e viajar. No meio do caminho eu vi a possibilidade de conseguir um trabalho na área de comunicação então eu estou aqui até agora, completando 3 anos já.

VRP: Como conseguiu a oportunidade?

Marina: Eu estava terminando a faculdade e percebia quantas possibilidades eu estava perdendo por não falar inglês. Então eu pesquisei diversos países para ir estudar inglês, montei quase uma análise SWOT deles e decidi pela Irlanda. Eu tinha R$64 em poupança em 2013, e então comecei a economizar ao máximo o meu dinheiro e achar formas de ganhar algum extra.

VRP: Você já tinha viajado para o exterior anteriormente? Para qual lugar e em qual ocasião?

Marina: Eu já tinha ido ao Peru e Chile, além de um intercâmbio de 3 meses na Argentina fazendo trabalho voluntário na área de comunicação pela AIESEC.

VRP: Quando viajou, você já tinha fluência na língua nativa? Percebeu alguma grande diferença entre o seu aprendizado no Brasil e a prática do idioma no país?

Marina: Eu tinha um conhecimento bem básico, eu conseguia sobreviver falando inglês, mas era bem sofrido. Eu vi um salto imenso no meu conhecimento do idioma já nos primeiros meses. Acredito que o grande diferencial é que aqui você não tem a opção de não falar inglês então você vai se virando e aprendendo no dia a dia. Enquanto no Brasil você não é forçado do mesmo jeito, é mais cômodo.

VRP: Por que optou por fazer o intercâmbio? Quais eram seus planos, sonhos e ambições com isto?

Marina: Meu plano era ser capaz de participar de uma reunião em inglês, escrever um e-mail, entender um artigo. Como eu já tinha sentido a diferença de estudar espanhol no Brasil e viver o idioma na Argentina, eu sabia que o intercâmbio era o melhor jeito de realizar isso. Além do fato de querer viajar e conhecer outras culturas, que é tão enriquecedor quanto aprender um novo idioma.

VRP: Quais eram suas condições no exterior (onde morava, onde estudava, como se locomovia, comia, fazia amizades etc.)?

Marina: Eu morei 2 semanas em uma acomodação estudantil bem longe do centro, depois 10 dias na sala de um amigo, e então eu e meu namorado fomos morar em uma casa junto com uma Irlandesa, ficamos lá por 1 ano. Depois disso fomos morar apenas nós dois em um apartamento e é onde moramos até hoje. Quando chegamos aqui, havia uma crise de várias escolas de inglês fechando e a nossa escola foi uma delas. Felizmente havíamos fechado tudo com uma agência de intercâmbio no Brasil e eles foram obrigados a nos enviar a outra escola, que era bem melhor do que a que tínhamos pagado inicialmente. Como a grana era curta, tínhamos um planejamento financeiro bem restrito e fazíamos as nossas compras semanais bem certinhas com as 28 refeições por semana, íamos a vários mercados diferentes pra economizar centavos preciosos. Fazíamos tudo andando, a cidade é relativamente pequena então até hoje ainda andamos muito. Vida social é parte mais difícil de fazer intercâmbio na mina opinião. Eu tive a sorte de vir com meu namorado, mas ouço muitos casos de solidão por aqui, fazer amizade quando adulto é mais difícil do que parece. Você vai conhecer muita gente, vai a festas e baladas, mas amizade mesmo demora um tempo pra criar.

VRP: Você se sentiu bem acolhida pelos nativos do país? Por quê?

Marina: De um modo geral sim, os Irlandeses são muito legais, a maioria bem humorados e curiosos com outras culturas. Claro que eles têm a cultura deles e às vezes os achamos frios, mas isso é apenas um ponto de vista. Eu já ouvi falar de casos de preconceito contra brasileiros aqui, mas eu mesma nunca presenciei.

VRP: Como interpretou a questão da diferença cultural? Pode me dar exemplos das maiores diferenças de hábitos e cultura com relação ao Brasil?

