EnegreceR[P] | Negros em movimento e em rede

Por Marcus Vinicius de Jesus Bonfim


A identidade negra na comunicação está em processo e irá reverberar ainda mais à medida que a nossa ascensão profissional estiver aliada a um senso ético e estético com as nossas questões e com a realidade social que vivemos e construímos

Sou negro, tenho 36 anos, casado há seis anos. Sou pai de uma linda menina negra de três anos de idade. Sou filho de dois baianos que vieram passar lua-de-mel em São Paulo em 1978, e não voltaram mais, a não ser para visitas rápidas aos familiares (que conto nos dedos quantas vezes foram). Minha mãe, Dona Célia, professora do Ensino Fundamental e técnica de laboratório (sim, ela criou seus três filhos em tripla jornada de trabalho – dois empregos e dona de casa). Meu pai, Humberto, foi segurança, músico não profissional e integrante da velha guarda do Vai-Vai, faleceu há dois anos. Sou irmão mais velho do Júnior (o do meio) e da Viviane (a caçula), que herdaram do meu pai a vertente artística – que não domino absolutamente nada. Temos ainda mais cinco irmãos e irmãs, frutos de outros relacionamentos do meu pai (e aí já é outra história, risos), e, graças a Deus, todos nos damos muito bem, nos comunicamos e, principalmente, nos amamos como irmãos mesmo. Nasci no centro de São Paulo, mas com pouco menos de um ano mudamos para a zona leste da cidade, para a Cohab II José Bonifácio, em Itaquera, lugar que me define de muitas maneiras. Infância simples, difícil, mas feliz na ZL, com poucos e bons amigos de infância com quem tenho vínculos de amizade até hoje. Prazer, sou Marcus Vinicius de Jesus Bonfim, e este é o meu perfil, ou melhor, parte dele que relato aqui.

Educação para superação e emancipação da consciência

A minha dedicação aos estudos foi forjada pela crença nas palavras da Célia e do Humberto de que a educação era o caminho – o único caminho – para a superação da realidade que estava quase que programada para minha geração, e que, felizmente, teimamos até hoje em não nos enquadrarmos. Minha mãe foi incansável nesse sentido: da primeira série até o colegial praticamente não estudei em escolas públicas próximas de casa – desde os oito anos lembro nitidamente que já tomava ônibus, sozinho, para chegar à escola, com o endereço anotado no papel e a mochila. “Vai estudar filho”, ela dizia. E eu fui: Colégio Global (em Itaquera, não muito longe de onde está o metrô Itaquera); Escola Adventista, em São Miguel Paulista; SESI 111, no Ipiranga (aqui já era ônibus e metrô, às cinco da manhã). O colegial eu fiz na Escola Estadual Sumie Iwata (que espero que o governador Alckmin não feche), de 1994 a 1996. Foi o mais próximo que estudei de casa.

A curiosidade das pessoas de ver um menino assim se deslocando tanto e tão cedo sempre me cercava de pessoas nos trajetos. Respondia a todos o que minha mãe ensinou e ainda acredito: “para estudar na melhor escola possível não há distância, quero o melhor”. E no SESI, no Ipiranga, mais especificamente, éramos (os três irmãos) chamados de “Itaquerinhas”. Porque a gente saía da Cohab II às 5h, no escuro, e chegávamos na escola às 8h, com o sol raiando e, claro, morávamos onde morávamos. E, muitas vezes vestidos com os agasalhos porque estava frio em Itaquera ao sair de madrugada – mas na escola já estava quente, os colegas de bermuda e camiseta e a gente todo paramentado para enfrentar o frio (naqueles anos São Paulo tinha as estações mais bem definidas do que hoje em dia) – do bairro que tenho orgulho de dizer que vi praticamente nascer e crescer, e mesmo quando vou visitar minha mãe que ainda mora lá, sinto certa nostalgia, pois o trajeto me forjou: estudar no ônibus, no metrô, era parte da rotina.

