#23 Mudei de país, e agora?

A experiência desse episódio da nossa série, vem do Japão. Acompanhe os prazeres e as dificuldades de viver na terra nipônica visto pela ótica Érica Bassi.

Aeroporto – Japão – Partida

VRP: Para qual país você foi? Quanto tempo ficou lá? Quando a viagem aconteceu?

Érica: Japão. Morei na cidade de Ushiku. Trabalhei numa cidade vizinha, Tsukuba. Fiquei lá de abril de 2008 à março de 2009.

Fomos em família: eu, marido e filha para trabalhar e juntar dinheiro, como muitos brasileiros com descendência nipônica fazem, além de reencontrar a outra parte da família: sogro, sogra e cunhado, que já moravam lá desde 2005 numa cidade vizinha: Mitsukaido. Todas as cidades mencionadas localizam-se na província de Ibaraki.

VRP: Como conseguiu a oportunidade?

Érica: Primeiramente, foi meu cunhado em 2003. Posteriormente, meus sogro e sogra em 2005, e por fim eu, marido e filha em 2008. Todos nós fomos via empreiteira e agência de empregos no Japão, que intermedeia a mão de obra, passagens aéreas, visto e moradia que depois, descontam o valor total em parcelas em nossas folhas de pagamento de salário. Eu e meu marido trabalhávamos na linha de produção da Canon fabricando tonners de impressora. Meu cunhado já trabalhou em autopeças, usinagem, eletrônicos e atualmente é cuidador de idosos. Meus sogro e sogra trabalharam em indústria alimentícia e na empreiteira que os contratou.

Cunhado Shigeru Jr. Cunhada Satchyo e sobrinho Ren

VRP: Você já tinha viajado para o exterior anteriormente? Para qual lugar e em qual ocasião?

Érica: Sim. Somente quando tinha 15 anos como turista. Presente de aniversário. Disney. Passei por Miami e Orlando nos Estados Unidos.

VRP: Quando viajou, você já tinha fluência na língua nativa? Percebeu alguma grande diferença entre o seu aprendizado no Brasil e a prática do idioma no país?

Érica: Não. Estudei quase um ano num centro de estudos de língua e cultura japonesa: Bunkyo de Jacareí/SP, cidade onde moro. Praticava um pouco de conversação, aprendi um pouco de gramática e decorei na época o básico da escrita: hiraganá e katakaná.

Conseguia me locomover pela cidade e pedir informações básicas como quanto custa tal coisa, onde fica tal lugar, pra qual direção e o horário de funcionamento dos estabelecimentos comerciais e públicos. Uma frase-chave me ajudou muito:

_Kore wa nihongo de nan desu ka (O que quer dizer isto em japonês)?

Meu sogro era japonês. Veio ao Brasil com a família quando tinha 11 anos de idade. Ele falava e escrevia fluentemente. Meu cunhado que não sabia nada, foi aprendendo “na raça”, isso sem contar que a empreiteira disponibilizava em consultas médicas e autarquias públicas, funcionários brasileiros que serviam de intérpretes. Meu sogro fazia esse trabalho.

Muitos brasileiros se acomodavam com essas facilidades da empreiteira resolver tudo e não aprendiam o idioma. Senti dificuldade. A língua japonesa é complexa, sobretudo a escrita. Há o coloquial, o polido e as gírias. Há diferenças na fala do jovem, da pessoa mais humilde e do adulto mais idoso e culto. Meu cunhado é casado com japonesa. Ainda não consigo conversar muito com ela sem precisar de alguém pra traduzir. Muitas vezes me sentia analfabeta com os kanjis. Até conseguia ler os hiraganás e katakanás. Me sentia muito mais segura lendo informações em inglês. Até que aprendemos bastante com o revezamento entre japonês e português.

Todas as prefeituras disponibilizam cursos de curta duração, de 10 aulas semanais, a um preço bem acessível a estrangeiros. Após o prazo, ficava sujeito a vagas disponíveis para quem quisesse estender o aprendizado. O livro que utilizei lá foi o mesmo que estudei aqui: “Minna no Nihongo“.

VRP: Por que optou por fazer o intercâmbio? Quais eram seus planos, sonhos e ambições com isto?

Érica: Como muitos brasileiros, sonhávamos em guardar dinheiro e realizar projetos no Brasil. Ou ainda, conforme fossem as condições de trabalho e vida, cogitávamos morar no Japão. Eu pretendia guardar dinheiro para cursar uma pós graduação aqui, comprar carro e reformar a casa. No entanto, me deparei com minha primeira grande frustração: perdemos nossos empregos (eu e meu marido) em janeiro de 2009. A crise de outubro de 2008 que afetou estados Unidos e Europa nos atingiu em cheio, já que eram os principais mercados consumidores de eletrônicos. A linha de produção fechou. Foi uma época em que uma “enxurrada” de brasileiros voltou. Quitamos nossas dívidas da ida, ao menos, porém quando iríamos começar a pensar em poupança, ficamos sem trabalho. Estava difícil conseguir recolocação e eu não queria me arriscar muito, sobretudo porque pensava em não prejudicar o ano letivo de nossa filha Sophia que estudava em escola brasileira lá e poderia retomar seus estudos aqui.