Marina: A forma como você cumprimenta as pessoas é diferente. No Brasil você vai dar abraço e beijo em todas as 20 pessoas da mesa, aqui você faz isso apenas com amigos de longa data, vai dar a mão para as pessoas mais próximas e apenas acenar para as outras. E a saída à francesa, ou Irish Goodbye, é super comum por aqui também. Outra coisa seriam os hábitos alimentares, a maioria das pessoas almoça um sanduíche algo simples, enquanto nós queremos aquele pratão de comida.

VRP: Qual foi a sua sensação ao retornar para o Brasil?

Marina: Eu ainda moro aqui, mas tenho o privilégio de conseguir ir ao Brasil uma vez por ano e é sempre maravilhoso. Eu amo o nosso país e quero voltar um dia, mas acredito que ainda valha a pena ficar aqui uns 2 ou 3 anos. Isso no sentido de guardar dinheiro e ter mais progressão na carreira aqui.

VRP: Quais foram as maiores dificuldades enfrentadas no país?

Marina: As maiores dificuldades na Irlanda foi reconstruir uma vida social, financeira, espiritual e me estabelecer profissionalmente. Você é uma nova pessoa aqui, sem histórico ou referência, é preciso reaprender tudo.

VRP: Faria intercâmbio de novo? Por que, para onde e por quanto tempo?

Marina: Eu não faria porque acho que já foi suficiente para mim, digo intercâmbio estudantil. Eu me mudaria sim para outros países, mas ai seria mais na pegada de me mudar para trabalhar. Ainda sou jovem e há muito mundo a ser explorado ainda.

VRP: O que essa experiência acrescentou à sua vida?

Marina: Pelas dificuldades no começo, hoje eu entendo que resiliência é uma característica minha e não mais uma palavra bonita. Eu vivi momentos em que eu queria, mas não tinha opção de desistir, então todas as noites eu botava a cabeça no travesseiro pensando no que mais eu poderia fazer para os meus sonhos darem certo. Hoje é muito difícil uma dificuldade me abalar. Em termos profissionais, apenas o inglês fluente já é sensacional, mas como eu tenho trabalhado aqui na área de comunicação essa experiência é ainda mais enriquecedora. Vamos ver o que o mercado acha quando eu voltar.

VRP: E como comunicador qual foi o “peso” do intercâmbio na sua vida acadêmica e profissional? Exemplifique.

Marina: Como comunicadora eu vejo que há uma diferença bem grande de mercado entre os países e que o Brasil é um país exemplo na área de comunicação, é muito avançado e adere novas tecnologias com facilidade, algo não tão comum aqui. Por exemplo, quando eu trabalhava aqui em uma agência de publicidade, o dono da agência achava que campanhas de remarketing era o suprassumo dos anúncios. No Brasil isso é apenas uma partezinha das campanhas de marketing digital.

VRP: Alguma dica extra para os intercambistas iniciantes?

Marina: Para quem quer fazer intercâmbio minha dica é: faça! Pesquise muito, entenda as suas possibilidades, economiza uma grana e vá. É muito mais possível do que parece. Se você me dissesse que um dia eu moraria fora trabalhando na minha área e viajando a cada 3 meses, eu ia achar que você estava me zuando. Reconheço os privilégios que tive, como ter feito uma faculdade boa (thanks Prouni), ter tido que ajudar financeiramente minha família apenas brevemente, meus avós terem imigrado de Portugal me dando direito a cidadania. Mas mesmo assim, eu vim de colégio público lá da zona sul de São Paulo e tô aqui. Então planeja que dá pra fazer sim.

VRP: Fique à vontade para acrescentar qualquer coisa que não tenha falado anteriormente.

Marina: Apenas quem vive sabe o valor que essa experiência tem. Eu sou muito grata a esse país, as possibilidades que a vida me deu e o quanto meu horizonte se ampliou. Sinto que sou um ser humano melhor depois de tudo o que vivi e vivo aqui.

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