Essa forja ainda tinha mais reforços, pois, imaginem, nos trabalhos escolares nessa fase, quando tinha trabalho em grupo, eu sempre ia à casa dos meus colegas. As mães deles, diziam, não autorizam os filhos a irem até Itaquera fazer a lição de casa ou o trabalho que o professor passou. Então ok, eu ia. Já sabia a resposta, mas fazia questão de propor aos colegas isso, para ver o que essas colegas achavam das respostas dos pais. Era sempre uma negativa avergonhada deles em relação aos pais. Ponto pra mim.

Praticamente nesses anos do Ensino Fundamental, Básico e Médio, sempre tive a felicidade de ter ao menos um professor negro ou professora negra. E ter um espelho é sempre bom. Melhor ainda quando você é reconhecido por estes muitos espelhos como um jovem com potencial, e ser incentivado por eles a estudar, estudar mais, a saber quem você é, do preconceito e tal, e nunca baixar a cabeça. Tive vários papos assim depois da aula, ou no intervalo, rapidinho, com meus professores nessa fase, misto de alertas e passagem de bastão: “vai Marcus, você vai conseguir”. Minha mãe conta que muito pequeno eu falava de universidade e tal. Tem coisas boas e ruins que a gente não lembra, mas calam tão fundo na alma da gente que só depois alguém nos lembra. Peço a vocês que guardem sempre as boas, por favor.

Mas, antes de entrar na Faculdade Cásper Líbero em 1998, em 1997 eu fiz um ano de cursinho no Núcleo de Consciência Negra (NCN), nos barracões da USP (Universidade de São Paulo), em frente à ECA – Escola de Comunicações e Artes. E essa vivência em uma sala de aula com toda a sua precariedade estrutural (na época o NCN era uma ocupação de militantes negros para aumentar a nossa presença étnica na USP, que havia começado em 1987), mas que 99% da sala era composta de negras e negros, me fez um bem danado, pois eu não era o único negro da sala. Mas chegar na USP em 1997 sem metrô como há hoje, no cursinho das 19h às 23h, era emocionante – duplamente – pela convivência e pelo receio de perder o último metrô para chegar em Itaquera a tempo de pegar o último ônibus pra chegar em casa. Não estava trabalhando na época por conta do alistamento militar, então, na manhã do dia seguinte, ‘bora’ estudar. Dos tempos de cursinho, mais um grupo especial de amigos que convivemos até hoje, com a promessa de uma festinha pelos 20 anos de amizade e troca de experiências em 2017. E muito carinho por professores como Rosângela e Billy Malachias, irmãos negros e professores militantes.

Naquela época já discutíamos cotas – mecanismo do qual sou defensor, sim, mas por um tempo determinado pela equidade quando for alcançada. Se forem necessários 100 anos para a paridade ser alcançada, que leve o tempo que for. A corrida pela educação começou e ainda é desigual. Hoje, se temos ENEM (Exame Nacional do Ensino Médio) e se há discussão de cotas em larga escala em universidades federais, o movimento negro deveria chamar para si essas conquistas, pois o incômodo gerado pela militância de muitos foi o que fez as políticas públicas melhorarem um pouco, a ponto do ENEM ser o instrumento que é para a inclusão social e para a educação. Quem me dera se na minha caminhada lá atrás eu tivesse o ENEM, Ciências Sem Fronteiras e outros programas que dão tantas oportunidades a jovens negros e não negros como há hoje. Teria expandido meus horizontes muito mais rápido do que os passos que trilhei, mas a minha caminhada é só minha, por isso peço aos jovens que valorizem cada uma dessas políticas públicas, e ocupem esses espaços.