VRP: Quais eram suas condições no exterior (onde morava, onde estudava, como se locomovia, comia, fazia amizades etc.)?

Érica: Morávamos em um apartamento em que no prédio moravam muitos brasileiros, alugado pela empreiteira com alguns itens básicos já prontos para uso: geladeira, fogão, TV, máquina de lavar roupas, cortinas, futons (os acolchoados que servem de colchão para dormir). O restante nós compramos e também ganhamos muita coisa.

O aluguel, o gás e a eletricidade eram descontados no pagamento do marido.

A empreiteira mandava micro-ônibus fretado para nos levar e trazer de casa ao trabalho e vice-versa. Nossa filha estudava em escola brasileira e particular, também arranjada pela empreiteira. Eu e meu marido dividíamos as despesas e se passássemos algum aperto, nossa família nos ajudava.

Quanto às amizades, a tendência era de nos fecharmos em uma “colônia” de brasileiros. Procurar pessoas que falassem português e explicasse como as coisas funcionam num primeiro momento, era uma necessidade, mas ficar nesse círculo acaba tornando comodismo.

Eu, num japonês precário, procurava puxar assunto com dois dos japoneses da linha de produção: o Takita san e o Kohda san. O primeiro era bastante extrovertido e se enturmou com o pessoal. O segundo, mais reservado e observador, mas percebi como gostavam de estar entre os brasileiros. Isso sem contar que nos curtos intervalos para descansar e ir ao banheiro, eu encontrava uma faxineira muito gente boa, uma senhorinha, também curiosa sobre os brasileiros. No geral, os japoneses são bastante reservados e até um tanto frios. Abraços e beijos, nem pensar! Era muita intimidade. Só entre namorados. No entanto, são extremamente respeitosos e educados.

VRP: Você se sentiu bem acolhida pelos nativos do país? Por quê?

Érica: Entre a família da esposa do meu cunhado, sim. Na fábrica, não muito. Na cidade no geral como em comércios, nem sempre.

Entre a família, fomos nos conhecendo aos poucos. Passeamos muito e tivemos um jantar de despedida.

Na fábrica, tirando alguns japoneses que trabalhavam diretamente com a gente, alguns chefes e operários de outras linhas de produção, não gostavam muito da gente. Às vezes, quando entrávamos numa sala para comer, um grupinho se incomodava com nossa presença e se retirava do ambiente, comentando algo assim: _. Olha lá os americanos!

Érica e família

O preconceito existe. Sei que em algumas escolas japonesas tem bullying contra brasileiros. Mas acredito que isso varia de pessoa para pessoa e do quanto são instruídos ao nosso respeito.

VRP: Como interpretou a questão da diferença cultural? Pode me dar exemplos das maiores diferenças de hábitos e cultura com relação ao Brasil?

Érica: Acho que não só lá como em diversos países, o Brasil é muito pouco conhecido. Pensam que moramos numa floresta, numa selva e mal sabem onde fica.

Os japoneses são perfeccionistas. E se culpam muito quando algo dá errado. Me lembro que diante das demissões em massa, quando nossos dias estavam contados para deixarmos a fábrica, muitos deles andavam cabisbaixos, como se tivessem alguma culpa por não conseguirem evitar esse desemprego. E eles não estavam preparados para lidar com um problema social iminente. Ao contrário, falar de crise econômica com brasileiros, é como se nós pudéssemos “dar aulinhas” para sobrevivência.

Aprendi muito com a disciplina, o respeito e educação do povo japonês. Isso eu levo pra minha vida.

Precisamos muitas vezes estar fora para valorizar nossa cultura e identidade. Nossas dificuldades nos fizeram um povo forte, batalhador e alegre, que não se deixa abater e contagia o entorno.

Uma outra questão que me chamou a atenção é a segurança pública. Não há assaltos a mão armada. Tínhamos a tranquilidade de ir e vir a qualquer hora do dia ou da noite com dinheiro e pertences pelas ruas sem a paranoia de olhar para todos os lados como acontece aqui. Eu podia fazer comprinhas, deixar no carro aberto ou na bicicleta, voltar e as coisas continuavam intactas.

VRP: Qual foi a sua sensação ao retornar para o Brasil?

Érica: Depressão. Desânimo. Frustração. Sensação de “não acredito que está acontecendo comigo isso!” (De novo o desemprego.)

