EnegreceR[P] | Um RP negro na cidade mais negra do Brasil

Por Florilson Santana

Salvador é considerada umas das cidades mais negras do mundo fora do continente Africano. Segundo dados do IBGE de 2010, quase 80% da população se considera negra ou parda e apenas 18,9% se considera branca. Poderia ser fácil pensar que a desigualdade racial seria menor em uma cidade como a minha, mas a análise é mais profunda, e você vai entender por que ainda vivemos esse mundo tão amplo e dividido nas terras soteropolitanas.

Quando recebi o convite do Blog Versátil RP para escrever este post, pensei: como tratar de um tema tão complexo de forma sincera e reflexiva? Durante o mês de outubro, fui brindado por dois artigos sobre este tema: O racismo velado das agências de publicidade, escrito por Daniel Sollero para o site Brainstorm9; e o artigo A presença dos negros nas agências de publicidade, por Danila Dourada. Estes textos me deram uma melhor reflexão para escrever o meu, um olhar sincero pelas vivências que possuo nos ambientes de Comunicação em Salvador. De ante-mão, aviso: vou definir aqui as pessoas entre negras e não-negras, desconsiderando a afirmação social que elas se consideram, já que não tive como questioná-las individualmente para identificar tal dado.

Estudei Relações Públicas em uma faculdade pequena na região metropolitana de Salvador. Fui aprovado com uma bolsa integral pelo Prouni, advindo do Enem. Minha turma era formada por 80% bolsistas, 90% negros e quase todos eram os primeiros estudantes de nível superior na família. Moradores de muitas cidades vizinhas, todos trabalhavam durante o dia e enfrentavam mais de duas horas de trânsito para chegar na faculdade, que funcionava à noite, retornando à quase meia-noite para casa.

Dos 30 alunos que adentraram o curso comigo, apenas 11 concluíram a graduação. Dentre as principais questões que levaram a desistência, estão justamente a condição financeira e a falta de apoio familiar no prosseguimento dos estudos. Dos que se formaram, 8 podem ser considerados negros e 3 não-negros. Atualmente, apenas quatro se encontram no mercado de trabalho de comunicação e o restante atua em atividades fora da área.

Os primeiros profissionais de Comunicação que tive contato direto foram meus professores, e destes quatro anos em que estive na faculdade, de um total médio de 25 docentes, apenas 2 considero negros. Um número interessante para notar o acesso “igualitário” ao nível superior que sempre existiu em nosso país e que muitos questionam não serem necessárias ferramentas de apoio racial em nossa sociedade.

Comecei a minha vida profissional em uma construtora, trabalhando como estagiário no setor de marketing. Minha chefe não era negra, os donos da empresa não eram negros, meus colegas não eram negros, apenas o office-boy da empresa era negro. Com o tempo, essa realidade foi mudando, não sei exatamente a explicação, talvez uma quebra de paradigma social com a minha presença: o office-boy foi promovido como assistente administrativo e mais três funcionários negros foram admitidos em cargos de nível superior.

Após quatro anos de empresa, fui atuar numa agência de Comunicação em Salvador, e aqui tenho uma realidade especial, pois algumas colegas, apesar de poderem ser consideradas não-negras, afirmam que são negras e dizem que isto está no sangue delas, por isso não aceitam serem chamadas de brancas. Elas são jornalistas, e tal fato, eu creio, permite que elas tivessem uma maior reflexão sobre a identificação racial em que estão inseridas.

No prédio onde trabalho funciona uma das maiores agências de Comunicação do Nordeste. Confesso que tenho costume de analisar cada pessoa que desce no andar exclusivo da empresa, e fico pensando um dia ter a chance de ser um profissional dessa equipe. Nesta mesma observação, consigo notar também quantos poucos são os funcionários negros que saem do elevador naquele andar. A maioria é de mulheres loiras, ou homens de olhos castanhos, verdes ou azuis. Tive a curiosidade de acessar a fanpage de lá para ver quem é a equipe que trabalha na agência. Eis a foto, é só olhar e tirar as suas conclusões:

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Andando ainda no mundo da Comunicação, vamos ao jornalismo baiano; ligo minha TV sempre pela manhã para assistir o telejornal local enquanto tomo meu café e vejo esta imagem:

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Vou almoçar e olho para as polegadas em LED nesta imagem:

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Assento-me no sofá para ver as notícias do dia e…

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É, minha amiga e meu amigo, vivo em uma das cidades mais negras fora da África e o que vejo são imagens freqüentes da “oportunidade igualitária” que todos os profissionais possuem no mercado de Comunicação, na educação e na sociedade baiana.

Seja bem-vindo a Bahia, meu rei. Aqui não somos negros, temos lindos cargos e somos valorizados diariamente.