Não passei na Fuvest por 12 pontos, mas passei na Cásper, embora na época não tinha grana pra pagar a mensalidade. Meu pai passou um cheque “voador” pra assegurar a minha matrícula, eu não queria: “Pai, deixa, ano que vem eu tento de novo”. “Filho”, disse ele, “se você passou, siga em frente. Seus pais dão um jeito”. Foram seis meses tensos com isso, mas, graças a Deus, arrumei um ‘trampo’ em agosto de 1998, e daí já tinha como pagar a minha graduação com o meu salário. Conclui o curso em 2001, fui orador da turma até, mas terminei de pagar em 2003.

Daí a sequência de estudos na pós-graduação se seguiram com duas especializações na ECA-USP, e a recente conclusão do Mestrado em Ciências da Comunicação, também na USP. E não vai parar por aí, tem o doutorado e a livre-docência.

Em paralelo aos estudos, sempre mantive a minha militância como negro em movimento: alguém que participa de várias iniciativas, contribui compartilhando em várias ações. Assim foi com o Fatecafro, com o Ebony English, convidado lá atrás do amigo Rodrigo Faustino, reencontro dos tempos do NCN. E, mais recentemente, colaborando também com o VOAH – Voluntários Amigos dos Haitianos e com a PPP – Parada Preta Paulista, acompanhando um outro grupo de guerreiros e guerreiras liderado pelo irmão Luiz de Jesus, que conheci nos tempos do Fatecafro, além do Kwanzaa Brasil. A vida dos negros e negras em movimento tem as tensões e inflexões de uma rede, e tem que ser assim. Acredito que essas batalhas cotidianas são aquelas que dão base às transformações maiores, como as que vêm acontecendo com o aumento de negros e negras nas universidades, no mercado de trabalho. Isso vem alicerçado pela educação contínua e permanente, da formação pela ação, informação e compartilhamento. Essa difusão, esse movimento, é o mais saudável exercício de cidadania e negritude.

Essa ação educativa de que falo, por exemplo, está no âmago das boas práticas de relações públicas, e ela deve ser mais do que uma experiência vista como algo que as organizações e os cidadãos devem fazer. O profissional que a propõe deve se conduzir como um educador social, ser e dar exemplos. Esse é o tipo de liderança que devemos exercer e que é muito complicada de assumir como conduta de vida.

Há uma frase que gosto muito, atribuída a Mahatma Gandhi, que sintetiza um pouco do que penso sobre isso: “devemos ser a transformação que queremos para o mundo”. Dentro do que posso fazer, faço com isso em mente. E faço para todos – negros e não negros – e, quando possível, questiono, inquieto, instigo a essas reflexões, especialmente agora que exerço a docência em Ensino Superior na área de Relações Públicas.

Sou da linha dos que colocam as Relações em outro patamar, menos corporativo e mais voltado ao social. Por isto as disciplinas que tenho mais prazer em ministrar são Relações Públicas Governamentais e no Terceiro Setor. E, nas disciplinas mais teóricas ou mesmo com foco maior em gestão, a perspectiva da humanização, do olhar o outro, compreender, não visar essencialmente (ou pura e simplesmente o lucro) estarão sempre presentes, na argumentação, nos exemplos, no exercício prático. E, não é por acaso, isso é compromisso.

Enegrecer a comunicação é compromisso

Por fim, o que posso deixar como reflexão (e sem deixar um ponto final) é que a identidade negra na comunicação está em processo de construção e irá reverberar ainda mais à medida que a nossa ascensão profissional – nos campos do jornalismo, das relações públicas, da fotografia, do cinema, das artes, do rádio, da televisão e na internet – estiver aliada a um senso ético e estético com as nossas muitas e diversas questões e com a realidade social que vivemos. Há críticas sobre a quantidade e/ou qualidade dos estudos sobre negritude, mas desde quando acompanho as ações do NEINB – Núcleo de Estudos Interdisciplinares sobre o Negro Brasileiro na USP e da Associação Brasileira de Pesquisadores Negros (ABPN) percebo uma produção consistente que faz as reflexões necessárias sobre a questão racial do Brasil. O passo seguinte, a ação, é que precisa de maior impacto, mas isto é um ponto que vai além da produção acadêmica e passa pelas atitudes de cada um de nós.