Matar a saudade da família é muito bom e dos amigos também. Eis a grande vantagem reconfortante. Mas foi difícil assimilar a realidade. Levou tempo.

Aeroporto – Brasil – Chegada

VRP: Ainda mantem um relacionamento com os gringos? Como é essa relação hoje?

Érica: Não. Perdemos contato com os funcionários da linha de produção. Com colegas brasileiros, contatos via Facebook. Com minha cunhada, idem. Ela posta fotos de nossos sobrinhos. Às vezes nos vemos pelo Skype mas com ela quase não falo por não ter fluência no idioma japonês e ela não sabe muito o inglês. Meu cunhado continua morando lá. Meus sogro e sogra voltaram alguns meses depois. Pretendo voltar a estudar para nos comunicarmos melhor.

VRP: Quais foram as maiores dificuldades enfrentadas no país?

Érica: Idioma, saudade da família e amigos do Brasil, pensamentos ainda enraizados na rotina deixada pra trás.

Outra questão é saúde e previdência. No Japão, não há sistema totalmente gratuito como o SUS no Brasil. Para consultas médicas, exames, remédios e internação ou cobra-se integralmente os custos do paciente ou opta-se por entrar no sistema de saúde e previdência pagos parte pelo empregador, parte descontados do pagamento do trabalhador ao governo: o Shakai Hoken. Nesse caso, os custos são descontados em 70%. E em caso de doença que fosse necessário afastamento, era possível requerer apenas 60% do dia trabalhado.

Até onde sei, as empresas sérias contratam trabalhadores com a contribuição compulsória do seguro. Porém já vi muitos casos de operários e empreiteiras que optam por não pagar, o que na prática significa mais dinheiro em folha de pagamento. No entanto, quando adoece, acaba ficando caro.

Nós não recebíamos se ficássemos sem trabalhar. A hora era descontada quando nos ausentávamos da linha de produção, mesmo que para consultas e tratamentos médicos. E em meses com feriados, o salário vinha magro. Estrangeiros não têm os mesmos direitos que os japoneses, mesmo trabalhando nas mesmas condições. As relações trabalhistas até então só são pensadas em curto prazo. Pra quem fica por mais que três anos, é bom que requeira a cidadania japonesa. Com cinco anos no país já é possível.

VRP: Faria intercâmbio de novo? Por que, para onde e por quanto tempo?

Érica: Para estudar. Para trabalhar, não. Muito pouco provável. Quero voltar para visitar meu cunhado, cunhada e sobrinhos. Faria intercâmbio para conhecer melhor Tóquio, Nara, Osaka, escalar o Monte Fuji, mas como turista ou estudante, aprimorar o idioma ou cursar algo voltado para comunicação. Por alguns meses apenas.

VRP: O que essa experiência acrescentou à sua vida?

Érica: Aprendi a ter um pouco mais de disciplina, cumprimentar com bom dia todas as pessoas em qualquer lugar sem distinção, adquiri o hábito de separar o lixo e a dar valor a cada hora trabalhada.

VRP: E como comunicador, qual foi o “peso” do intercâmbio na sua vida acadêmica e profissional? Exemplifique.

Érica: Do ponto de vista acadêmico, nenhum. Do profissional, como mencionei anteriormente, valorizo meu esforço por hora trabalhada, sobretudo quando vou gastar o dinheiro. Penso: tal produto ou serviço vai me custar o esforço de tantas horas. Vai valer a pena?

Fico pensando nas diversas agências de comunicação cujos empregados têm o hábito quase que corriqueiro de se estender além do horário do expediente normal. Eventualmente, sim, faz-se necessário para cumprir um contrato, uma campanha. E isso tem que ser valorizado e muito bem compensado e recompensado. A compensação na maioria das vezes é com o banco de horas. Vejo com frequência isso se tornar banal. Aí vira bagunça. Perde-se a disciplina que acaba comprometendo a qualidade do tempo aproveitado tanto na produtividade como na vida pessoal.

VRP: Alguma dica extra para os intercambistas iniciantes? 

Érica: Aprendizado do idioma é fundamental, mesmo que saia daqui se saber nada, aprenda onde estiver. E quando conseguir se comunicar e se fazer entendido, dê o seu recado, afirme sua identidade, orgulhe-se de suas raízes e não tenha medo de ser quem é. Num primeiro momento, busque referências como familiares ou amigos brasileiros ou ainda tenha em mãos contatos com o consulado brasileiro a fim de se buscar uma segurança, um porto seguro. Se desenvolva e acredite no seu potencial. Vamos “pra fora” para aprender e sobreviver mas também temos muito o que ensinar. Isso vale pra qualquer lugar do mundo.

VRP: Fique à vontade para acrescentar qualquer coisa que não tenha falado anteriormente.

Érica:  Acho que já falei bastante (rs rs rs).

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