Enegrecer a comunicação é um compromisso que exige uma visão política e afirmativa concreta, e não necessariamente em grandes gestos, mas em ações regulares, bem pensadas e construídas, para colocar essa agenda – que é nossa – como uma agenda social de interesse de todos para uma sociedade melhor, mais plural, mais tolerante e menos hipócrita. Não tenho a ilusão de que os espaços na comunicação serão abertos como um passe de mágica. Nossa conduta e profissionalismo serão testadas tacitamente e precisaremos responder à altura, com qualidade, assiduidade, eficiência e eficácia. Trabalho redondo, nota 10. E com a nossa cara tanto quanto possível, para marcar território, para ser perceptível a diferença na concepção do produto e do resultado em si.

Temos ainda o desafio de empreender mais e melhor em nossa área. Que oportunidades como esta, que todos os anos se concentram nos meses de maio e novembro, possam ser ampliadas todos os anos, meses, semanas e dias. A pauta da negritude é extensa e transversal em vários segmentos econômicos e sociais, e requer não só o compromisso ético com o combate às desigualdades, mas um trabalho profissional. Isso requer a identificação de fornecedores, produtores, comunicadores, enfim, toda uma cadeia produtiva comprometida com esses princípios tanto quanto se busca conceitualmente a sustentabilidade – a diversidade e a inclusão são eixos fundamentais de sustentabilidade, de fato e de direito.

E para avançarmos mais vamos precisar endossar iniciativas como as que discutíamos nos tempos do Fatecafro como o “black money”, o empoderamento econômico de empreendimentos negros, e reforçar a experiência da Universidade Zumbi dos Palmares, por exemplo, para seguir os modelos das “black colleges” norte-americanas – e estabelecer convênios acadêmicos entre a Zumbi dos Palmares e estas universidades. Esse crescimento tem que ser dinamizado por nós, negros, não há outro caminho. Teremos que discutir também esse conceito de meritocracia na educação e no mercado de trabalho, que olha o mérito das pessoas, mas não colega. O que há de mérito em alguém que tem acesso a todas e tantas oportunidades e não compartilha nada com a comunidade? Que não pensa em devolver o conhecimento que adquiriu com a comunidade para fortalecimento e crescimento da coletividade?

E importante: no caminho haverá muito mais conflito e controvérsias que dependem da construção do diálogo para superar esses desafios. A ascensão dos negros e a ocupação de espaços de visibilidade despertam mais medo e receio do opressor, como vimos nos casos recentes de racismo contra a jornalista Maju Coutinho (minha contemporânea nos tempos de Cásper) e contra a atriz Taís Araújo. Reforcemos nossos espíritos para as batalhas que se seguirão.

Esse é o espírito da palavra “Ubuntu”, dá significado: “eu sou, porque nós somos”. A completude da presença de negros e negras na comunicação será uma conquista de muitos, para muitos outros. Vamos juntos.

Marcus é Mestre em Ciências da Comunicação pela ECA-USP, graduado em Comunicação Social com habilitação em Relações Públicas pela Faculdade Cásper Líbero (2001), pós-graduado lato sensu em Gestão de Processos da Comunicação (Gestcom) pela ECA-USP (2003) e pós-graduado lato sensu em Gestão Integrada da Comunicação Digital em Ambientes Corporativos (Digicorp) pela ECA-USP (2011). Professor assistente no Curso de Relações Públicas da Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado (Fecap), professor convidado na pós-graduação (lato sensu) do Curso de Comunicação Organizacional da Faculdades Metropolitanas Unidas (FMU) e Presidente da Associação Brasileira de Relações Públicas – seção São Paulo.